Por intermédio dos espaços virtuais que os exprimiriam, os coletivos humanos se jogariam a uma escritura abundante, a uma leitura inventiva deles mesmos e de seus mundos(...) poderemos então pronunciar uma frase um pouco bizarra, mas que ressoará de todo seu sentido quando nossos corpos de saber habitarem o cyberspace: “Nós somos o texto.” E nós seremos um povo tanto mais livre quanto mais nós formos um texto vivo.
Pierre Lévy

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A era da depressão permanente

Se, durante o século XIX e começo do XX, a histeria era a forma mais evidente de sofrimento, no século XXI esse espaço foi tomado pela depressão. Expressa na ausência de vontade e de projetos futuros, não é exagero chamá-la de epidemia. Em 2000, um relatório da Organização Mundial da Saúde já previa que 15% da força de trabalho mundial abandonaria seus postos por motivos relacionados à doença. No Brasil, o número de quadros depressivos cresceu impressionantes 705% em 16 anos. O problema atinge principalmente a juventude.
Leia a coletânea abaixo e escreva uma redação sobre o tema:

Depressão: a doença do século XXI


A doença do
 século XXI
A psicanalista Teresa Pinheiro fala sobre a depressão 
e sua relação com a sociedade imediatista de consumo


Por Tory Oliveira
Se, durante o século XIX e começo do XX, a histeria era a forma mais evidente de sofrimento, no século XXI esse espaço foi tomado pela depressão. Expressa na ausência de vontade e de projetos futuros, não é exagero chamá-la de epidemia. Em 2000, um relatório da Organização Mundial da Saúde já previa que 15% da força de trabalho mundial abandonaria seus postos por motivos relacionados à doença. No Brasil, o número de quadros depressivos cresceu impressionantes 705% em 16 anos. O problema atinge principalmente a juventude. Já em meados dos anos 80, a psicanalista e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade da UFRJ Teresa Pinheiro, 61 anos, viu o seu consultório ficar repleto de jovens deprimidos. Por telefone, a carioca conversou com Carta na Escola sobre as raízes do problema na sociedade de consumo, na mudança da relação da sociedade com o tempo e sobre a importância de retomar o sentido do papel social como forma de combatê-la. 

Carta na Escola: Como podemos definir a depressão? Qual é a diferença, o limite, entre tristeza e depressão?
Teresa Pinheiro: Comparar com a tristeza facilita. A tristeza é um sentimento que você tem em razão de uma coisa muito objetiva: perder alguém, não poder realizar algum projeto que gostaria muito, se decepcionar com algo etc. A tristeza é uma coisa localizável, há um objeto que gera esse sentimento de tristeza. O que chamamos de depressão é algo mais ligado ao não desejo, não a um fato objetivo, mas a alguma coisa de um sentimento de não vontade, se a gente puder dizer assim. Não tenho vontade de nada, a vida parece não ter mais nenhum colorido, não há nada que atraia. São as depressões mais graves. As depressões não precisam ser tão graves, mas podem simplesmente estar expressas nessa ausência de projetos futuros e na ausência de vontade. 

CE: A senhora escreveu no artigo “Depressão na contemporaneidade” que, se a histeria foi o modo de sofrimento mais evidente no fim do século XIX e início do XX, a depressão é, sem dúvida, a marca mais pregnante do fim do século XX e do nascimento do século XXI. A frase conversa com dados do Datasus, que revelam que o número de mortes relacionadas com a depressão aumentou 705% em 16 anos. Por que a depressão tornou-se o modo de sofrimento mais evidente no século XXI?
TP: Acho que cada época, cada cultura, produz os seus sintomas. Quando a sexualidade era muito cheia de tabus e proibições, evidentemente que a histeria virou uma coisa prevalente, porque era o sintoma que de alguma maneira ia contra isso e apontava para a sexualidade. Tenho impressão que a depressão não é diferente. Ela é uma expressão de resistência a uma sociedade de consumo, a uma sociedade voltada para as performances: o homem de sucesso, o homem que é capaz de brilhar na sua carreira, quando tudo vira um grande acontecimento. E, por outro lado, o mundo dava referências muito estáveis para as pessoas. Você até poderia ir contra essas referências, mas existiam normas do que eram um bom pai, um bom filho, um bom trabalhador, o que era uma pessoa de bem, que hoje não se usa mais. Existiam referenciais morais, e da instituição familiar, sem dúvida, que pareciam muito estáveis e eram dados de fora para dentro. Isso é o que me interessa. O mundo hoje foi demolindo essas categorias e as referências passaram a ser internas: cada um decide o que é bom e o que é mau. Isso não está mais fora do sujeito, está dentro dele. E há uma dimensão de solidão, no mundo atual, em razão disso, e a ausência da ideia de bem comum, e, além disso, para quem está trabalhando com o adolescente, há uma ideia fundamental no mundo de hoje que é a ideia de utilidade.

CE: Como assim?
TP: Com a ausência do bem comum, perdeu-se a noção de que você pode ser útil para alguma coisa. Você vive só para si, não tem um papel na sociedade. Você não é útil para o outro e não tem um papel social. Essa falta de noção de utilidade deprime muito. Tanto faz se você existir ou não, tanto faz tudo. Na hora que se lançam ideias comunitárias ou de bem comum, ou que se voltam a lançar ideias de que você pode ser útil para alguma coisa ou alguém, esses quadros depressivos, não todos, mas sobretudo na adolescência, melhoram muito. Acho que as manifestações de junho de 2013, com todos os problemas e críticas, deram ao jovem uma sensação de que ele pode ser útil e lutar por algo, ele pode ter um papel na sociedade. Acho que isso tinha sido banido completamente.

CE: Como podemos relacionar a questão desse narcisismo, da rede social, a senhora acha que contribuiu para as pessoas se sentirem mais isoladas ou tristes? 
TP: Eu não gosto dessa leitura. Acho muito preconceituosa com o instrumento. Esta é a nova forma de comunicação do mundo. Se a gente disser que ela é ruim, fica parecendo que existia uma boa antes. Não é verdade. Ela tem prós e contras. O jovem não tem de estar feliz só na rede social, ele tem de parecer feliz no colégio, nas festas etc. Não é só a rede social que produz, isso é um colorido da cultura. E acho que a internet deu ao jovem uma sensação de que ele pode atravessar fronteiras e isso dá mesmo a sensação de mais companhia, ainda que isso seja frágil ou falso. Ele faz uma rede de conhecidos que vai trazer um colorido multicultural. Acho muito interessante e acho que é diferente. A grande mudança que ninguém estava preparando nesses procedimentos tecnológicos é a relação com o tempo. A relação com o tempo mudou, mudou a forma de estar no mundo. E nessa forma de estar no mundo, que virou muito imediatista, a dificuldade de construir projetos futuros para a garotada ficou muito grande. Já era difícil, quando a gente era garoto, ter projetos de futuro. Um menino de 18 anos não consegue se imaginar com 80. Com essa mudança completa na relação com o tempo, fica anda mais difícil, pois tudo é muito imediato. A dificuldade de se costurar um projeto futuro implica nas características narcísicas de uma depressão. Isso a escola tenta suprir de alguma forma: ensinar o garoto a ter um projeto, a fazer uma pesquisa que começa em março e termina em dezembro, isso vai dando uma costura no tempo que dá a possibilidade de ele se projetar no futuro. 

CE: A depressão tem crescido entre os jovens brasileiros? Por quê?
TP: É um fenômeno no mundo inteiro, não só no Brasil. É importante buscar respostas para isso. Implicar a juventude nas relações sociais daria a ela uma nova maneira de estar no mundo e, sem dúvida, haveria uma melhora grande na questão da depressão. A outra coisa é a valorização extrema que se fez da aquisição de objetos. O mundo do consumo incutiu a ideia de que você é aquilo que você tem. E isso é muito ruim. Porque, se você não tem, você não é nada. Temos problemas de uma sociedade de consumo que quer vender e vai imprimir esse tipo de pensamento. Acho que, sobretudo, implicar o jovem como um fator fundamental na sociedade, na escola, no bairro, na rua, dar-lhe a ideia de que ele pode fazer a diferença seria fundamental. Agora, isso é difícil. O mundo não caminha para isso, mas, sim, caminha para cada vez mais fazer o jovem desacreditar em tudo. Uma das coisas mais graves que se faz, no Brasil muito especificamente, essa desqualificação do político, de que a política é uma coisa suja, desacreditada, dá a sensação ao jovem de que tanto faz, não há nada a fazer. Nada fará a diferença. Então nada mudará. Isso é um discurso muito depressivo. A sociedade está produzindo um texto de descrença, de que não há nada a ser feito, tudo é uma porcaria. Isso é terrível. O que mudaria isso é se a gente apostar que as pessoas podem fazer a diferença e o jovem, sobretudo por ser jovem, por ter gás e ter a capacidade de se apaixonar por ideias, pode fazer a diferença.

CE: O tema da depressão chamou muita atenção recentemente, até pela morte do ator Robin Willians, que era comediante e se suicidou. A depressão é levada a sério ou é minimizada pela sociedade? 
TP: A depressão, dentro da área da saúde, vem sendo levada a sério já há algum tempo. O relatório da OMS de 2000 já previa uma epidemia, em 2020, de que 15% da população deixaria de trabalhar por conta da depressão. É altíssimo. Há um alerta no mundo de que a depressão está ganhando um tamanho muito grande. Ela pode estar, muitas vezes, vinculada ao uso de drogas entorpecentes. A questão da dependência química é muito difícil, as clínicas têm um índice de sucesso baixíssimo. Não se fala nisso justamente para não desanimar ninguém, mas o índice é baixo. Mas o grosso não necessariamente está vinculado ao álcool ou a entorpecentes, mas sim a uma enorme falta de sentido para a própria vida. Acho que tem a ver com você se sentir também uma coisa descartável. Existe algo terrível na sociedade de consumo: se você é aquilo que tem, o que você pensa, o que você acredita, é reduzido a nada. É uma coisa muito pesada. Acho até que a garotada está querendo dar as costas a isso. Acho que já estamos vendo uma queda dessa curva. Tomara, porque esse não pode ser o viés, entendeu? Você ser alguma coisa e não valer nada em comparação com o que você tem. 

CE: A prescrição de medicamentos para o tratamento da depressão ainda é controversa, na área da saúde, entre psicólogos e psiquiatras?
TP: É bastante controversa. Primeiro, porque se medica exageradamente, sobretudo jovens e crianças estão sendo medicados para tudo de uma maneira absurda. Outra coisa é que os antidepressivos fizeram muito sucesso no começo porque têm algum efeito no primeiro momento. Mas depois o efeito acaba. Eu não tenho nada contra a medicação, acho que, em determinado momento, é necessário tirar o sujeito daquele estado em que ele está. É um nível de sofrimento enorme quando a depressão é grave. Mas o antidepressivo não fará efeito sozinho. Eu não acredito nisso. Tratar da depressão é difícil, mas lançar mão só do medicamento é inócuo. Acho que isso faz parte do imediatismo, da relação com o tempo e da sociedade do consumo. Se tomar um remédio me fizer sentir melhor amanhã, eu prefiro isso do que qualquer outra coisa. Só que acaba não dando certo. É muito complicado.

CE: A senhora acha que, hoje, existe um certo medo do sofrimento? 
TP: Acho que sim. Mas não tenho dúvidas de que ninguém gosta de sofrer. Ninguém suporta a tristeza, por exemplo. Existe uma coisa de baixa tolerância à tristeza, de uma cultura de que a pior coisa do mundo é ficar ou ser triste. Porque a gente vem de uma cultura anterior em que o bonito era ser triste: as heroínas da ficção do início do século XX sofriam loucamente por amor. Isso a garotada não quer mais e eu acho que eles têm razão. Os jovens de hoje não têm nenhum apreço à ideia do sofrimento. Mas isso não pode se tornar uma baixa tolerância ao sofrimento, porque a gente vai sofrer. Não tem como passar pela vida sem sofrer. 

CE: Esse jovem de classe média, que é mais protegido pela família ou pela escola, a senhora acha que tal comportamento contribui para essa baixa tolerância? 
TP: Sem dúvida, é uma coisa terrível. O medo que os pais têm da possibilidade de que seus filhos possam sofrer é uma coisa que dá a sensação à criança ou ao adolescente de que ele não suportará sofrer. É uma coisa tão ruim e os pais poupam os filhos de tal ordem, que, se eles tiverem de passar por isso, não vão aguentar. Quando você aceita que seu filho sofra, você dá a ele a credibilidade de que pode passar por aquilo, de que é possível suportar, ele não é feito de açúcar e não vai desmanchar. Ele vai sofrer, mas vai superar, aprender com aquilo e sair dessa situação melhor, sofrer faz parte da vida. 

CE: Como trabalhar o tema da depressão na escola?
TP: Acho que a escola tem de fazer mais coisas em grupo com seus alunos, que se mobilizem turmas inteiras e não apenas três ou quatro que tenham mais gás. Somos seres de sociedade e o terrível é que a sociedade de consumo, do sucesso, que exclui o perdedor, é uma sociedade em que não existem grupos. Mas isso faz parte da necessidade afetiva. A escola tem um papel fundamental e pode fazer isso de uma maneira incrível: implicar os alunos em coisas para eles mesmos. 


Publicado na edição 91, de outubro de 2014 



Os tristes palhaços: como manter o riso em meio à depressão

Artigo do Estadão
‘As mortes do ator Robin Williams e do humorista Fausto Fanti, são a face mais trágica de uma condição que se comprova mais comum do que imaginamos. O dom de criar piadas parece ser mais fácil para as pessoas que vivem perigosamente próximas tanto da psicose como dos picos do humor’, escreve psiquiatra. Leia mais em 'Os tristes palhaços':





"Na realidade, quando você entrevista muitas pessoas que estão vivendo depressão, percebe que frequentemente elas não estão deprimidas porque têm vidas horríveis e pobres, e sim têm vidas horríveis e pobres porque a depressão as paralisa e não permite que façam o que deveriam para melhorar."
Andrew Solomon falou com a Zero Hora sobre a nova edição de "O demônio do meio-dia". Leia mais: http://bit.ly/1oYxhJ0

Imprensa e democracia: o mercado de notícias

A imprensa tem um papel fundamental na sociedade democrática. A busca da verdade, da informação, dos fatos seria a base do jornalismo, mas nem sempre é este o norte deste trabalho, sobretudo quando se submete a interesses do mercado, ou seja, dos proprietários dos meios de comunicação ou dos financiadores desses veículos.
Em 2014, o diretor Jorge Furtado lançou um documentário intitulado "O mercado de notícias", produto de uma larga pesquisa acerca desse relevante tema.
Ao mesmo tempo em que vivemos um período de grande liberdade e paz, formalmente garantidos no Brasil, vive-se um período de grande obscuridade na imprensa. A pressão dos tempos céleres da internet tem gerado, muitas vezes, descompromisso com a verdade, com a checagem das fontes, com preceitos básicos do bom jornalismo. Discursos de ódio, comentários anônimos e raivosos, versões (e falseamentos) da realidade, difusão de boatos como verdade colocam em cheque a qualidade da informação num tempo de grande quantidade de conteúdos. Os leitores, em geral, tem se convertido em leitores de manchete, satisfeitos com o raso, o vazio, o superficial, sobretudo se são difundidos de modo bombástico, histérico e hiperbólico, Não é à toa que iniciativas como a de jornalistas que desmentem boatos têm se tornado essenciais para uma boa leitura da própria imprensa. Diante disso, o diferencial do jornalismo deve ser não mais  a informação, mas a credibilidade que ela possui.

Leia a coletânea abaixo e escreva um texto dissertativo-argumentativo sobre o tema:

O mercado de notícias e o papel da imprensa na democracia: entre a formação, a informação e a deformação


Documentário "O mercado de notícias"

O roteiro do documentário “O Mercado de Notícias” tem como linha condutora a peça homônima do dramaturgo inglês Ben Jonson (1572- 1637), “The staple of news”. A peça de Jonson foi encenada pela primeira vez em 1626, em Londres, e esta é sua primeira tradução para a língua portuguesa, feita por mim e pela professora Liziane Kugland. A peça é uma crítica bem humorada a uma atividade recentemente criada, uma novidade em Londres: o jornalismo.

O Mercado de Notícias, o filme, traça um painel sobre mídia e democracia, incluindo uma breve história da imprensa, desde o seu surgimento, no século 17, até hoje, destacando seu papel na construção da opinião pública, seus interesses políticos e econômicos.

O documentário enfatiza dois aspectos destacados na peça de Ben Jonson: o primeiro o debate sobre a credibilidade da notícia, que inevitavelmente contraria e favorece interesses; o segundo é a necessidade constante e crescente de informações, a demanda por notícias que acaba por se tornar entretenimento.

Além dos trechos da peça e de pequenos documentários sobre a história do jornalismo, o filme traz entrevistas com treze grandes jornalistas brasileiros. Estas entrevistas, onde os profissionais compartilham suas experiências e percepções acerca da profissão – presente, passado e futuro – estão também disponíveis aqui no site, em versões ampliadas.

Acredito que um documentário, para ser durável – e ele deve ser, mais que uma notícia -, tem que ser útil, no sentido de iluminar um tema, uma atividade, uma época. Deve servir de elemento deflagrador de debates, instigar novas pesquisas, despertar nos espectadores aquilo que o Umberto Eco chama de “espírito de decifração”.

“O Mercado de Notícias” debate critérios jornalísticos, e este é o seu sentido e o sentido da peça de Jonson. É também uma defesa da atividade jornalística, do bom jornalismo, sem o qual não há democracia.

Jorge Furtado - Diretor e Roteirista

Site do documentário: http://www.omercadodenoticias.com.br/o-projeto/

SINOPSE
O Mercado de Notícias é um documentário sobre jornalismo e democracia.
O filme traz os depoimentos de treze importantes jornalistas brasileiros sobre o sentido e a prática de sua profissão, as mudanças na maneira de consumir notícias, o futuro do jornalismo, e também sobre casos recentes da política brasileira, onde a cobertura da imprensa teve papel de grande destaque.

O surgimento do jornalismo, no século 17, é apresentado pelo humor da peça “O Mercado de Notícias”, escrita pelo dramaturgo inglês Ben Jonson em 1625. Trechos da comédia de Jonson, montada e encenada para a produção do filme, revelam sua espantosa visão crítica, capaz de perceber na imprensa de notícias, recém-nascida, uma invenção de grande poder e grandes riscos.

Veja uma entrevista com o diretor do documentário:


Veja o trailer do documentário






Jorge Furtado desmistifica essência do jornalismo



Por Maria Mello, especial para o Escrevinhador


É chover no molhado dizer que a mídia tem lado, que se configura hoje em um partido político e que o jornalismo impresso está fadado a morrer em função do avanço da Internet?


Não quando é possível enxergar, num texto de teatro do século XVII, similitudes com o sistema de comunicação atual quase 400 anos depois de sua publicação: “(…) notícias criadas à moda de hoje, vigarices semanais feitas para ganhar dinheiro. E não poderia haver melhor forma para criticá-las do que criar essa ridícula agência, esse mercado onde cada época pode ver sua própria insensatez, sua fome e sede de panfletos de notícias que saem às ruas todos os sábados e que são escritos por quem não sai de casa, sem uma sílaba de verdade”.


O Mercado de Notícias (The staple of news), do dramaturgo britânico Ben Johnson, foi escrita em 1625 e conta a história de Pila Júnior, um jovem perdulário londrino que ao perder o pai e alcançar a maioridade passa a torrar a fortuna herdada com futilidades – entre elas, a compra de ‘novidades’ produzidas por um recém-montado Mercado de Notícias.


Aquela invenção, que viria a se tornar o jornalismo como hoje conhecemos, já priorizava a venda de fofocas em detrimento de acontecimentos relevantes, a manipulação da informação no lugar da apresentação dos fatos e a promíscua relação entre jornalistas e fontes, entre outras práticas pra lá de atuais.


Este é o ponto de partida da argumentação do documentário de Jorge Furtado, lançado em agosto: discutir uma suposta essência do fazer jornalístico e o seu porvir.


Na obra, o diretor intercala trechos da encenação da peça (traduzida e adaptada exclusivamente para o documentário) com entrevistas concedidas por treze profissionais de comunicação que considera “intelectualmente honestos” (funcionários de jornalões, de revistas consideradas contra-hegemônicas e blogueiros – desses, apenas duas mulheres, Renata Lo Prete e Cristiana Lôbo).



O papel político do jornalismo


Em tempos de eleição, a já desgastada discussão sobre imparcialidade jornalística torna-se ponto vital do debate amplo que o documentário propõe. A despeito de todos os entrevistados confirmarem a sua inexistência, Furtado desvela, no risível episódio da “bolinha de papel” que atingiu José Serra durante a campanha eleitoral de 2010, a opção da mídia hegemônica em silenciar sobre o que realmente aconteceu.


Dessa forma, evidencia que, além de parcial, o profissional de comunicação tende a se tornar um agente político de destaque, com poder desigualmente superior ao conferido à maioria da sociedade.




Neste ponto, Bob Fernandes põe o dedo numa ferida aberta, e que sangra mais a cada nova capa de revista: o PT, ao chegar ao governo, passou a se considerar parte de um “clube” do qual jamais foi aceito (das grandes elites, incluídos os barões da mídia). Ao optar por resolver suas querelas pelo “alto” (via relação direta com seus donos), dá com os burros n’água e se torna, a cada dia, mais refém dos veículos que tenta, sem sucesso, agradar.

Fim do jornal impresso?


Se o declínio do jornal impresso é uma realidade irrefutável, há no filme uma discussão interessante: a responsabilidade de sua queda poderia ser atribuída não apenas ao crescimento da Internet, mas ao tipo de jornalismo que se pratica no Brasil.


Para o legendário Raimundo Pereira, o jornal produzido pela empresa jornalística burguesa (com vários jornalistas, editores, colaboradores etc) é o melhor formato já inventado, por permitir uma visão sintética e panorâmica das notícias (do dia, da semana, do mês).

Mas é Jânio de Freitas quem dá a dica, ao lembrar de uma afirmação de Marx que supõe que “se os prussianos não se interessam pelos jornais prussianos, é porque talvez os jornais prussianos não se interessem pelos prussianos”.


Mais do que defender uma tese, a provocação central que Furtado apresenta é: será que, ao escamotear a importância do debate franco e plural, seja por motivos ideológicos ou econômicos, os jornais brasileiros estariam fadados a desaparecer?


Limites

Ao limitar-se a discutir apenas o jornalismo impresso, contudo, Furtado acaba evitando uma discussão mais ampliada sobre o tema, ao meu ver: se os jornais estão com os dias contados, a TVs e as rádios reinam, vigorosamente monopolizadas, acometidas pelos mesmos problemas (ou piores, posto que não contam com as cabeças pensantes dos impressos) e protegidas por uma atmosfera de medo que paralisa a sua regulamentação.


O filme é, por vezes, conciliador, tem um tom idealizado do jornalismo, mas é sem dúvida um indutor de grandes e importantes reflexões.



Jornalista cria site para desmentir boatos na internet
Por Redação em | 06.08.2014 às 07h15

http://canalte.ch/SKH4

Em maio deste ano, a morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, agredida por dezenas de moradores de uma comunidade no Guarujá, litoral de São Paulo, causou grande comoção popular dadas as circunstâncias em que a mulher foi morta. A dona de casa foi linchada por moradores da região após ser confundida com o retrato falado de uma suposta sequestradora de crianças. O fato é que a notícia, divulgada na internet pelas redes sociais, não passava de um boato.

O caso ilustra bem a irresponsabilidade de quem repercute uma informação sem o devido fundamento - algo muito comum na internet - e que acontece também na mídia convencional muitas vezes pela ânsia da 'exclusividade'. O site Boatos.org, do jornalista Edgard Matsuki, se encarrega justamente de desmentir essas falsas notícias.

Criado em junho de 2013, o endereço é fruto da necessidade que Matsuki sentiu de um espaço que filtrasse o grande volume de informações contidas na internet e que muitas vezes são repassadas indiscriminadamente pelos internautas. “A primeira consequência é mais volume de informação, mais cópia e menos apuração. A segunda são os boatos e as barrigas”, disse o jornalista ao Portal Imprensa.

Matsuki conta com a ajuda de um grupo de estudantes e recém-formados em jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) para realizar o trabalho. 8 pessoas ao todo formam o time. 

O Google é uma das grandes ferramentas de trabalho da equipe para descobrir a real história por trás dos boatos. Infelizmente a maioria das pessoas não se dá a esse trabalho quando vê uma notícia absurda.

O site está avaliando modificações em seu conteúdo e parcerias na mídia. “Por enquanto, estamos apenas na fase de negociações. Mas não há previsão para as implementações”, disse Matsuki.


O conteúdo do Canaltech é protegido sob a licença Creative Commons (CC BY-NC-ND). Você pode reproduzi-lo, desde que insira créditos COM O LINK para o conteúdo original e não faça uso comercial de nossa produção.

domingo, 19 de outubro de 2014

Temas de redação para treinar



1) Igualdade de gênero: avanços e desafios na garantia de direitos às mulheres





2) Existe racismo no Brasil?






3) Educação: relevância e desafios





4) Saúde pública: relevância e desafios





5) Crise energética: os desafios e as alternativas





6) Crise de água, crise de humanidade





7) Como garantir a mobilidade urbana






8) A nova família: avanços e desafios








9) Ciência sem fronteiras: importância e desafios






10) Como lidar com o consumo de maconha?





11) Como lidar com os dependentes de crack?







12) Violência contra crianças: como combater?







13) Como garantir o direito à infância?






14) Como a comida pode mudar o mundo?








15) Agronegócio X agricultura familiar: benefícios e malefícios








16) O uso de animais em pesquisas científicas







17) O combate à AIDS: avanços e desafios





18) Como lidar com epidemias em um mundo globalizado?







19) Futebol : entre a paixão e a violência








20) Esporte: fator de integração ou de exclusão?





21) A internet pode mudar o mundo?





22) 50 anos após a ditadura: quais os avanços e os desafios da democracia brasileira?







23) Justiceiros: o que separa justiça e vingança?







24) Rolezinhos e cultura de ostentação










25) Marco civil da internet: avanços e desafios





26) Intolerância e cultura do ódio (homofobia, intolerância religiosa, machismo, xenofobia)




27) Como lidar com o cyberbullying?





28) Consumo, lixo e sustentabilidade: como promover o equilíbrio?








29) O direito à moradia: a relevância e os desafios










30) A era da egolatria: os selfies e o narcisismo contemporâneo










31) Bolsa família: avanços e desafios do programa












32) A importância da arte: os brasileiros descobrem os museus








33) Quais os limites entre loucura e normalidade?












34) A cidade é para todos?














35) Direito autoral e propriedade intelectual na internet








36) O homem frente ao desafio da paz














37) Entre o jeitinho, o patriotismo e o complexo de vira-latas








38) Quando o humor faz mal?









39) Biografias: autores e personagens em confronto






40) A era da depressão permanente




41) Ética, corrupção e afins




42) Brasil empreendedor: relevância e desafios




43) Entre a ética e a estética: a ditadura da beleza

Ciência sem fronteiras: relevância e desafios


Impasses no Ciência Sem Fronteiras
O perfil dos estudantes e a falta de acordo com a iniciativa privada na distribuição de bolsas são desafios para programa cujo fim será em 2015


Por Thais Paiva* Carta na Escola
O programa Ciência Sem Fronteiras ultrapassa a primeira metade de vida com um inimigo difícil de combater no curto prazo: a falta de domínio de língua estrangeira por parte dos brasileiros. Em abril, foi anunciado o retorno antecipado de 110 bolsistas reprovados no teste de proficiência em inglês: 80 estavam no Canadá e 30, na Austrália. Todos faziam parte de um grupo inicialmente inscrito para fazer graduação sanduíche em Portugal, segundo principal destino dos brasileiros no programa . O país, porém, deixou de integrar o Ciência sem Fronteiras em 2013.

A exclusão de outros 1,2 mil bolsistas aumentou as polêmicas do programa, criticado pelo baixo aproveitamento acadêmico dos estudantes, má gestão e desentendimentos entre as iniciativas pública e privada na distribuição das bolsas.

O perfil dos estudantes beneficiados é um problema antigo. Desde o início, foram aprovados para estudar na Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália jovens que não tinham fluência na língua inglesa e que, consequentemente, não conseguiram acompanhar os cursos nos quais se matricularam. Trazê-los de volta ao Brasil seria um desgaste à imagem do programa e parecia uma solução descartada. 

De acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que lidera o programa no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),o retorno dos bolsistas trata-se de um “fato isolado”. Eles estão retornando, segundo o órgão, porque não atenderam exigências mínimas das universidades. “Os requisitos não são homegêneos e variam de acordo com a área do curso, o histórico escolar do aluno e a proficiência no idioma”.Até então, a solução para vencer a deficiência linguística dos brasileiros foi custear cursos de idioma, a distância, no Brasil, e presenciais, no exterior, o que onerou ainda mais as contas do programa. A bolsa para alunos matriculados em cursos de idioma no exterior estendeu-se para até 18 meses, divididos em seis meses para realização do aperfeiçoamento linguístico e de 12, para as disciplinas acadêmicas e as atividades de estágio – recomendadas, mas não obrigatórias. 

Outro imbróglio é o acordo com o setor privado. Das 26 mil bolsas que deveriam ser financiadas por empresas, apenas 5.306 foram concretizadas, ou seja, 20% do previsto. Em contrapartida, o governo afirma já ter implementado 65% de sua meta de 75 mil bolsas. Para o CNPq, o cenário mais prejudicial fica por conta da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Somadas, as instituições haviam se comprometido com o custeio de 11 mil bolsas, mas até o momento não homologaram nenhuma.

Segundo a CNI, “as bolsas não foram concedidas porque o termo de cooperação com a Capes e o CNPq não foi assinado”. A entidade descreveu um “impasse entre as partes” com relação ao período das bolsas. A CNI defende um prazo de até um ano e ressaltou que não vai custear diretamente as bolsas, pois as empresas farão isso. A CNI diz ainda haver “uma parcela específica de mil bolsas que o Senai pretende custear para os pesquisadores ligados aos Institutos Senai de Inovação e Tecnologia”, e afirma que as negociações com o governo federal avançaram e a expectativa é de assinar os termos de compromisso em breve.

A Abdib replicou que a principal dificuldade “é conseguir reunir os valores expressivos necessários para atingir a meta proposta de concessão de bolsas”. Em nota assinada por Ralph Lima Terra, vice-presidente-executivo, a entidade afirma que fez um levantamento para detectar as competências das empresas e desenvolver, com o CNPq, “um modelo de acordo de cooperação científica e tecnológica que atenda às necessidades dos diversos segmentos de infraestrutura”, como fontes renováveis de energia elétrica e tecnologias para saneamento básico e meio ambiente. Segundo a Abdib, os próximos passos serão “construir editais para selecionar estudantes” e “viabilizar a participação da iniciativa privada no Ciência sem Fronteiras”.

Procurado pela reportagem, o CNPq não respondeu se existem vínculos legais entre iniciativa privada e pública que viabilizem eventuais ônus ou cobranças judiciais no caso de não cumprimento do acordo.

A maior contribuição individual do setor privado está sob a responsabilidade da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), cujo compromisso é a doação de 180,8 milhões de dólares ao programa até 2015, correspondentes a 6,5 mil bolsas de estudo. Segundo Mário Sergio Vasconcelos, diretor de relações institucionais da entidade, o cronograma está absolutamente em dia. 

De acordo com o CNPq, possuem também acordos firmados com o programa as seguintes empresas: Shell, Statoil, Abdib, Vale, Hyunday, BG Group, Natura, Petrobras, Posco e Eletrobras. 

Contras e prós
As dificuldades não surpreendem o sociólogo Simon Schwartzman, para quem todo o programa foi elaborado às pressas e estruturado sobre um foco equivocado. Membro da Academia Brasileira de Ciências, ele acredita que a destinação de 64% das bolsas para a modalidade de graduação-sanduíche é incompatível com os objetivos almejados pelo Ciência sem Fronteiras. “A ideia de que precisa haver um intercâmbio maior para trazer competência e conhecimento para o País é importante, mas do jeito que o programa foi pensado, está longe de fazer isso. Enviar um aluno de graduação para estudar durante um ano em uma universidade estrangeira é a maneira mais adequada e eficiente de se internacionalizar a ciência?”, questiona.

Desde o seu lançamento até agora, o Ciência sem Fronteiras absorveu 2,5 bilhões de reais, implementou 49.067 bolsas (39.564 delas na modalidade de graduação sanduíche) e concedeu outras 63 mil, essas últimas já tiveram a verba empenhada, mas a prática ainda está em andamento. Desse total, falta implementar 37 mil bolsas.

Para Schwartzman, o foco do programa deveria estar nas bolsas de pós-graduação, mestrado e doutorado, que trariam maior contribuição para o desenvolvimento de pesquisas e para o amadurecimento do cenário de inovação brasileiro. Nos outros casos, diz, corre-se o risco de enviar alunos para um intercâmbio cultural, e não a uma troca acadêmica. “A verdade é que os estudantes de graduação chegam às universidades sem muito compromisso, assistem aos cursos, viajam, fazem contatos e voltam. Certamente, para eles, é uma experiência que vale a pena, mas me pergunto: qual o resultado que isso traz para o cenário científico brasileiro?”

Segundo a Capes, focar no aluno da graduação é justamente o diferencial e o desafio do programa: “Os bolsistas poderão tornar-se futuros pesquisadores e alunos da pós-graduação”.

Além disso, credita-se à dimensão do projeto empecilhos na sua execução. “Quando você tenta implementar um programa em larga escala, não há como filtrar tudo. Vai ter gente aprovada que não sabe falar uma segunda língua, vai ter universidade estrangeira não tão qualificada”, afirma Schwartzman. Segundo o CNPq, as universidades são escolhidas a partir de rankings internacionais de qualidade, como o Times Higher Education e o QS World University Rankings.

A crítica encontra respaldo em depoimentos de alunos beneficiados pelo programa. Para Luiza D’Elia, aluna de Rádio e TV da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a obtenção da bolsa de estudo na Inglaterra na área de Indústria Criativa (não mais contemplada pelos editais atualmente) foi mais relevante como uma experiência de vida. “De fato, a universidade inglesa na qual estudei tinha uma infraestrutura muito boa, laboratórios de ponta, entre outros aspectos. Mas achei o nível do ensino e dos alunos fraco”, conta a estudante, que usou o auxílio enviado pelo CNPq (que pode chegar a 1.270 libras, dependendo da cidade) para viajar pela Europa e explorar as ofertas culturais de Londres. “Pude conhecer museus, cinemas e musicais. No fim, foi isso que fez valer a pena.”

Beneficiado com uma bolsa de graduação sanduíche na Alemanha no primeiro edital do programa, Thiago Cazarine, estudante de Engenharia Elétrica da Unicamp, também apreciou a experiência, mas ressalvou o fraco nível da universidade estrangeira na qual estudou. “Lá, as aulas têm um ritmo lento, o conteúdo é bem mastigado. Às vezes, eu sentia que os professores subestimavam a capacidade de compreensão dos alunos.” Para o estudante, conhecer pessoas de diferentes lugares, religiões e etnias foi o aspecto mais enriquecedor do intercâmbio.

Por outro lado, Janaína Ataíde, estudante de Farmácia da Unicamp, diz que o programa foi a oportunidade de estudar fora do País com a qual sonhava desde o Ensino Médio. “Meus pais não teriam condições financeiras de me manter estudando fora por muito tempo.” Após obter bolsa, Janaína estudou durante um ano no Canadá. “Lá, o curso de Farmácia é focado na área clínica e no farmacêutico dentro do hospital, enquanto aqui o enfoque é na indústria, no medicamento. Teve um caráter complementar.”

Para Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o modelo universitário estrangeiro, baseado em menos horas em sala e em mais pesquisas e trabalhos, pode levar a esta impressão equivocada sobre o nível das instituições. “Os alunos aqui são muito paparicados. Não estão acostumados a correr atrás da informação. E tem outra coisa que precisa ser questionada: o aluno só estuda porque tem cobrança? Quer dizer que, se o curso não tem prova, não tem mérito?” Para ela, as acusações em relação aos resultados trazidos pelo programa são injustas. “O que o Ciência sem Fronteiras evidenciou e serve de alerta é a deficiência que o País tem em falar uma segunda língua, mas de modo algum isso invalida a proposta do programa”, diz.

José Celso Freire Filho, coordenador institucional do Ciência sem Fronteiras na Unesp, concorda. “Diante da magnitude do programa, da quantidade de alunos e dos objetivos envolvidos, as críticas são irrisórias”, afirma. Para ele, o projeto revelou a necessidade de o Brasil desenvolver e investir em políticas públicas de capacitação em língua estrangeira. “Um País que deseja se inserir na comunidade global de conhecimento precisa de pessoas capazes de se comunicar em outras línguas. O programa expôs um problema que as universidades já conheciam antes: que a questão do idioma seria empecilho para a perfeita implementação.” •

*Colaborou Rafael Gregorio

Publicado na edição 86, de maio de 2014 

Bolsa-família: os avanços e desafios

Há onze anos, o programa Bolsa família foi criado. Após pouco mais de uma década, é possível avaliar quais os avanços e os desafios decorrentes de sua implementação no país. Escreva um texto dissertativo- argumentativo sobre o tema.

No site da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, encontra-se a descrição do programa:

O Programa Bolsa Família foi criado para apoiar as famílias mais pobres e garantir a elas o direito à alimentação e o acesso à educação e à saúde. O programa visa à inclusão social dessa faixa da população brasileira, por meio da transferência de renda e da garantia de acesso a serviços essenciais. Em todo o Brasil, mais de 13 milhões de famílias são atendidas pelo Bolsa Família.
Conheça o programa, os direitos e deveres das famílias atendidas e conte com a CAIXA no recebimento do benefício ou para retirar dúvidas sobre o programa.
Como receber o Beneficio Saiba mais
Perguntas frequentes
Quem pode se beneficiar do Bolsa Família?

A população alvo do programa é constituída por famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza. As famílias extremamente pobres são aquelas que têm renda per capita de até R$ 77,00 por mês. As famílias pobres são aquelas que têm a renda per capita entre R$ 77,01 a R$ 154,00 por mês, e que tenham em sua composição gestantes, nutrizes, crianças ou adolescentes entre 0 e 17 anos.
Quais os objetivos do programa?

O programa Bolsa Família tem por objetivos combater a fome e promover a segurança alimentar e nutricional; combater a pobreza e outras formas de privação das famílias; promover o acesso à rede de serviços públicos, em especial, saúde, educação, segurança alimentar e assistência social; e criar possibilidades de emancipação sustentada dos grupos familiares e desenvolvimento local dos territórios.
Onde posso me cadastrar?

As Prefeituras Municipais são responsáveis em cadastrar, digitar, transmitir, manter e atualizar a base de dados, acompanhar as condições do benefício e articular e promover as ações complementares destinadas ao desenvolvimento autônomo das famílias pobres do município.




ONU elogia Brasil por Bolsa Família 24/07/2014 

O relatório do Pnud, com o título Sustentar o Progresso Humano: reduzir as vulnerabilidades e aumentar a resiliência, aponta o Brasil como o autor de boas medidas na área de desenvolvimento humano. Uma das iniciativas elogiadas é o Bolsa Família, que, segundo o documento, "é um programa de transferência de dinheiro que tenta minimizar efeitos negativos a longo prazo, mantendo as crianças na escola e protegendo a sua saúde".

"[O programa] custou apenas 0,3% do Produto Interno Bruto entre 2008 e 2009 e foi responsável por 20% a 25% de redução da desigualdade (...) e está ligado a uma redução de 16% da pobreza extrema", diz o documento, acrescentando que muitos países "têm descoberto que um investimento inicial de uma pequena parte do PIB tem benefícios que em muito o ultrapassam".

O relatório garante que fornecer benefícios de segurança social básicos aos pobres "custaria menos do que 2% do PIB mundial" e contraria a ideia de que apenas os países ricos podem oferecer serviços universais.


Ser contra ou a favor do bolsa família não é uma “simples diferença de opinião entre pessoas decentes”. Ser contra é imoral

Outrofobia. Claudia Regina e Alex Castro

Claudia Regina:

O valor inicial do bolsa família é de R$ 77 por pessoa. Variáveis podem fazer o benefício chegar até no máximo R$ 175. O programa beneficia mais de 50 milhões de cidadãs e cidadãos.

Existem casos de abuso? Claro. Eles também acontecem no “Ciência Sem Fronteiras”, programa que dá para cada estudante milhares de reais mensalmente, e não setenta e sete.

E aí, eu me pergunto: como é que alguém é contra isso? Como é que alguém é contra tirar milhões de pessoas da linha da pobreza dando menos de duzentos reais por mês pra cada uma elas?

Realmente, não entendo. Mas pode ser coisa minha, já que também “mamo nas tetas do governo” desde sempre, afinal estudei da primeira série à faculdade em instituições públicas e uso o SUS.

Conte-me um causo de pessoa de baixa renda que não quer trabalhar (abusando do bolsa família), e lhe trarei mais dez casos de gente da classe média que não quer trabalhar (abusando do seguro desemprego) e gente da classe alta que não quer estudar (abusando de capes e afins) Causos particulares não dizem nada sobre toda uma classe ou sobre todo um programa. aprendi com a vida que pessoas aproveitadoras existem em tudo quanto é canto.


Conte-me como o bolsa família é um programa eleitoreiro, e lhe conto que ele foi criado por um partido de “direita”, expandido por um partido de “esquerda”, e que ambos hoje se comprometem a manter o programa. Lhe mostrarei também que “dar um pouco de dignidade para minha família” não é ter um voto comprado, é só ter um ótimo motivo para votar em alguém em uma democracia.

Conte-me sobre como seria melhor investir em educação e saúde, e te direi, um pouco decepcionada: “sério que você acha que é simples assim?”

Conte-me como o benefício é “dado de mão beijada”, “é dar dinheiro sem pedir retorno” e “é dinheiro fácil” e te lembrarei que o google está aí, não tenha preguiça: é só fazer uma busca rápida para descobrir todas as obrigações que devem ser seguidas para ganhá-lo.

Conte-me que o bolsa-família não soluciona todos os nossos enormes problemas sociais, e te perguntarei: “onde é que você ouviu alguém dizendo isso?”

Quem é contra sempre vem com um causo particular ou com afirmações generalizantes. Quem é a favor responde com fatos, com casos universais e com estatísticas. Acho que isso já diz tudo.

Alex Castro:

Certas coisas não podem ser somente “diferença de opinião”:

“Somos duas pessoas boas e éticas e morais e interessadas no futuro do Brasil e na felicidade das pessoas brasileiras, apenas temos uma discordância de opinião política, pois eu sou contra o bolsa família e você é a favor.”

Desculpa. não consigo mais aceitar isso.

Não dá para acreditar nessa hipotética pessoa boa e justa e honesta e moral e ética (podem continuar empilhando adjetivos positivos) que seja sinceramente contra que cinquenta milhões das nossas pessoas cidadãs mais vulneráveis recebam uma ajuda que vai até R$175.

Ainda mais quando, para a santa pessoa emitindo essa idônea opinião, R$175 é o que ela gasta num jantar.

Para nós, o Bolsa-Família é uma questão ética.

Ser contra não é só uma “discordância de opinião entre pessoas decentes”. Ser contra é imoral. ser contra é ser canalha.

Severinas: As novas mulheres do Sertão, por Eliza Capai, para a Agência Pública, sobre como o bolsa-família está transformando os papéis na vida e na sociedade de um grupo de mulheres no interior do piauí e permitindo que se libertem da servidão ao homem, milenar como a miséria.



Quem é contra o Bolsa Família ou é mal-intencionado, ou está mal-informado. Publicações científicas e ONU atestam eficiência do programa

André Forastieri, em seu blog

Sempre que a oportunidade aparece, ressuscita a campanha contra o Bolsa Família. Seu objetivo não é acabar com o benefício. É tão impossível quanto acabar com o salário mínimo, o Natal, o nascer do sol. As metas são outras: manter o Bolsa Família com o menor valor possível, enxovalhar a reputação de quem o recebe, influenciar a opinião pública para que se torne politicamente difícil a criação de outros benefícios semelhantes, e bater no governo. A quem interessa? Aos que têm outros destinos para o dinheiro dos nossos impostos.

Recentemente, a correria por conta dos boatos sobre o fim do Bolsa Família ressuscitou os zumbis de sempre. As questões habituais se arrastaram para fora da tumba: o Bolsa Família é bom? É justo? Não é um estímulo oficial à vagabundagem e à procriação destrambelhada? Não seria melhor deixar de lado essa política assistencialista, e focar na geração de empregos, verdadeira porta de saída dessa esmola? Não tenha dúvida: na próxima oportunidade que pintar, os mesmos de sempre voltarão a atiçar com desinformação os mesmos preconceitos. É bom estar preparado para retrucar.

Bolsa Família: matrícula de crianças na escola é pré-requisito obrigatório para famílias receberem benefício (Foto: Arquivo)

A revista britânica Lancet publicou semana passada estudo que relaciona de forma conclusiva o Bolsa Família com a queda da mortalidade infantil. Dados de quase 3000 municípios brasileiros foram utilizados, no período entre 2004 e 2009. A Lancet é a mais tradicional publicação científica na área de saúde do planeta – existe desde 1823. Nas cidades em que o programa tem alta cobertura, a queda geral na mortalidade infantil foi de 19,4%. Cruzando o Bolsa Família com causas específicas de morte, o impacto é ainda maior: queda de 65% nas mortes por desnutrição e 53% nas mortes por diarreia. A íntegra está aqui.

O Bolsa Família, portanto, salva vidas. Não é uma solução permanente. É uma operação de emergência, necessária hoje e todo dia. Sua missão fundamental é salvar vidas em perigo, vidas que enfrentam uma calamidade permanente (o miserê nacional, desastre que de natural não tem nada). Aí chegamos a outra crítica comum ao programa: mas pra quê tanta criança? Essa mulherada sem vergonha não está parindo um filho atrás do outro, só pra garantir uma renda fixa?Leia também




A resposta é um grande não. A taxa de fertilidade do Brasil vem caindo rápido. Hoje é de 1,8 filhos por mulher, a mesma que o Chile, menos que os Estados Unidos (1,9). Está abaixo do nível mínimo de reposição da população (que é 2,1%). É evidente que se o mundo tivesse dois bilhões de pessoas, em vez de sete, estaríamos melhor na fita. Quanto menos pobre, menos pobreza… mas o fato inquestionável é que as brasileiras têm cada vez menos filhos. E cada vez mais tarde – 40% das nossas conterrâneas entre 25 e 29 anos ainda não têm filhos. Dados citados em um iluminador artigo da Economist desta semana.

A importância do Bolsa Família para essas famílias pobres ficou assustadoramente explícita nas reportagens de TV sobre o corre-corre. Pareciam cenas de refugiados na África, se batendo por um galão de água, um saco de ração. Por que nossos compatriotas ficaram tão desesperados com a possibilidade de ficar sem o Bolsa Família? Porque eles não recebem um monte de outros benefícios simultaneamente. Comparando com os países que tem a melhor qualidade de vida, o Brasil tem benefícios sociais minúsculos.

O sociólogo Alberto Carlos Almeida fez uma comparação chocante entre Brasil e Inglaterra, em artigo para o jornal Valor Econômico. Os ingleses ganham salários muito mais altos que os brasileiros. E mesmo assim recebem muitos tipos de auxílio diferentes, que aqui não existem. Alguns:

– bolsa funeral (R$ 2100 para ajudar no enterro de seu familiar, incluindo pagar flores, caixão, uma viagem de algum parente para o velório etc.)

– bolsa aquecimento no inverno (média de R$ 2400 por mês para ajudar você a se aquecer no inverno)

– bolsa necessidades especiais (para deficientes ou idosos, até R$ 1500 por mês)

– bolsa cuidador de quem tem necessidades especiais (R$ 720 por mês)

– bolsa aquecimento por painéis solares (até R$ 3600 por mês)

– seguro desemprego (R$ 720 por mês)

E muitos outros de todo gênero. Almeida destaca o bolsa criança, que paga R$ 1350 por mês para a família que tem uma criança (e mais uns R$ 1200 para o segundo filho etc.). Vale lembrar que a saúde pública inglesa é boa e gratuita, assim como a educação, em sua maior parte. Por isso tudo, os ingleses são mais saudáveis e educados que os brasileiros, vivem mais e melhor que nós, em um país sem violência. Lá, os impostos são aplicados em benefícios que garantem uma vida mais saudável e segura. Quando alguém criticar o Bolsa Família, faça-lhe um favor: jogue esses dados na cara do infeliz. Nós, brasileiros, precisamos ter consciência do que funciona bem em outros países, para cobrar as mesmas leis aqui. Dou o link para a reprodução do texto de Almeida no site do Senado Federal, porque no site do Valor é só para assinantes.

Certo que o Brasil não é a Inglaterra. Certeza que há dinheiro suficiente para ajudarmos nossos deficientes, idosos, crianças, desempregados e defuntos. Estão aí os estádios faraônicos pra Copa, molezas diversas para empresas próximas do poder, benesses variadas para apadrinhados etc. Somos a sexta maior economia do mundo. Nosso desafio não é gerar recursos, é forçar a aplicação desses recursos no que trará mais benefícios para nossa população.

O PT explora politicamente o Bolsa Família? Claro, é isso que governos fazem, e oposição idem. Aécio Neves até já disse que quem criou o Bolsa Família foi o PSDB (não foi, mas criaram coisas parecidas. Lula, quando o Fome Zero não decolou, reempacotou os benefícios criados pelos tucanos, engordou um tanto o bolo, e marketou magistralmente). Minha sugestão é que os governos estaduais e municipais da oposição criem seus próprios bolsa isso e bolsa aquilo. Que bom se os políticos disputarem nosso voto nos dando dinheiro, em vez de tirar…

O questionamento do Bolsa Família mais furado de todos é o moral: é justo uma pessoa receber dinheiro, sem ter trabalhado por isso? Nem merece resposta. A questão não é de justiça, é de isonomia. Os mais ricos já recebem bastante dinheiro sem trabalhar. Embolsam rendimentos de suas aplicações financeiras, aluguel de imóveis e tal. Acionistas de empresas recebem dinheiro sem trabalhar: os lucros. E herdeiros recebem dinheiro sem trabalhar, às vezes sem nunca ter trabalhado de verdade. Muitas crianças brasileiras felizardas já têm seus futuros assegurados, graças ao que construíram seus pais ou avós. Nunca precisarão pegar no batente (e mesmo assim, como sabemos, muita gente abonada continua trabalhando, porque assim se sente realizada, produtiva, estimulada, ganha mais dinheiro ainda etc. Dinheiro é 100%, mas não é tudo…).

Na próxima vez que a campanha contra o Bolsa Família mostrar sua cara feia, ajude a cravar uma estaca em seu coração. O Bolsa Família não é nenhuma maravilha, mas é infinitamente melhor que nada. Tem que ser aplaudido, imitado, diversificado e expandido para pessoas que não têm família. Tem que ter o seu valor aumentado, bastante e rápido. Contra fatos, e vidas salvas, não há argumentos.
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