domingo, 8 de novembro de 2009

MÍDIA E MULHER: HIPOCRISIA (DES)IGUALDADE DE GÊNERO

O incidente com a jovem que foi hostilizada por usar um vestido curto e vermelho para assistir à aula, pode ser um bom ponto de partida para uma discussão mais ampla. Inúmeros "fantasmas" parecem visitar novamente meus pensamentos, desde leituras feitas ainda na adolescência até a análises há pouco veiculadas pela mídia. Tentei sintetizá-las na série de questões que elenco abaixo.
A imagem social da mulher construída hoje - e difundida pelos meios de comunicação de massa - tem contribuído para o respeito e a afirmação de sua identidade?
Há ainda muita hipocrisia numa sociedade que neutraliza conquistas históricas das mulheres (de direitos e espaço)  por meio da imposição de padrões inalcançáveis de beleza, geradores de insegurança e ansiedade?
Não seria hipócrita, por um lado, cultuar os apelos sexistas de "sensualidade" e, por outro, alimentar o moralismo ao atribuir à vítima (de estupro ou de hostilização) a culpa pela agressão sofrida?
Será que muitos daqueles alunos da Uniban não seriam frequentadores de micaretas e eventos afins nos quais é "comum" quando não "desejável" a superexposição do corpo em trajes e atitudes considerados muito mais vulgares que os da estudante?


Bom, vou parar por aqui. Creio que  há pessoas com mais conhecimento e competência para tratar deste tema do que eu.


Seguem abaixo: o informe publicitário no qual a Uniban justifica sua atitude; a análise de algumas mulheres presentes ao seminário "Mídia e mulher", realizado em São Paulo e um ótimo texto do jornalista Marcos Guterman sobre "Linchamento moral".


Atitude da UNIBAN:


por Marcos Guterman, Seção: Zeitgeist 17:43:17.
Em anúncio publicado nos jornais deste domingo e que já circulam neste sábado, a Uniban informou que expulsou a aluna Geisy Arruda, aquela moça que apareceu na universidade com um vestido curto e sofreuassédio coletivo de centenas de estudantes. Diz o texto que a moça adotou uma “postura incompatível com o ambiente da universidade” e que ela provocou os colegas ao fazer “um percurso maior que o habitual”, desfilando todo o seu “desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”.
Caberia um tratado sociológico para essa peça, mas fiquemos somente com Elias Canetti, a propósito do linchamento. Em “Massa e Poder”, Canetti explica como a sensação de impunidade garantida é fator essencial para o sucesso dessa violência cometida pelo que ele chama de “massa de acossamento”: “Uma razão importante para o rápido crescimento da massa de acossamento é a ausência de perigo na empreitada. Esta não oferece perigo nenhum, pois a superioridade da massa é enorme. A vítima nada lhe pode fazer. (...) O assassinato permitido substitui todos aqueles aos quais se tem de renunciar, aqueles que, uma vez cometidos, ter-se-ia de temer a imputação de pesadas penas. Um tal assassinato – permitido, recomendado, sem perigo algum e partilhado com muitos outros – afigura-se irresistível à grande maioria da humanidade”.
Assim, como diz Canetti, todos os que participaram do linchamento moral da estudante sabiam que não seriam punidos e agiram à vontade em razão disso. A Uniban não só deixou de tomar alguma atitude em relação à massa, como também inverteu todos os sinais morais e juntou-se aos agressores, dizendo que eles estavam “defendendo o ambiente escolar”. Para terminar, como se tudo isso não bastasse, resolveu responsabilizar a vítima. Completou-se, assim, o linchamento.




Secretaria cobra explicação sobre expulsão de universitária

Movimento Feminista de SP prepara manifestação nesta segunda-feira, 9, às 18 horas, em frente à Uniban
Agência Brasil
    RIO - A ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), informou neste domingo, 8, que que vai cobrar da Universidade Bandeirante (Uniban) explicações sobre a decisão de expulsar uma aluna que usava um vestido curto e sobre o andamento das medidas contra estudantes que a "atacaram verbalmente". Nilcéa condenou a decisão de expulsar a universitária e disse que a atitude da escola de demonstra "absoluta intolerância e discriminação".




"Isso é um absurdo. A estudante passou de vítima a ré. Se a universidade acha que deve estabelecer padrões de vestimenta adequados, deve avisar a seus alunos claramente quais são esses padrões", disse a ministra à 'Agência Brasil', ao chegar para participar do seminário seminário A Mulher e a Mídia.

Segundo a ministra, a ouvidoria da SPM já havia solicitado à Uniban explicações sobre o caso, inclusive perguntando quais medidas teriam sido tomadas contra os estudantes que hostilizaram a moça. Nesta segunda-feira, 9, a SPM deve publicar nova nota condenando a medida e provocando outros órgãos de governo como o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério da Educação (MEC) a se posicionarem.

As cerca de 300 participantes do seminário A Mulher e a Mídia decidiram divulgar, ainda neste domingo, moção de repúdio à Uniban pela expulsão da estudante Geisy Arruda, que foi hostilizada no dia 22 do mês passado por cerca de 700 colegas, por usar um vestido curto durante as aulas. Aluna do primeiro ano do curso de turismo, Geyse foi expulsa da instituição, que tem sede em São Bernardo do Campo (SP). A decisão foi divulgada em nota paga publicada hoje em jornais paulistas.

A decisão da Uniban também foi reprovada pela deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), uma das participantes do seminário. Segundo a deputada, a expulsão de Geisy não se justifica e parte de um "moralismo idiota". "Mesmo que ela fosse uma prostituta, qual seria o problema da roupa? Temos que ter tolerância com a decisão e postura de cada um", afirmou Erundina.

A socióloga e diretora do Instituto Patrícia Galvão, Fátima Pacheco, discordou da decisão e questionou o argumento da universidade de que a aluna "teria tido uma postura incompatível com o ambiente acadêmico", conforme diz a nota da Uniban. "Ela não infringiu nada. Ela estava vestida do jeito que gosta, da maneira que acha adequado para seu o corpo e a interpretação do abuso, da falta de etiqueta é uma interpretação que não tem sentido"’, disse Patrícia. "É uma reação à mulher e à autonomia sobre o seu corpo. Não se faz isso com rapazes sem camisa, com cueca para fora ou calças rasgadas", completou a socióloga.

Para a psicóloga Rachel Moreno, do Observatório da Mulher, a reação dos estudantes e da universidade refletem posições contraditórias e "hipócritas" da sociedade em relação à mulher. "Por um lado, a nossa cultura diz que a mulher tem que ser valorizar o corpo, afinal de contas, tem que ser bonita, tem ser gostosa e tem que se mostrar. Por outro lado, a mulher é punida quando assume tudo isso com tranqüilidade."

Isso quer dizer que, para a sociedade, em termos de sexualidade, a mulher deve ser objeto de desejo e não de manifestar o seu desejo, sua sensualidade, concluiu Rachel.

O Movimento Feminista de São Paulo prepara manifestação nesta segunda-feira, 9, às 18 horas, em frente à Uniban. Na convocação, o movimento pede que as manifestantes compareçam usando minissaias ou vestidos curtos.

A União Nacional dos Estudantes (UNE) também condenou a decisão da Uniban.




domingo, 18 de outubro de 2009

Piratas modernos


Há 20 anos a internet se tornava acessível para usuários civis por meio da www.

Neste período, a popularização da web impulsionou inúmeras mudanças de ordem cultural, social e econômica. 

Algumas delas, porém, ainda encontram resistência no mundo "real" como a noção de compartilhamento de dados e produção colaborativa de conteúdos. Isso exige uma reflexão interessante sobre esta nova cultura "hacker" - tão sedutora para nós, usuários de internet, mas tão ameaçadora para os gigantes da indústria cultural. 

A "pirataria" não nasceu com a internet, no entanto, sem dúvida, a rede acelerou e aperfeiçoou este processo. A repercussão do caso Pirate Bay (Texto 1), a criação do Partido Pirata brasileiro (Texto 2) são bons pontos de partida para a discussão deste tema.

Vale a pena também acessar o site http://paraentenderainternet.blogspot.com/construído de forma colaborativa durante a Campus Party de 2009. Lá, um "beta-livro" apresenta textos bem interessantes para reflexão. 


A partir destas leituras, é bom refletir sobre algumas questões: a distribuição via web é pirataria ou liberdade de expressão? Existe uma maneira de se controlar a distribuição de mídia gratuita pela internet? Quais os prós e os contras dessa nova era de distribuição? 

Texto 1) Caso Pirate Bay



No tribunal, o choque entre novas e velhas mídias

Adaptado de texto de José Renato Salatiel* Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação publicado em
Reprodução
Cartum na primeira página do Pirate Bay defende-se e ataca os lucros da indústria do entretenimento
O julgamento dos responsáveis pelo The Pirate Bay, um dos maiores sites de compartilhamento de arquivos do mundo, com estimados 22 milhões de usuários, foi um marco na batalha entre a indústria do entretenimento e a cultura hacker. Pela primeira vez, uma ação conjunta foi movida pelas grandes empresas do setor, numa tentativa de desferir um golpe fatal contra a pirataria na internet.

De início, os promotores acusaram os fundadores do website - Gottfrid Svartholm Warg, 28, Peter Sunde, 30, Frederik Neij, 30, e Carl Lundstorm, 48 - de violação da lei internacional dos direitos autorais, entre outros crimes. Mas, já no segundo dia de julgamento, entenderam que eles apenas ajudam a tornar disponível material protegido por copyright.

O processo foi movido pelas multinacionais Warner Bros. Entertainment Inc., 20th Century, Fox Film Co., Columbia Picture Inc., MGM Pictures Inc., Sony BMG, Universal e EMI, que juntas formam um império no comércio de músicas, filmes e videogames.


Acesso livre

Mas o que é o Pirate Bay? Ele se autointitula como o maior traker de BitTorrent do planeta. Tracker é um computador servidor que indica computadores de usuários que possuem determinados arquivos. BitTorrent é um protocolo de compartilhamento que permite transferência de arquivos em alta velocidade.
 Ao acessar o 
Pirate Bay, o internauta encontra basicamente um mecanismo de busca que o direciona a computadores que possuem arquivo ou parte dos arquivos que contém o material disponível para download.

O sistema, também conhecido como P2P (
peer-to-peer, ou redes ponto-a-ponto), funciona assim: eu quero baixar, por exemplo, o novo álbum do grupo irlandês U2, "No Line On The Horizon". O site aponta computadores que contêm o arquivo em áudio, ou parte dele, no formato torrent. Ao mesmo tempo em que faço download do álbum, torno disponível a outros usuários da rede: sou ao mesmo tempo beneficiário e fornecedor do mesmo produto.

O que incomoda as indústrias é que produtos legalmente protegidos por copyright, como filmes, séries, games e programas de computadores, são compartilhados livremente pela tecnologia P2P. Em alguns casos, a divulgação ocorre antes mesmo do lançamento oficial do produto.

É o que ocorreu, por exemplo, com o filme brasileiro "Tropa de Elite", assistido por milhares de pessoas antes de estrear nos cinemas em 2007. Há, porém, uma diferença importante. O fenômeno "Tropa de Elite" foi impulsionado pela pirataria, que envolve organizações criminosas na produção e distribuição de fitas piratas, diferente das comunidades que compartilham arquivos na internet gratuitamente.


Cultura

O Pirate Bay representa apenas uma parcela de uma cultura hacker, cujas ideias estão na origem da própria internet. Os hackers são em geral confundidos com os crackers - indivíduos que violam sistemas de segurança de redes de computadores para fins de roubo ou vandalismo.

Ao contrário, a cultura hacker é norteada por princípios de compartilhamento livre e solidário de informações em rede, além de propor uma maior flexibilização dos direitos autorais (o chamado movimento 
creative commons). É com base nestes valores que funcionam blogs e sites como YouTube e Wikipédia.

As mesmas leis que normatizam as relações no mundo, digamos, real, valem para a internet, como no combate à pedofilia. O que torna as brigas judiciais complicadas é entender a real natureza de empreendimentos como o Pirate Bay e mesmo conter o fluxo de informações em rede, o que é realmente uma tarefa inútil.


Texto 2) Caso brasileiro


Os piratas do Brasil estão chegando.


Guilherme Pavarin, de INFO Online  05 de outubro de 2009 – 15h25



Os piratas do Brasil estão chegando
Jorge Machado e Guilherme Bellia, do Partido Pirata: dupla explica as propostas da agremiação que foca na internet e na política colaborativa
Eles defendem o software livre nas escolas, a transparência política e a privacidade na internet. O Partido Pirata do Brasil já existe, sim.
Inspirado nos moldes dos piratas da Europa, a versão nacional já escreve seu estatuto e pretende lançar os primeiros candidatos nas eleições de 2012.
Até lá, o Partido Pirata do Brasil quer divulgar sua forma aberta e colaborativa de fazer política. Uma nova proposta, nos moldes “wiki”, que permite que qualquer interessado contribua ideologicamente com o partido pela internet.
Sem qualquer sinal de hierarquia partidária, os membros Jorge Machado, sociólogo e professor universitário, e Guilherme Bellia, estudante de comunicação, concederam uma entrevista a INFO Online para contar sobre a história e os princípios do partido.
Confira o bate-papo logo abaixo.
INFO ONLINE: Como se deu a ideia de fundar o Partido Pirata do Brasil?
JORGE: O Partido Pirata do Brasil, o embrião dele, digamos assim, surgiu no Fórum do Partido Pirata Internacional. Foi um fórum e um site criados pelos suecos, em 2006, devido ao interesse internacional, principalmente dos europeus. Começamos a discutir entre o final de 2006 e o começo de 2007 num fórum só para o Brasil. Isso tudo por meio da internet. O primeiro site nós criamos no fim de 2007, mas ele só se estruturou de verdade a partir do primeiro encontro presencial no Campus Party de 2009, quando o criamos um vínculo mais forte.
INFO ONLINE: Qual o objetivo de um Pirata na política?
JORGE: Tem um núcleo que é uma pauta comum entre todos os Partidos Piratas, que é a questão de direitos civis, entre eles, o mais importante é a liberdade de expressão e o direito a privacidade. Defendemos o compartilhamento da cultura e do conhecimento, o que demanda uma reforma nas leis de direitos autorais. Também queremos rediscutir o sistema de patentes. Além da transparência política, que todos os Partidos Piratas discutem.
GUILHERME: A questão de privacidade tem se tornado cada vez mais importante devido a certo movimento que está começando a aparecer e já está se consolidando em alguns países de restringir cada vez mais os direitos de anonimato dos internautas com justificativas duvidosas, como coibir crimes e etc. Uma das importâncias do Partido Pirata é ir contra essa tendência governamental de tirar a liberdade, de um direito humano.
INFO ONLINE: A internet livre é um direito humano?
JORGE: É um direito humano. Para poder controlar o fluxo da informação e proteger os copyrights é inevitável que você quebre a privacidade das pessoas. Vinculam o IP e podem saber quem está compartilhando e associam aos dados dos usuários. Para controlar isso, colocar em execução uma lei a ferro e fogo, você tem que violar direitos humanos.


INFO ONLINE: Estão armados contra as corporações e gravadoras?
JORGE: Eles estão desesperados, nós estamos tranqüilos. Eles têm que se modernizar, buscar uma solução rápida, um novo modelo de negócios. Agora, veja só, o Partido Pirata tem a missão de ajudar a libertar os artistas, porque a maior parte da renda deles vem de performance, de apresentação. A renda por CD é muito pequena. O CD serve como divulgação, mas hoje a internet é muito mais eficiente. Toda esta cadeia tem que ser refeita e os artistas, muitas vezes, não conhecem e não pensam sobre isso; alguns têm um pouco de medo. Hoje um disco pode ser gravado no computador casa, não precisa de todo aquele aparato todo. A indústria cultural gosta de chamar de ‘indústria criativa’ e falam que a pirataria está prejudicando os artistas e ameaça a criação. Isso é mentira. Desde que a internet cresceu, a criatividade explodiu junto. Hoje, há muito mais música, mais criação. Isso é uma falácia que acaba sendo reproduzida pela mídia e as pessoas acabam comprando esse discurso. Depois, soltam números como se a pirataria tivesse causado prejuízo de três bilhões e tantos empregos. Esses dados são da própria indústria; a imprensa tem que questionar a metodologia, como são obtidos. Na verdade, surgiram muitas outras formas de ganhar.
GUILHERME: É um equivoco a política das gravadoras. Estão se colocando contra os fãs, intimidando o público. Como conquistar alguém intimidando, numa relação comercial? Eu, por exemplo, baixo muita música, mas sempre procuro forma de doação. Este fim de semana, doei cinco libras para o Dan Bull, aquele que fez uma música tirando sarro da Lily Allen. São cinco libras que vão direto para ele. Ele ganha muito mais do que se eu comprasse um CD.

sábado, 17 de outubro de 2009

O prazer da vingança

Segue texto de Contardo Calligaris, publicado na Folha de 15/10/09


O desejo frustrado de se vingar é uma poderosa matriz narrativa para os nossos devaneios

PODE SER que, ao longo da vida, você nunca tenha sido ofendido. Mas, para a imensa maioria dos humanos, não é assim. Quando crianças, esbarramos em adultos que parecem quase sádicos, na sua incapacidade de nos escutarem e entenderem; logo depois, encontramos os "bullies" da turma do fundão da sala de aula, da praia ou da rua. E assim continua.
A vida de cada um escolhe as encruzilhadas em que sofremos mil violências morais ou físicas, grandes ou pequenas. Com elas, em regra, não ganhamos nada, a não ser que a gente acredite numa justiça divina após nossa morte: quem sofre aqui na Terra será recompensado nos céus. Também podemos nos consolar com a ideia de uma "grandeza" moral que nos seria própria, pela "generosidade" com a qual aguentamos as ofensas, esquecendo-as ou mesmo oferecendo gentilmente o outro lado do rosto.
Mas resta uma dúvida (que compartilho com Nietzsche, "Genealogia da Moral", Companhia das Letras): nossa moral aparentemente generosa e a esperança de que Deus, um dia, recompense os ofendidos e puna os ofensores talvez sejam uma grande invenção coletiva, criada, justamente, para que as vítimas sejam confortadas e possam perdoar não tanto aos agressores, mas a elas mesmas, ou seja, perdoar a "covardia" da qual elas acabam se acusando, num eterno lamento por elas não terem revidado na hora.
Disse antes que, com as violências que sofremos, não ganhamos nada. Mas não é bem assim: o lamento de não ter revidado é uma das grandes fontes da ficção. Pense bem: inúmeras vezes, dias e mesmo meses a fio, depois de ter sido insultado, machucado, assaltado, empurrado real ou simbolicamente, você ficou imaginando e aprimorando, em seus detalhes, desfechos diferentes, nos quais você, na hora da ofensa, teria imediatamente resgatado sua honra e punido o agressor, deixando-o tão inerte e silencioso quanto você mesmo ainda lamenta ter ficado. Em suma, o desejo frustrado de se vingar é uma poderosa matriz narrativa, sobretudo nos devaneios privados, em nosso cinema de bolso, que fica escondido por ele ser pouco conforme com os ditados da moral dominante.
Quentin Tarantino, com "Bastardos Inglórios" (que acaba de estrear e é um de seus melhores filmes), leva esse cinema de bolso para as salas: é uma verdadeira festa de vingança, uma fantasmagoria cuja violência é alegre e libertadora.
A história contada não cola direito com os fatos da Segunda Guerra Mundial? Você acha curioso que um bando de soldados dos EUA, infiltrados na França ocupada pelos nazistas, aja como índios apaches saídos de um bangue-bangue, recolhendo os escalpos dos que conseguem matar? Ou se surpreende com o fato de que eles marquem com uma suástica na testa os poucos que eles decidem poupar?
Pois é, reconheçamos a Tarantino a mesma liberdade que nós nos permitimos em nossos devaneios de vingança.
Para o que serve essa liberdade de imaginar? Talvez as ficções e, em particular, o cinema (de bolso ou de sala) tenham algum poder de alterar a história, fazendo justiça, por exemplo. Não digo isso apenas porque, em "Bastardos Inglórios", a vingança final acontece graças a uma sala de cinema. E, é claro, sei que os devaneios, em geral, não se realizam mas também sei que eles nunca são vãos, simplesmente porque são o alimento de nosso desejo.
Um outro filme, lindíssimo, conta com uma distribuição limitada e talvez não chegue às salas do Brasil inteiro (no caso, anote o título e espere o DVD): "Deixa Ela Entrar", de Tomas Alfredson. É um filme sueco, que é apresentado como uma história de terror, e é verdade que há um vampiro no filme. Mas o meu prazer de espectador foi outro...
Acho que já contei: quando era criança, eu tinha uma pequena orquestra imaginária, que levava sempre comigo. Ela me servia para combater o tédio, sobretudo quando acompanhava meus pais em intermináveis visitas a museus. Passei bom momentos com a minha orquestra, mas confesso que teria adorado ter também outros amigos imaginários, mais eficientes na hora dos apuros. Uma vampira que gostasse de mim teria sido perfeita. Já imaginou? Alguém que saísse das sombras e arrancasse os pescoços, as cabeças e os braços dos idiotas que me azucrinavam a vida?
Pois é, "Deixa Ela Entrar" é a história de um menino que tem (ou inventa?) a amiga imaginária da qual ele precisa, para se vingar. De uma amiga assim, todos precisamos.

ccalligari@uol.com.br