Por intermédio dos espaços virtuais que os exprimiriam, os coletivos humanos se jogariam a uma escritura abundante, a uma leitura inventiva deles mesmos e de seus mundos(...) poderemos então pronunciar uma frase um pouco bizarra, mas que ressoará de todo seu sentido quando nossos corpos de saber habitarem o cyberspace: “Nós somos o texto.” E nós seremos um povo tanto mais livre quanto mais nós formos um texto vivo.
Pierre Lévy

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Dez Mandamentos para Divulgar Notícias no Facebook e Twitter



Dez Mandamentos para Divulgar Notícias no Facebook e Twitter


1) Não divulgarás notícia sem antes checar a fonte da informação.

2) Não divulgarás notícias relevantes sem atribuir a elas fontes primárias de informação. Um “cara gente boa'' ou um “Best Friend Forever'' não é, necessariamente, fonte de informação confiável

3) Tuítes e posts “apócrifos”, sem fonte clara, jamais serão aceitos como instrumento de checagem ou comprovação. Sites que caluniam e não se dignam a informar quem é o responsável, muito menos.

4) Não esquecerás que informação precede opinião.

5) Não repassarás informações que não fazem sentido algum só porque você não gosta da pessoa ou instituição em questão. A disputa entre posições políticas deve ser baseada em um jogo limpo e não em invenciones.

6) Lembrarás que mais vale um tuíte ou post atrasado e bem checado que um rápido e mal apurado. E que um número grande de retuítes, compartilhamentos e “likes” não garante credibilidade de coisa alguma.

7) Não matarás – sem antes checar o óbito.

8 ) Não esquecerás que a apuração in loco, por telefone e/ou por e-mail precede, em ordem decrescente de importância, o chute.

9) Não terás pudores de reconhecer, rapidamente e sem poréns, o erro em caso de divulgação ou encaminhamento de informação incorreta. Pedir desculpas é divino.

10) Na dúvida, não retuitarás, compartilharás ou darás “like” em coisa alguma. Pois, tu és responsável por aquilo que repassas e atestas. Ou seja, se der merda, você também é culpado. E, sim, retuitar, compartilhar e dar “like'' em coisa ruim já rendeu condenação para muita gente.

O que é um povo?


O que é um povo?


Análise de uma fratura biopolítica

GIORGIO AGAMBEN TRADUÇÃO DAVI PESSOA em Folha de São Paulo 16/11/14

RESUMO O filósofo italiano Giorgio Agamben discute os significados do termo "povo", que tanto dá nome ao sujeito político quanto a uma classe que é politicamente excluída, sentidos díspares que geram conflitos. O trecho faz parte do livro "Meios sem Fim: Notas sobre a Política", que a editora Autêntica lança em dezembro.

1. Toda interpretação do significado político do termo "povo" deve partir do fato singular de que este, nas línguas europeias modernas, também sempre indica os pobres, os deserdados, os excluídos. Ou seja, um mesmo termo nomeia tanto o sujeito político constitutivo como a classe que, de fato se não de direito, está excluída da política.

Em italiano "popolo", em francês "peuple", em espanhol "pueblo" [em português "povo"] (como os adjetivos correspondentes "popolare", "populaire", "popular" e os tardo latinos "populus" e "popularis" dos quais todos derivam) designam, na língua comum como no léxico político, tanto o conjunto dos cidadãos como corpo político unitário (como em "povo italiano" ou em "juiz popular") quanto os pertencentes às classes inferiores (como em "homme du peuple", "rione popolare", "front populaire"). Também em inglês "people", que tem um sentido mais indiferenciado, conserva, porém, o significado de "ordinary people" em oposição aos ricos e à nobreza.

Na constituição americana lê-se, assim, sem distinção de gênero, "We people of the United States..."; mas quando Lincoln, no discurso de Gettysburg, invoca um "Government of the people by the people for the people", a repetição contrapõe implicitamente ao primeiro povo um outro.

O quanto essa ambiguidade era essencial também durante a Revolução Francesa (isto é, exatamente no momento em que se reivindica o princípio da soberania popular) é testemunhado pelo papel decisivo que cumpriu ali a compaixão pelo povo entendido como classe excluída. Hannah Arendt lembrou que "a própria definição do termo havia nascido da compaixão, e a palavra tornou-se sinônimo de azar e de infelicidade --le peuple, les malheureux m'applaudissent' [o povo, os infelizes me aplaudem], costumava dizer Robespierre; le peuple toujours malheureux' [o povo sempre infeliz], como se exprimia até mesmo Sieyès, uma das figuras menos sentimentais e mais lúcidas da Revolução". Mas já em Bodin, num sentido oposto, no capítulo da "República" no qual é definida a democracia, ou "Etat populaire", o conceito é duplo: ao "peuple en corps" [povo enquanto corpo político], como titular da soberania, corresponde o "menu peuple" [pessoas comuns, o povão], que a sabedoria aconselha excluir do poder político.

2. Uma ambiguidade semântica tão difundida e constante não pode ser casual: ela deve refletir uma anfibologia inerente à natureza e à função do conceito de povo na política ocidental. Ou seja, tudo ocorre como se aquilo que chamamos de povo fosse, na realidade, não um sujeito unitário, mas uma oscilação dialética entre dois polos opostos: de um lado, o conjunto Povo como corpo político integral, de outro, o subconjunto povo como multiplicidade fragmentária de corpos necessitados e excluídos; ali uma inclusão que se pretende sem resíduos, aqui uma exclusão que se sabe sem esperanças; num extremo, o Estado total dos cidadãos integrados e soberanos, no outro, a reserva --corte dos milagres ou campo-- dos miseráveis, dos oprimidos, dos vencidos que foram banidos.

Um referente único e compacto do termo povo não existe, nesse sentido, em nenhum lugar: como muitos conceitos políticos fundamentais (semelhantes, nisso, aos "Urworte" de Carl Abel e Freud ou às relações hierárquicas de Dumont), povo é um conceito polar, o qual indica um duplo movimento e uma complexa relação entre dois extremos.

Mas isso significa, também, que a constituição da espécie humana num corpo político passa por uma cisão fundamental e que, no conceito de povo, podemos reconhecer sem dificuldade os pares categoriais que vimos definir a estrutura política original: vida nua (povo) e existência política (Povo), exclusão e inclusão, "zoé" e "bíos". Ou seja, povo já traz sempre em si a fratura biopolítica fundamental. Ele é aquilo que não pode ser incluído no todo do qual faz parte e não pode pertencer ao conjunto no qual já está desde sempre incluído.

Daí as contradições e as aporias a que ele dá lugar todas as vezes que é evocado e colocado em jogo na cena política. Ele é aquilo que já é desde sempre e que precisa, no entanto, realizar-se; é a fonte pura de toda identidade e deve, porém, redefinir-se e purificar-se continuamente através da exclusão, da língua, do sangue e do território. Ou seja, no polo oposto, é aquilo que falta por essência a si mesmo e cuja realização coincide, por isso, com sua própria abolição; é aquilo que, para ser, deve negar, com seu oposto, a si mesmo (daqui as aporias específicas do movimento operário, direcionado ao povo e, ao mesmo tempo, voltado para a sua abolição).

De tempos em tempos bandeira sangrenta da reação e insígnia incerta das revoluções e das frentes populares, o povo contém em todo caso uma cisão mais originária do que aquela amigo-inimigo, uma guerra civil incessante que o divide mais radicalmente do que todo conflito e, ao mesmo tempo, o mantém unido e o constitui mais solidamente do que qualquer identidade. Observando bem, aliás, aquilo que Marx chama de luta de classe e que, mesmo permanecendo substancialmente indefinido, ocupa um posto muito central em seu pensamento, não é senão essa guerra interna que divide cada povo e que terá um fim somente quando, na sociedade sem classes ou no reino messiânico, Povo e povo coincidirem e não houver mais, propriamente, povo algum.

3. Se isso for verdade, se o povo contém necessariamente em seu interior a fratura biopolítica fundamental, será então possível ler de modo novo algumas páginas decisivas da história do nosso século. Visto que, se a luta entre os dois povos já estava certamente em curso desde sempre, no nosso tempo ela sofreu uma última, paroxística aceleração. Em Roma, a cisão interna do povo era sancionada juridicamente na divisão clara entre "populus" e "plebs", os quais tinham, cada um deles, suas instituições e seus magistrados, assim como na Idade Média a distinção entre povo miúdo e povo gordo correspondia a uma articulação precisa de diversas artes e profissões; mas quando, a partir da Revolução Francesa, o povo se torna o depositário único da soberania, o povo transforma-se numa presença embaraçosa, e miséria e exclusão aparecem pela primeira vez como um escândalo em qualquer sentido intolerável. Na Idade Moderna, miséria e exclusão não são apenas conceitos econômicos e sociais mas categorias eminentemente políticas (todo o economicismo e o "socialismo" que parecem dominar a política moderna têm, na realidade, um significado político, aliás, biopolítico).

Nessa perspectiva, o nosso tempo não é senão a tentativa --implacável e metódica-- de atestar a cisão que divide o povo, eliminando radicalmente o povo dos excluídos. Essa tentativa reúne, segundo modalidades e horizontes diferentes, esquerda e direita, países capitalistas e países socialistas, unidos no projeto --em última análise inútil, porém que se realizou parcialmente em todos os países industrializados-- de produzir um povo uno e indivisível. A obsessão do desenvolvimento é tão eficaz no nosso tempo porque coincide com o projeto biopolítico de produzir um povo sem fratura.

O extermínio dos judeus na Alemanha nazista adquire, nessa perspectiva, um significado radicalmente novo. Como povo que recusa integrar-se no corpo político nacional (supõe-se, de fato, que toda sua assimilação seja, na verdade, somente simulada), os judeus são os representantes por excelência e quase o símbolo vivente do povo, daquela vida nua que a modernidade cria necessariamente no seu interior, mas cuja presença não consegue mais de algum modo tolerar. E na fúria lúcida com a qual o "Volk" alemão, representante por excelência do povo como corpo político integral, procura eliminar para sempre os judeus, devemos ver a fase extrema da luta interna que divide Povo e povo. Com a solução final (que envolve, não por acaso, também os ciganos e outros não integráveis), o nazismo procura obscura e inutilmente liberar a cena política do Ocidente dessa sombra intolerável, para produzir finalmente o "Volk" alemão como povo que atestou a fratura biopolítica original (por isso os chefes nazistas repetem tão obstinadamente que, eliminando judeus e ciganos, estão, na verdade, trabalhando também para os outros povos europeus).

Parafraseando o postulado freudiano sobre a relação entre "Es" e "Ich", poder-se-ia dizer que a biopolítica moderna é sustentada pelo princípio segundo o qual "onde há vida nua, um Povo deverá ser"; sob a condição, porém, de acrescentar imediatamente que tal princípio vale também na formulação inversa, que quer que "onde há um Povo, ali haverá vida nua".

A fratura, que acreditavam ter sanado eliminando o povo (os judeus que são seu símbolo), reproduz-se, assim, transformando novamente todo o povo alemão em vida sagrada votada à morte e em corpo biológico que deve ser infinitamente purificado (eliminando doentes mentais e portadores de doenças hereditárias). E, de modo diferente, mas análogo, hoje o projeto democrático-capitalista de eliminar, através do desenvolvimento, as classes pobres, não só reproduz no seu interior o povo dos excluídos, mas transforma em vida nua todas as populações do Terceiro Mundo. Somente uma política que tiver sabido prestar contas da cisão biopolítica fundamental do Ocidente poderá deter essa oscilação e colocar um fim na guerra civil que divide os povos e as cidades da Terra.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O custo de uma roupa hiperbarata...


Por que você deve pensar bem antes de comprar uma roupa irrealisticamente barata?

ADRIANA CARRANCA

11 Novembro 2014 | 10:29

Por Livia Firth e Monique Villa* no Estadão

Na última década, além de roupas baratas, tem nos sido vendido um mito: o de que comprar uma camisa por U$ 2 é um direito de nossos tempos. A verdade é que não há nada de democrático no princípio de comprar roupas por preços irrealistas. A equação é simples: se queremos que as coleções cheguem mais rápido às prateleiras, os produtores têm de trabalhar mais e mais rápido; se queremos que nossas roupas custem menos, então o custo da produção – e os salários – têm de ser menores.

Para atender ao que se tornou uma corrida global pela chamada “fast-fashion” (o fast-food da moda), marcas passaram a exigir a troca constante de novas coleções, os estoques são mantidos intencionalmente baixos para impulsionar as compras, e a rede de fornecedores têm de responder às últimas tendências, trocando a produção em questão de horas. Como resultado, as roupas estão mais baratas e perecíveis do que nunca, alimentando os ganhos da indústria de vestuário, de U$ 3 trilhões ao ano.

No ano passado, o colapso do prédio Rana Plaza, em Bangladesh, onde funcionava um complexo de fabriquetas – que produziam roupas para as mais populares marcas do Ocidente – deixou quase 1.200 trabalhadores mortos, no maior acidente industrial em 30 anos, e colocou em evidência os custos humanos da “fast-fashion”, um alerta para que o público começasse a fazer uma pergunta importante: quem está por trás das roupas que vestimos?


A resposta está frequentemente ligada a uma dinâmica complexa, um mecanismo de exploração que funciona na base da cadeia moderna de suprimentos, e que tem suas raízes na pobreza, negligência e, mais do que tudo, na corrupção, o combustível que abastece a escravidão moderna.

De acordo com a organização Walk Free, há pelo menos 30 milhões de pessoas escravizadas no mundo, o maior número na história. Infelizmente, o tráfico de pessoas é um negócio que cresce rapidamente e movimenta quase U$150 bilhões ao ano, mais do que o PIB da maioria dos países africanos e três vezes os lucros anuais da Apple.

Escravidão é um assunto global, que vai além da indústria da moda. Relatórios recentes destacam o apelo de nepaleses que trabalham na construção civil no Qatar por U$ 0,75 a hora em jornadas de 20 horas e de imigrantes burmaneses na Tailândia que são traficados, brutalmente espancados e escravizados para pescar em alto mar o camarão que chega aos nossos pratos.

Hoje, se comparado o PIB de países com o lucro de corporações globais, percebe-se que estas são maiores e mais poderosas que muitos governos. No entanto, essas entidades transnacionais são pouco questionadas. As cadeias de suprimentos estão se tornando cada vez mais longas e complexas e frequentemente transferem sua responsabilidade à certificação de terceirizados que, na realidade, não garantem muita coisa. Mesmo quando as empresas querem fazer a coisa certa, muitas vezes não sabem o que se passa exatamente em suas cadeias de suprimentos.

E há a corrupção. Muitas das fábricas em Bangladesh, onde os trabalhadores mal pagos perderam suas vidas, assim como centenas de fábricas indianas, onde as meninas são vítimas de trabalho forçado, foram “eticamente auditadas”. Mas algumas destas auditorias não são nada mais do que negócios lucrativos e fraudulentos administrados por empresas impostoras locais contratadas por grandes multinacionais.

Segundo a ONU, tanto os governos como as empresas compartilham um princípio de responsabilidade. Em outras palavras, os Estados têm a obrigação de estabelecer salários mínimos legais justos e as empresas devem pagar os salários em conformidade. Mas a ONU também afirma claramente que, se os governos não conseguem garantir padrões salariais adequados, as empresas têm a obrigação de respeitar o direito humano a um salário mínimo e, portanto, devem estar prontas para tomar a iniciativa nesse sentido.

Uma economia cada vez mais global exige normas e regulamentos internacionais.

Temos normas rígidas e bem definidas de segurança e de regulamentação em toda a indústria da aviação, por que não deveríamos ter medidas universais para manter a escravidão fora das cadeias de abastecimento?

Mas a regulamentação global não é certamente a única resposta. Na verdade, se usarmos o mercado como uma força para o bem, poderíamos ver a mudança em um ritmo muito mais acelerado. Os governos podem levar anos para aprovar leis, e talvez nunca aplicá-las, enquanto as grandes empresas têm a capacidade de pagar preços de produção mais justos e realistas imediatamente, impactando todo o mercado e mudando a vida de milhões de indivíduos com a decisão simples de retribuir de forma adequada seus trabalhadores.

Um salário digno é um direito humano e é fundamental que os consumidores estejam plenamente conscientes do poder em suas mãos. Nós estaremos no caminho certo somente quando olharmos para um vestido de U$ 8 como um alerta vermelho e não como um bom negócio.

* Livia Firth é diretora de criação Eco Age e Monique Villa é CEO daFundação Thomson Reuters. A escravização de pessoas na cadeia produtiva é um dos temas da Conferência Trust Women, que reúne organizações, corporações e governos para discutir a aplicação e o avanço de leis pelos direitos das mulheres. O jornal Estado é parceiro da conferência, que ocorre em Londres nos dias 18 e 19 de novembro. O artigo foi escrito com exclusividade no Brasil para o blog Do Front.

Foto: Reuters

domingo, 9 de novembro de 2014

Bakhtin e o riso

Alguns textos interessantes

http://www.ibamendes.com/2011/04/o-riso-medieval-sob-perspectiva-de.html

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3964&secao=367

e-revista.unioeste.br/index.php/travessias/article/download/4370/3889


www.letras.ufmg.br/espanhol/Anais/anais_paginas.../O%20riso.pdf

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Aos que prestarão Enem



Desejo a todos os alunos, ex-alunos e leitores do blog uma excelente prova neste final de semana.






Alguns conselhos aos que embarcam nessa prova :


O que levar

- caneta esferográfica de tinta preta, fabricada em material transparente (obrigatório). 

- documento de identificação original com foto.

- cartão de confirmação da inscrição (se não recebeu, é possível imprimi-lo aqui

- alimentos e água.

Alimentos e água

É uma prova extensa e exige bastante leitura, por isso vá descansado. Leve água e algo para comer (de preferência algo que você possa comer ao longo da prova, não na primeira meia hora), mas evite alimentos com excesso de sal.


Quanto à prova: questões

- A prova do Enem possui um sistema diferenciado de avaliação que privilegia o desempenho global do aluno, e diferencia o peso de questões mais fáceis e difíceis.


- Resolva a prova inteira, não "escolha" uma matéria para fazer e sacrifique outra, isso pode prejudicar bastante seu desempenho final.


- Ao ler as questões e resolver a prova, não perca tempo demais em cada questão. 

O ideal é ler o comando da questão, verificar no texto de apoio (gráfico, texto, charge, etc) o que interessa e tentar resolvê-la. Geralmente, há questões fáceis que você conseguirá fazer na primeira leitura. As mais complexas exigem duas ou três leituras, no máximo. Se após a terceira leitura não conseguir esclarecê-la,pule-a para evitar perder tempo de prova.

Gabarito

- Reserve tempo para passar as respostas para o gabarito. Evite deixar para o final para não se atrapalhar com o tempo e o nervosismo. Há quem deixa para a última hora e acaba errando o local das questões no gabarito. Uma dica é, após resolver certo número de questões (20 ou 30), já passar o que resolveu, deixando em branco apenas as que pulou. 


Cuidado especial!!

NÃO OLHE novamente questões que você já havia resolvido. Geralmente. isso é uma armadilha perigosa e sua ansiedade pode levá-lo a apagar a resposta correta e escolher uma que está errada. Confie na sua intuição inicial: se você já resolveu, passe para o gabarito e pronto.


O chute

O final da prova é o momento de olhar novamente aquelas questões que você pulou por não conseguir resolver. Dê mais uma olhadinha para ver se consegue resolvê-las. Muitas vezes, o fato de ter voltado a ela depois fará enxergar algo que, da primeira vez, você não percebeu. Aí é só marcar a correta! Caso nessa segunda olhada, a questão continue nebulosa, o jeito é chutar. Nesse momento, chute com inteligência: se conseguir identificar alternativas absurdas, descarte-as e escolha uma das que sobrou para chutar, ok? Evite chutar às cegas.


Respeite seu corpo

Há pessoas que conseguem passar 4 horas e meia sentadas e não perdem o foco, mas nem todos são assim. Se você notar que não consegue se concentrar, que a cabeça está pesada, a visão ofuscada, peça autorização e vá ao banheiro. Lave o rosto e a nuca, tome uma água e volte. O fato de ativar um pouco a circulação e se refrescar pode melhorar sua performance. Muitas vezes, sacrificar o corpo para "não perder tempo" acaba levando-o a resolver as questões com o raciocínio lento e turvo. Como disse, há quem consiga fazer isso, outros, não.


Domingo é o dia mais cansativo. 

Além das questões de Linguagens e Matemática, há prova de Redação. Então, cuidado.


Descanso

Ao chegar sábado à noite, descanse. Não confira gabarito nem fique tempo demais conectado a conteúdos de prova. Descanse a mente, pois terá de explorá-la muito no domingo. Não adianta ficar ansioso tentando adivinhar o tema da redação, isso só o deixará cansado e inseguro. Durma cedo.


Por onde começar?

O ideal, no domingo, é começar pela redação. Logo que se chega a uma prova, a ansiedade inicial pode prejudicar um pouco a concentração para a resolução de questões, mas esse ímpeto inicial pode ser valioso na redação. É nesse momento que você conseguirá fazer relações inusitadas entre o tema e os conhecimentos que construiu ao longo de sua vida e isso gera resultados bacanas.


O que fazer na redação?


A princípio, faça apenas o rascunho do texto


Leia a proposta e os textos motivadores.


A partir disso, não se esqueça de planejar:

- qual o tema (e seus limites - no Brasil do século XXI?)

- qual a relevância desse tema (para a sociedade, para a economia, para o meio ambiente, para os direitos humanos, etc)

- quais os desafios que ele acarreta no Brasil atual? Há obstáculos para sua efetivação? 


Faça levantamento dos argumentos (vá além dos textos motivadores)

- use seu repertório (conhecimentos de História, Geografia, Sociologia, Literatura, Artes, Atualidades, Filosofia, Biologia, Física, etc).

- pense em fatos atuais ou corriqueiros ligados ou à relevância ou ao desafio que abordará e tente detalhar como isso ocorre, por que razão e que impacto gera.


Já aponte as intervenções que proporá

- esclareça quem deve agir, como deve agir (pense em algo concreto) e para atingir que objetivo



Redija o rascunho ( Introdução, Argumentos, Conclusão) e deixe-o em modo de espera


Resolva questões de outras disciplinas

Antes de revisar sua redação, é importante desconectar-se dela, por isso passe às questões de Linguagens e/ou Matemática antes de revisar seu texto.


Lembre-se de seguir os conselhos já dados para a prova de sábado. Não perca tempo excessivo tentando resolver uma questão. Notou que após um tempo razoável nela (umas 3 leituras) não conseguiu fazê-la, vá para a próxima.



Revisão do texto e versão definitiva

Após dar um tempo e resolver outra prova, você terá condições de avaliar o rascunho de sua redação e fazer a última revisão.


O que olhar na revisão


- Gramática: verifique se acentuou as palavras, se usou crase onde devia, se pontuou adequadamente as frases;

- Vocabulário: verifique se o texto ficou claro e se conseguiu variar o vocabulário (se notar muita repetição, troque por sinônimos, faça elipses, use pronomes, etc)

- Tema: verifique se abordou exatamente o tema proposto com os limites que havia na proposta (era para se referir ao Brasil? você fez isso?; era para tratar do tema hoje? você fez isso?)

- Argumentos: observe se o seu raciocínio ficou claro, se o que você inseriu ficou bem conectado com o tema e coerente com sua tese, se conseguiu analisar com certa profundidade, utilizando seu repertório cultural.

- Intervenção: você fez intervenções viáveis, dividiu atribuições (mostrou que a tarefa proposta por você não depende só do governo ou só da vontade das pessoas).


CAPRICHE na letra!






Para quem desejar rever alguns textos que tiraram nota máxima na prova do ano passado, seguem três exemplares abaixo. 














Boa prova a todos!


domingo, 2 de novembro de 2014

A virada civilizatória e o direito à cidade


A virada civilizatória de Haddad

texto de Guilherme Wisnik, publicado na Folha dia 2 de novembro de 2014

O prefeito Fernando Haddad segue hoje uma agenda própria, que confronta tabus de São Paulo, como o protagonismo do carro

É difícil hoje alguém ter a coragem de contestar o fato de que as cidades precisam encontrar novas soluções para o deslocamento em massa, e deixar de construir mais viadutos e túneis. Elas precisam de soluções que não consumam tanto petróleo, que não poluam tanto o ar, que não induzam à impermeabilização do solo e que não gerem tanto congestionamento.

Em São Paulo, nem os maiores opositores da gestão de Fernando Haddad podem negar o fato de que as ações do prefeito estão orientadas para o interesse coletivo, em termos tanto sociais como econômicos e ambientais.

Os 358 km de novas faixas exclusivas de ônibus em São Paulo são ações evidentes nessa direção, assim como os 78 km de ciclofaixas recentemente instaladas (a previsão é chegar a 400 km até o final de 2015). A considerável melhora na avaliação do prefeito pela população é sinal claro dessa consciência.

Diferentemente do que se costuma pensar, a bicicleta pode ser, sim, uma modalidade significativa no transporte da cidade. Isso porque 25% do congestionamento que temos hoje se deve a percursos curtos feitos de carro --menos de 3 km. Mas a bicicleta não é só um meio de transporte menos poluente e mais compacto: sobre ela temos maior empatia com o entorno.

As ações de Haddad se conectam com as recentes mudanças de comportamento. Existe atualmente uma tendência de abandono das regiões suburbanas (como Alphaville e Granja Viana) e de volta para as áreas mais centrais da cidade.

Além disso, o carro vem deixando de ser um bem de consumo imprescindível para as novas gerações, e os espaços públicos passaram a ser mais utilizados e reivindicados pela população, de par com as intensas mobilizações em prol do transporte público como um "direito à cidade".

Daí a tônica do novo Plano Diretor, que procura conectar as ações de mobilidade ao adensamento populacional nesses eixos de transporte, diminuindo a distância entre moradia e trabalho e restringindo o número de vagas de garagem nessas áreas. Isso porque, ao contrário do que ocorre na maior parte do mundo desenvolvido, a nossa legislação até agora exigia números mínimos de vagas, e não máximos.

Outros exemplos positivos da gestão Haddad podem ser citados, como o IPTU progressivo sobre os imóveis vazios, a inauguração das duas primeiras centrais mecanizadas de triagem de resíduos sólidos e a ampliação da coleta seletiva do lixo. Há também o apoio aos moradores da cracolândia por meio de um programa que associa saúde, emprego, moradia e assistência social.

A defesa dessas posições não deve ser confundida com uma campanha eleitoreira. Boa parte da independência das ações da prefeitura se deve, a meu ver, ao próprio isolamento de Haddad dentro do PT.

Visto com má vontade pela mídia, dispondo de baixo Orçamento, engessado pela progressiva judicialização da política e menos comprometido com a "realpolitik" do seu partido, o prefeito não viu outro caminho que não o de seguir a sua própria agenda. Uma agenda que confronta tabus cruciais da nossa sociedade, como o protagonismo do carro na cidade.

Haddad, no entanto, não faz um voo solo. Caso raro entre nós, é um político que concilia ações imediatas e cirúrgicas com uma visão abrangente e de longo prazo. É, portanto, um ator de ponta na política, assumindo uma liderança em decisões estratégicas na linha de outros prefeitos de grandes metrópoles, de espectros políticos variados, como Nova York, Medellín e Bogotá.

Quando a política parece estar submetida à hegemonia do marketing, como um reality show de estatísticas e de pesquisas construídas de maneira autogerada e pouco refletida, vejo a coerência contundente de Haddad com grande admiração. Não me espantarei se esses anos ficarem marcados na história como um ponto de virada civilizatória em São Paulo.


GUILHERME WISNIK, 42, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi curador da 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 2013

Redação do Enem

O que fazer na redação?

A princípio, faça apenas o rascunho do texto

Leia a proposta e os textos motivadores.

A partir disso, não se esqueça de planejar:
- qual o tema (e seus limites - no Brasil do século XXI?)
- qual a relevância desse tema (para a sociedade, para a economia, para o meio ambiente, etc)
- quais os desafios que ele acarreta no Brasil atual?

Faça levantamento dos argumentos (vá além dos textos motivadores)
- use seu repertório (conhecimentos de História, Geografia, Sociologia, Literatura, Artes, Atualidades, Filosofia, Biologia, Física, etc).
- pense em fatos atuais ou corriqueiros ligados ou à relevância ou ao desafio que abordará e tente detalhar como isso ocorre, por que razão e que impacto gera.

Já aponte as intervenções que proporá
- esclareça quem deve agir, como deve agir (pense em algo concreto) e para atingir que objetivo


Revisão do texto e versão definitiva
Após dar um tempo e resolver outra prova, você terá condições de avaliar o rascunho de sua redação e fazer a última  revisão.

O que olhar na revisão

- Gramática: verifique se acentuou as palavras, se usou crase onde devia, se pontuou adequadamente as frases;
Vocabulário: verifique se o texto ficou claro e se conseguiu variar o vocabulário (se notar muita repetição, troque por sinônimos, faça elipses, use pronomes, etc)
Tema: verifique se abordou exatamente o tema proposto com os limites que havia na proposta (era para se referir ao Brasil? você fez isso?; era para tratar do tema hoje? você fez isso?)
Argumentos: observe se o seu raciocínio ficou claro, se o que você inseriu ficou bem conectado com o tema e coerente com sua tese.
Intervenção: você fez intervenções viáveis, dividiu atribuições (mostrou que a tarefa proposta por você não depende só do governo ou só da vontade das pessoas).

NÃO é preciso atribuir título à redação.

CAPRICHE na letra!



Para ler os critérios de correção do Enem e alguns textos exemplares, acesse o Guia do Participante.

sábado, 1 de novembro de 2014

Orgulho e preconceito


Quão “cordial” é o povo brasileiro?
31/10/2014 Leonardo Boff
Dizer que o brasileiro é um “homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro: “Raizes do Brasil” de 1936 que lhe dedica o inteiro capítulo Vº. Mas esclarece, contrariando Cassiano Ricardo que entendia a “cordialidade”como bondade e a polidez, que “nossa forma ordinária de convívio social é no fundo, justamente o contrário da polidez”(da 21ª edição de 1989 p. 107). Sergio Buarque assume a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de coração. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio. Bem diz o autor:”a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107).
Escrevo tudo isso para entender os sentimentos “cordiais” que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve por uma parte declarações de entusiasmo e de amor até ao fanatismo para os dois candidatos e por outra, de ódios profundos, expressões chulas por parte de ambas as partes do eleitorado. Verificou-se o que Buarque de Holanda escreveu: a falta de polidez no nosso convívio social.
Talvez em nenhuma campanha anterior se expressaram os gestos “cordiais” dos brasileiros no sentido de amor e ódio contidos nesta palavra. Quem seguiu as redes sociais, se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV. Por exemplo, que um dos candidatos chame a Presidenta do país de “leviana e mentirosa” se inscreve dentro desta lógica “cordial”, embora revele grande falta de respeito diante da dignidade do mais alto cargo da nação.
Para entender melhor esta nossa “cordialidade” cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão, tendo que assumir as formas políticas, a lingua, a religião e os hábitos do colonizador português. Em consequência criou-se a Casa Grande e a Senzala. Como bem o mostrou Gilberto Freyre não se trata de instituições sociais exteriores. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado os senhor que tudo possui e manda e do outro o servo que pouco tem e obedece ou também a hierarquização social que se revela pela divisão entre ricos e pobres. Essa estrutura subsiste na cabeça das pessoas e se tornou um código de interpretação da realidade e aparece claramente nas formas como as pessoas se tratam nas redes sociais.
Outra tradição muito perversa foi a escravidão. Cabe recordar que houve uma época, entre 1817-1818, em que mais da metade do Brasil era composta de escravos (50,6%). Hoje cerca de 60% possui algo em seu sangue de escravos afro-descendentes. O catecismo que os padres ensinavam aos escravos era “paciência, resignação e obediência”; aos escravocratas se ensinava “moderação e benevolência” coisa que, de fato, pouco se praticava.
A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro que devia sempre servir. Pagar o salário é entendido por muitos ainda como uma caridade e não um dever, porque os escravos antes faziam tudo de graça e, imaginam que devem continuar assim. Pois desta forma se tratam, em muitos casos, os empregados e empregadas domésticas ou os peões de fazendas. Ouvi de um amigo da Bahia que escutou uma senhora, moradora de um condomínio de alta classe dizer:”os pobres já recebem a bolsa-família e além disso creem que têm direitos”. Eis a mentalidade da Casa Grande.
As consequências destas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos, não tanto de conflito de classe (que também existe) mas antes de conflitos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino é ignorante, porque vive no semi-árido sob pesados constrangimentos ambientais, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do nordeste nos vêm grandes escritores, poetas, atores e atrizes. No Brasil de hoje é a região que mais cresce economicamente na ordem de 2-3%, portanto, acima da média nacional. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.
Todas essas contradições de nossa “cordialidade” apareceram nos twitters, facebooks e outras redes sociais. Somos seres contraditórios em demasia.
Acrescento ainda um argumento de ordem antropológico-filosófica para compreender a irrupção dos amores e ódios nesta campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade fontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de sim-bólica (que une) e de dia-bólica (que divide). Os modernos falam que somos simultaneamente dementes e sapientes (Morin), quer dizer, pessoas de racionalidade e bondade e ao mesmo tempo de irraconalidade e maldade. A tradição cristã fala que somos simultaneamente santos e pecadores. Na feliz expressão de Santo Agostinho: cada um é Adão, cada um é Cristo, vale dizer, cada um é cheio de limitações e vícios e ao mesmo tempo é portador de virtudes e de uma dimensão divina. Esta situação não é um defeito mas uma característica da condition humaine. Cada um deve saber equilibrar estas duas forças e na melhor das hipóteses, dar primazia às dimensões de luz sobre as de sombras, as de Cristo sobre as do velho Adão.
Nestes meses de campanha eleitoral se mostrou quem somos por dentro, “cordiais” mas no duplo sentido: cheios de raiva e de indignação e ao mesmo tempo de exaltação positiva e de militância séria e auto-controlada.
Não devemos nem rir nem chorar, mas procurar entender. Mas não é suficiente entender; urge buscar formas civilizadas da “cordialidade” na qual predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeite o legítimo espaço de uma oposição inteligente e se acolham as diferentes opções políticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos (guerras de grande devastação e a grave crise no sistema-Terra e no sistema-vida), num projeto por todos assumido para que se crie o que se chamou de o Brasil como a “Terra da boa Esperança”(Ignacy Sachs).
Leonardo Boff escreveu “O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na consstrução da realidade”, Vozes, Petrópolis 1998.



Orgulho e preconceito
LUIZ FERNANDO VIANNA

RIO DE JANEIRO - Tratado como pornográfico e pervertido, Nelson Rodrigues alegava que era preciso mostrar no palco nossos "pântanos íntimos". Exorcizando-os no teatro, conseguiríamos a civilidade fora dele.

As reações ao resultado da disputa presidencial mostram que estas eleições cumpriram um objetivo rodriguiano: trouxeram à luz os pensamentos mais sombrios.

É pedagógico ver os abastados vociferando contra os "pobres", os "ignorantes", os "vagabundos". Quem já tinha perdido qualquer esperança no PT pôde constatar que as mudanças dos últimos 12 anos foram significativas.

Quando pessoas tiram suas imbecilidades do recato recomendável e gritam que estamos numa "ditadura", que o PT é "terrorista" e que os iluministas paulistas --que já elegeram Maluf, Pitta, Quércia, Fleury e sofrem com a seca-- devem ser separados dos "atrasados" nordestinos, cujo PIB cresce mais do que os das outras regiões (2,55% no segundo trimestre ante queda nacional de 0,6%), algo se revela.

Domésticas têm carteira assinada; jovens negros entram na universidade e disputam os empregos; aeroportos estão cheios. O país do quartinho de empregada está enfraquecido. Há quem não se conforme.

O "país dividido", mais um clichê no rol da imprensa, não surgiu agora, mas há uns cinco séculos. Está é ficando mais nítido. Ainda bem. Galvão Bueno e o coração brasileiro batendo ao som do Olodum não existem. A Família Scolari tomou de 7.

É pena que alguns colunistas disseminem o preconceito. Insinuaram até que eleitores de Marina e Dilma poderiam não saber usar a urna eletrônica. Entrevistam poucos bípedes, mas conversam muito com o "mercado". As Marias Antonietas estão perdendo a cabeça, e o povo já anda comendo brioches. Que assim continue, apesar da crise econômica no Sudeste.

    quinta-feira, 30 de outubro de 2014

    Cosmopolitismo selvagem

    Análise/Luiz Gonzaga Belluzzo - Carta Capital

    Cosmopolitismo selvagem
    As classes “cosmopolitas” têm sido decisivas para a reprodução do apartheid social e impiedosas na crítica a uma melhor distribuição de renda
    por Luiz Gonzaga Belluzzo — publicado 29/10/2014 05:47

    Andréa Farias Farias/Flickr

    A rejeição do “outro” não só atingiu os níveis mais profundos das almas nativas, mas também conseguiu angariar novos adeptosLeia também




    Em seu rastro de contundências, as eleições presidenciais deixam no caminho os despojos do processo civilizador. Não falo das objurgatórias trocadas entre os articulistas da chamada grande imprensa, ataques que apenas mimetizam os sacolejos e grosserias perpetradas nos Facebooks da vida.

    O apetite voraz de muitos brasileiros ricos e bonitos por preconceitos de todos os matizes chegou ao ponto do regurgitamento. Na onda recente de mastigação de impropérios racistas, homofóbicos e regionalistas, tal voracidade encontrou auxílio nos maxilares que proclamavam as virtudes da “meritocracia”.

    A prática de negar a boa-fé dos outros, dando a própria como garantida, é dogmatismo da inteligência e farisaísmo moral. A rejeição do “outro” não só atingiu os níveis mais profundos daquelas almas nativas, mas também conseguiu angariar novos adeptos. A rejeição é mais profunda porque atingiu, de forma devastadora, os sentimentos de pertinência à mesma comunidade de destino, suscitando processos subjetivos de diferenciação e des-identificação em relação aos “outros”, ou seja, à massa de pobres e miseráveis. E essa des-identificação vem assumindo cada vez mais as feições de um individualismo agressivo e antirrepublicano. Uma espécie de caricatura do americanismo.

    A rejeição também foi mais ampla porque essas formas de consciência social contaminaram vastas camadas das classes médias: desde os “novos” proprietários, passando pelos quadros técnicos intermediários até chegar aos executivos assalariados e à nova intelectualidade formada em universidades estrangeiras ou mesmo em escolas locais que se esmeram em reproduzir os valores e hábitos forâneos. Isso para não falar do papel avassalador da mídia nacional e estrangeira.

    É ocioso dizer que tais expectativas e anseios não são um desvio psicológico, mas enterram suas raízes nas profundezas da desigualdade que há séculos assola o País. Produtos da desigualdade secular e daquela acrescentada no período do desenvolvimentismo a qualquer preço, as classes cosmopolitas têm sido, ao mesmo tempo, decisivas para a reprodução do apartheid social e impiedosas na crítica ao uso da política fiscal para promover uma melhor distribuição de renda. Isso para não falar dos ataques à redução da pobreza absoluta, acoimada de “assistencialismo”.

    Examinado à luz de um projeto nacional capaz de integrar os mais pobres, o cosmopolitismo das classes endinheiradas e de seus clientes revela o seu caráter parasitário e antirrepublicano. Parasitário, sim, porque amparado na internacionalização e na financeirização da riqueza e da renda dos estratos superiores, implica uma modernização restrita da economia, com seu séquito de destruição de empregos e exclusão social.

    A dimensão individualista dessas formas de consciência, por outro lado, vem produzindo a desconstituição dos poderes e funções do Estado. Isso vai desde sua incumbência essencial, a de garantir a segurança dos cidadãos até o bloqueio sistemático da universalização das políticas de saúde, educação e previdência, marca registrada da “modernidade”, tão proclamada pelos Senhores da Terra.

    Nas confrontações que hoje assolam a política brasileira, nada mais velho do que o novo. Há um empenho edificante na troca de máscaras, enquanto o rosto do poder real permanece esculpido em sua pétrea solidez. O disfarce de maior sucesso no momento foi confeccionado por mãos hábeis. Os artesãos do cosmopolitismo selvagem ensaiam esculpir com novos cinzéis as formas petrificadas do velho arranjo oligárquico. Os escultores altamente qualificados nos ofícios da mesmice secular encaixam, sem ajustes nem atritos, a persona da mudança nos rostos dos velhos donos do pedaço.

    O cosmopolitismo abstrato, e não raro vulgar, mal consegue esconder a ferida que Nietszche desvendou nas profundezas da alma das sociedades massificadas: a diferenciação de atitudes, estilos, modos de ser são tão semelhantes entre si que, afinal de contas, não há nenhuma diferença entre eles. Condenados ao ciclo infernal do “eterno retorno do mesmo”, os “modernosos” da globalização tiveram os seus dias de glória ao proclamar o Fim da História. Hoje, o que vemos são cadáveres boiando na maré vazante da crise financeira global. Quanto mais crédula a adesão às torrentes da mercantilização universal, mais rasa a poça d’água em que terminam por se afogar os profetas do passado. Que São Pedro tenha piedade.

    Muhammad Ali: o atleta do século XX

    texto do VINICIUS CABRAL no Papo de Homem

    Seria fácil falar de um atleta medalha de ouro nas Olimpíadas de Roma em 1960, campeão mundial e defensor do título dos pesos pesados por tantos anos, considerado por muitos especialistas o maior pugilista de todos os tempos.



    Mostrar o número de vitórias, derrotas e títulos conquistados apenas quantificaria a vida deste esportista que hoje sofre do Mal de Parkinson – provavelmente desencadeado pelas pancadas sofridas enquanto lutava*. Para falar de Muhammad Ali nós temos de ir um pouco além do esporte. Sua vida ajuda a entender um pouco das décadas de 1960 e 1970.

    Clay ou Ali?

    Muhammad Ali nasceu Cassius Clay em 17 de janeiro de 1942 e só em 1964 anunciou que havia se convertido ao islamismo e mudado de nome, após vencer Sonny Liston e conquistar o título mundial pela primeira vez. O mais engraçado era que Ali já tinha contato com a religião islâmica há um certo tempo e gostava de ouvir o que o amigo Malcolm X tinha a dizer sobre os ensinamentos de Alah, mas nunca admitiu publicamente sua preferência religiosa antes de ser campeão do mundo.

    Para saber mais sobre este assunto, pesquisem sobre Malcolm X e seu mentor, Elijah Muhammad. Se eu fosse explicar essa história em detalhes o texto ficaria gigante.

    Malcolm X e Ali nas ruas

    A amizade com Malcolm X e a conversão ao islã ajudam Ali a tomar uma decisão que quase acabou com a sua carreira de boxeador: alistado no exército em 1964, foi aceito em 1966, mas se recusou a atender ao chamado da USARMY para lutar no Vietnã.

    Maluquice de Ali? Antipatriotismo? Ou simples vontade de aparecer, como hoje em dia grandes esportistas mundiais adoram figurar em cadernos de jornais e sites de fofocas? Nenhuma destas coisas. Talvez você não tenha vivido a década de 1960 (eu não vivi), mas Ali não quis “aparecer”. Talvez alguém tenha bradado em uma esquina um “antipatriota” ao ver Ali andando na rua – e grande parte da opinião pública foi contra sua recusa –, mas esta decisão de Ali foi mais que simplesmente defender ou não as cores de seu país em uma guerra. Vamos raciocinar.

    Ali nesta época já era bem famoso para o tempo dele, reconhecido facilmente pelas ruas, com fãs espalhados por todo os EUA. Sua amizade com Malcolm X não apenas o aproximou do islamismo como do Movimento pelos Direitos Civis dos Negros – encabeçado por Martin Luther King e transformado em uma luta nacional dos negros desde meados da década de 1950. Em 1966 os movimentos “Paz e Amor”, completamente contrários à guerra do Vietnã, também já estavam rolando a todo vapor nos EUA.

    Muhammad Ali vs Sonny Liston

    Muhammad Ali realmente não queria ir à guerra. Além de não querer, sua religião não permitia – nunca permitiu – que os fiéis tomassem partido de lutas que não fossem convocadas em nome de Alah ou Maomé. Sem querer (ou não), ele acabou dando um exemplo a favor da paz. Uma frase de Ali que ficou famosa sobre sua recusa de servir ao exército no Vietnã foi:


    “I ain’t got no quarrel with them vietcong… They never called me nigger.”

    [Eu não tenho problema algum com os vietnamitas... Eles nunca me chamaram de crioulo.]

    Peitar a USARMY em um dos momentos mais sufocantes da história deste corpo militar, enquanto boa parte da mídia ainda defendia com unhas e dentes a presença do país em uma guerra que já estava bem cascuda para os EUA… Pensando bem, Ali era maluco!

    A propósito, conta a lenda que Ali, após voltar de Roma campeão olímpico, teria jogado em um rio sua medalha depois de não ser atendido em um restaurante, pois o local não atendia negros. Esta história nunca foi 100% confirmada, mas o fato é que nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, Ali recebeu do COI uma nova medalha para substituir a original.


    Link YouTube | Clássico combate
    Toda decisão tem suas consequências

    Ao recusar a convocação, Ali ficou preso por um tempo. A Comissão Atlética de Nova Iorque suspendeu sua licença de boxe e retirou seu título de campeão mundial. Julgado em 1967, Ali foi considerado culpado, mas o caso chegou à Suprema Corte. Entre idas e vindas judiciais, Ali ficou mais de quatro anos sem poder subir em um ringue.

    Durante esse tempo forçosamente livre, fez diversas palestras em escolas e universidades espalhadas pelos EUA, conversando com milhares de jovens sobre a guerra do Vietnã, os direitos civis dos negros, suas vitórias no boxe. Era um negro nascido em uma família pobre e mesmo vencendo na vida com – literalmente – muita luta, era, de certa forma, um ídolo perseguido pela opinião pública por desafiar a USARMY em nome da paz.

    Em 1970, enquanto os EUA estavam atolados na guerra até o pescoço e levavam uma surra homérica de um monte de guerrilheiros de olhinhos puxados, Leroy Johnson, senador pelo estado da Geórgia, conseguiu junto à Comissão Atlética de Atlanta uma licença para Ali voltar a lutar no estado. Foi questão de tempo para o monstro voltar aos ringues e a comissão de Nova Iorque considerar a cassação de sua licença “uma injustiça”.

    Em 8 de março de 1971, em um Madison Square Garden lotado e com a luta transmitida para todo o país, após 15 rounds disputadíssimos, Muhammad Ali venceu Joe Frazier, um patriota que declarou em entrevista antes da luta que “teria ido ao Vietnã lutar pelos EUA se não fosse pai”. Cá entre nós… assim até eu viro o Rambo!

    Ali vs Frazier: 15 rounds!

    Entre defesas de títulos, derrotas e vitórias, Ali ainda reconquistaria o título mundial em uma grande luta contra George Foreman – aquele mesmo do grill que faz coisas gordurosas – no Zaire, em 1974, conhecida como “The Rumble in the Jungle” e transmitida para o mundo todo.

    Procurem um livro chamado A Luta, de Norman Mailer, e o documentário Quando éramos reis, de Leon Gast, lançado em 1996 (na íntegra no YouTube). Os dois retratam a luta do Zaire de forma excepcional.


    Link YouTube | Trecho da luta no Zaire, em 1984

    Não posso deixar de indicar também o filme Ali, com Will Smith. Ele conta a vida do boxeador durante os 10 anos mais movimentados de sua vida, entre 1964 e 1974, terminando justamente após a vitória no Zaire.

    Ali encerrou sua carreira em 1981, após uma derrota para Trevor Berbick, já sem muita condição de lutar no mesmo nível de seus bons tempos. Realmente era hora de parar. Hoje em dia Ali – presença máxima do Hall da Fama do Boxe – contribui com trabalhos de caridade em várias partes do mundo. Em Louisville está instalado o Muhammad Ali Center, onde podemos encontrar tudo sobre sua carreira e seus trabalhos sociais.

    Em 2005 Ali recebeu do então presidente George W. Bush a Medalha Presidencial da Liberdade, honraria concedida aos cidadãos norte-americanos que contribuem de forma positiva para o país.

    Luvas expostas no Smithsonian Museum of American History. Não é para qualquer um. | Fonte: Wikipedia

    Muitas pessoas consideram o boxe um esporte muito violento, idiota e inútil. Mas Ali soube usar sua imagem para ajudar na luta pelos direitos civis dos negros, denunciar uma guerra inútil e ajudar pessoas necessitadas.

    Ídolos podem usar suas imagens do jeito que acharem melhor. Ali usou a sua para levantar bandeiras importantes, mesmo sabendo dos riscos que corria. Um boa referência caso você algum dia vire celebridade.

    E você, o que acha de Ali?

    * Uma das causas comprovadas do Mal de Parkinson é o acúmulo de radicais livres produzidos normalmente durante a metabolização da dopamina. A dopamina é um neurotransmissor que tem como função estimular o sistema nervoso central. Muhammad Ali bateu muito, mas também levou muitas pancadas, principalmente na cabeça. Ligando os pontos, qualquer leigo em medicina (eu sou um!) associaria diretamente a doença à prática do boxe, principalmente em alto nível. Se eu estiver errado, grite, Dr. Health!


    Link YouTube | Coletânea de Ali em diversos momentos e lutas


    Guitarrista frustrado, faixa preta em levantamento de copo e PhD em cantadas de pedreiro que costumam dar certo. E professor de História nas horas vagas. Na falta de aulas, dá plantão no HistóriaZine.
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