Por intermédio dos espaços virtuais que os exprimiriam, os coletivos humanos se jogariam a uma escritura abundante, a uma leitura inventiva deles mesmos e de seus mundos(...) poderemos então pronunciar uma frase um pouco bizarra, mas que ressoará de todo seu sentido quando nossos corpos de saber habitarem o cyberspace: “Nós somos o texto.” E nós seremos um povo tanto mais livre quanto mais nós formos um texto vivo.
Pierre Lévy

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Vida e consumo de energia

http://www.rc.unesp.br/biosferas/0053.php

Médicos que não querem conversa



LUIZ ROBERTO LONDRES, 71, médico e mestre em filosofia pela PUC-RJ,

Médicos que não querem conversa

A anamnese, conversa inicial com o paciente, está em desuso, mesmo permitindo até 90% dos diagnósticos. Na meu tempo, os exames eram para confirmação
Durante minha formação, tive o privilégio de conviver com Danilo Perestrello, autor de "A Medicina da Pessoa" (Atheneu). Vinham ao consultório não só pessoas doentes, mas pessoas que se sentiam doentes.
Um dia, em conversa com meu pai, cardiologista cujos passos segui, comentei que metade dos meus atendimentos eram de pessoas sem doença física. Ele retrucou: "Só metade? Você deve estar adoecendo alguns".
Em inúmeros casos, a simples conversa resolvia a "doença". Muitos saíam da consulta sem solicitação de exames ou receitas. Em nova consulta, estavam totalmente "curados".
Na medicina atual, aos poucos a pessoa foi reduzida à condição de doente. Não mais interessava sua vida, história, personalidade ou situação psicológica e social, apenas os sintomas no momento da consulta. A anamnese, entrevista inicial com o paciente, passou a se limitar aos dados da doença apresentada. A alteração biológica passa a ser tudo.
Na medicina atual, não se leva em conta características específicas de cada paciente, que podem determinar se o tratamento indicado deve ser administrado. Um exemplo gritante é aplicação de cirurgias ou tratamentos agressivos, tantas vezes extremamente dispendiosos, a idosos que provavelmente faleceriam de outras causas antes que a doença em questão levasse ao óbito.
Médicos se sentem oprimidos em relação ao tempo que podem dispensar a uma consulta e perderam o espírito crítico em relação ao valor da anamnese -que, segundo Howard Barrows, da Universidade de Southern Illinois, dá ao bom médico 90% de chance de diagnóstico certo.
Deixamos de lado os princípios médicos para atender volume. Recém-formado, fui colocado em um ambulatório com uma lista de 40 pacientes para serem atendidos em quatro horas. Atendi como deveria e, ao final do meu tempo, havia atendido por volta de 15. No dia seguinte, fui chamado à diretoria do hospital, que questionava minha conduta. Médicos não têm de atender filas, têm de atender pacientes.
Na nossa época de estudantes, aprendíamos que exames serviam para confirmar ou não o diagnóstico e quantificar alguns parâmetros. Hoje, isso foi esquecido. Além disso, médicos se fiam em laudos de colegas que não conhecem, sem avaliar o grau de sua capacidade médica.
Com esse reducionismo, o médico é cada vez mais dispensável, podendo ser substituído por computadores.



LUIZ ROBERTO LONDRES, 71, médico e mestre em filosofia pela PUC-RJ, é presidente da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Resposta interpretativa - charge

 








 Em até 15 linhas, apresente sua interpretação da charge, explicitando os elementos verbais e não-verbais que fundamentam as relações que você estabeleceu

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O mito da redução da maioridade penal

Ótimo artigo do Marcelo Freixo

http://oglobo.globo.com/opiniao/o-mito-da-reducao-da-maioridade-penal-15759255

Desprezamos o ensino básico. O resultado está aí...


Desprezamos o ensino básico. O resultado está aí...







Nos protestos do dia 15, entre tantas placas de fora isso e fora aquilo, uma chamava a atenção. “Chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire”.Isolada na polifonia de broncas, a bandeira dialogava diretamente com um anti-intelectualismo reinante nas rodas de conversas corriqueiras e nas cabeças ditas pensantes do Brasil.


De repente, fazer contrapontos com base em estudos, experiência histórica ou estatística virou “papo de intelectual”, algo não só pedante como dissociado do “mundo real”, prático e urgente. Uma forma de encerrar a conversa retirando a legitimidade de quem afirma “olha, não é bem assim”. Se não é bem assim não interessa, reagem os revoltados online e off-line, para quem ou se é um governista chapa-branca ou um golpista neoliberal insensível. O “selo” automático é sintomático da confusão de conceitos básicos no debate público sobre direitos, privilégios, inclusão, doutrina, conhecimento, argumento, cinismo, posição política e alienação. Fora de contexto, vira tudo uma conversa de doido.

terça-feira, 24 de março de 2015

“A rebeldia, aos olhos de qualquer pessoa que tenha estudado um pouco de História, é a virtude original do ser humano.” Oscar Wilde

http://noticias.uol.com.br/internacional/listas/top-10-manifestacoes-populares.jhtm

quarta-feira, 18 de março de 2015

O analfabeto político

São tempos de ler e reler este antológico texto de Bertold Brecht:
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
Nada é impossível de Mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.
Privatizado, privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.

Como melhorar a leitura e a interpretação de textos


4 técnicas para melhorar sua interpretação de texto




Muitas vezes ao ler um texto encontramos dificuldades em compreendê-lo, não é mesmo? Isso ocorre com muitas pessoas, mas o que a maioria não sabe é que existem técnicas que ajudam muito na interpretação de texto, e é sobre isso que vamos falar nesse texto. Depois de dominar essas técnicas certamente você vai ter facilidade em entender até os textos mais difíceis!

Primeiramente é preciso entender como funciona o processo de interpretação. A Hermenêutica, a área da filosofia que estuda isso, diz que é preciso seguir três etapas para se obter uma leitura ou uma abordagem eficaz de um texto:

Pré-Compreensão: supõe-se que ao iniciar a leitura a pessoa já tenha conhecimentos prévios sobre o assunto ou área específica.
Compreensão: já tendo a pré-compreensão, o leitor vai se deparar com informações novas ou reconhecer as que já sabia. Através da pré-compreensão a pessoa amarra a informação nova com a que ela já tem e capta a intencionalidade do texto.
Interpretação: é a resposta que o leitor dá ao texto depois de compreendê-lo, pois para haver a interpretação é preciso “conversar” com o texto. É formada então o que se chama “fusão de horizontes”: o do texto e o do leitor. A interpretação supõe um novo texto. Significa abertura, o crescimento e a ampliação para novos sentidos.


Depois de entendido o processo de interpretação de texto, seguem as dicas de como chegar nessas três etapas.


1) Leia com um dicionário próximo


Uma maneira de chegar à pré-compreensão é ler bastante, e ajuda muito ter um dicionário do lado para auxiliar no entendimento do significado das palavras. Se você se deparar com alguma palavra que não conhece, anote essa palavra juntamente com o significado num caderninho. Desta maneira seu vocabulário se tornará mais extenso.


2) Faça paráfrases


A paráfrase é uma explicação ou uma nova apresentação do texto, onde são seguidas as ideias do texto sem copiá-lo, para isso é necessária a compreensão do mesmo, esse um ótimo exercício de interpretação de texto. Existem vários tipos de paráfrases mas, para o vestibulando, recomenda-se o estudo das seguintes:
Paráfrase-resumo: sublinhe as ideias principais, depois identifique as palavras-chave e faça um resumo. Resumir é escrever com as suas palavras as ideias principais do texto.
Paráfrase-resenha: além de resumir, você deve dar suas opiniões sobre o texto e justificá-las.
Paráfrase-esquema:texto esquematizado em tópicos ou pequenas frases com as ideias principais do texto lido.


3) Leia no papel


Um estudo realizado em 2014 comprovou que pessoas que leram pequenas histórias de mistério em um Kindle, um tipo de leitor digital foram consideravelmente piores ao elencar a ordem dos eventos do que os que leram a história em papel. Os pesquisadores explicam que isso se dá por não poderem virar as páginas ou controlar o texto fisicamente por meio de dobras, sublinhados e anotações. Isso limita a experiência sensorial e reduz a memória de longo prazo do texto, assim prejudicando a capacidade de interpretação. Por isso, sempre prefira textos impressos.


4) Reserve um tempo do seu dia para ler devagar


Recomenda-se separar entre 30 e 45 minutos diários para ler, mas isso deve ser feito longe de dispositivos tecnológicos, já que esses podem causar distrações. Assim é possível fazer uma leitura linear, que é a maneira como nosso cérebro lia antes da internet, aproveitando a vantagem de detalhes sensoriais.

A capacidade de ler longas sequências é perdida se não a usamos, separando esse tempo para leitura, o cérebro recupera a capacidade de realizar a leitura linear. E esse é só um dos muitos benefícios da leitura, que além de exercitar o cérebro trás conhecimento, reduz o estresse e melhora a concentração.

Lembrando que a prática leva à perfeição. Então se você ler bastante usando essas dicas, com certeza estará preparado para ler e compreender diversos textos.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Não há vanguarda


Arte de vanguarda é impossível na pós-modernidade

2

O conceito de avant-garde, a vanguarda, valiosíssimo para os movimentos artísticos da modernidade, precisa ser interpretado como a noção de um grupo (e de um tipo de arte) que serve de ponta de lança para as próximas gerações artísticas. A vanguarda é aquela que aponta o caminho no momento em que ele não existia e no momento em que ele não pode nem mesmo ser entendido, “a vanguarda dá à distância que a separa do grosso da tropa uma dimensão temporal: o que está sendo feito presentemente por uma pequena unidade avançada será repetido mais tarde, por todas”, diz Bauman no Mal Estar da Pós-Modernidade.

Veja também: Surrealismo, o que é?

Zygmunt Bauman

Para isso, é necessário ter uma visão clara daquilo que está à frente e aquilo que está atrás. Ou seja, para saber que a vanguarda é o grupo que prepara o terreno para o grosso da sociedade depois percorrer com suavidade é necessário ter uma visão clara daquilo que está em nossa frente, que precisa ser alcançado, e aquilo que está atrás, que precisa ser superado, que está ficando anacrônico. O pressuposto da vanguarda é que a população irá depois seguir o seu exemplo. O trabalho da vanguarda, portanto, nunca é em vão, já que é um trabalho de bandeirante: corta-se a mata para abrir o caminho que todos seguirão.

Entretanto, a pós-modernidade é tudo, menos imóvel. Não é possível declarar uma vanguarda, esta ideia é obsoleta num mundo de fluxo contínuo em que é impossível determinar qual é a frente e qual é a traseira. “Podemos dizer que o que hoje se acha ausente é a linha de frente que outrora nos permitia decidir qual o movimento para frente e qual o de retirada. Em vez de um exército regular, as batalhas disseminadas, agora, são travadas por unidades de guerrilha”, ou seja, não há mais batalhas travadas por grupos que pretendem obter uma mudança global. Agora, as batalhas são travadas por artistas que não pretendem nada mais do que serem artistas.

A Modernidade

Na modernidade existia uma característica em comum dos movimentos artísticos: a tentativa de mudar o mundo, a necessidade de ir além da própria arte e de se utilizar da arte como uma arma para a transformação social. É por isso que diversos movimentos se apoiavam em organizações e em teorias da direita e da esquerda radical. A revolução era gritada e era o objetivo-mor destes movimentos.

O grande objetivo do modernismo era acelerar as mudanças que sempre foram prometidas pelas filosofias do século XIX, essa tentativa de aceleração mostrava a seriedade com que essas ideias eram tratadas. “Eles [os modernistas] também acreditavam firmemente na natureza de sua época como vetor, convencidos de que o fluxo do tempo tem uma direção, de que tudo o que vem depois é também (ou tem de ser, deve ser) melhor, enquanto tudo o que reflui para o passado é também pior — atrasado, retrógrado, inferior. Os modernistas não travaram sua guerra contra a realidade que encontraram em nome de valores alternativos e de uma visão de mundo diferente, mas em nome da aceleração”, ou seja, não se tratava de simplesmente modificar a realidade, mas de empurrar a história, de saber que eles eram o vetor principal da história para a aceleração e para o alcance do mundo perfeito, prometido e desejado.

Max Ernst – o surrealismo como arte moderna

Os modernistas tinham um inimigo claro, a burguesia inculta. Essa cambada de filisteus, vulgares e indignos deveriam ser arrasados, eles deveriam ser julgados sumariamente pelo seu gosto artístico inferior (ou melhor, por não terem gosto artístico). A arte moderna não pretendia ser facilmente digerível, na verdade, ela pretendia não ser passível de digestão, já que o papel em que os modernistas se colocavam estava sempre acima da média da população. Os modernistas queriam guiar, ensinar, apontar o dedo para o caminho correto e para isso, era necessário que a massa espectadora fosse composta por incultos.

Bauman explicita, “aos considerados imaturos, não completamente desenvolvidos, retardatários, os modernistas queriam mostrar a luz, ensinar, educar e converter; os modernistas só podiam, afinal, permanecer na posição de vanguarda quando tratando os outros como ainda não realizados, afundados nas trevas, esperando pelo esclarecimento”. Entretanto, pior do que a ignorância é o total entendimento.

Síndrome do underground?

Ao expor uma arte que precisava se distanciar da hegemonia, o modernismo também partiu do princípio de que o sucesso de suas proposições era o signo de seu fracasso. Como uma sociedade fracassada poderia entender em sua maioria as propostas modernistas? O capitalismo responde com a capitalização das obras.

Quando a alta burguesia precisou se distinguir do restante da sociedade, a compra de quadros e esculturas modernistas, a proposta de discussões do modernismo e a crescente procura das obras deste período se transformaram em símbolos de distinção social, de acumulação de capital simbólico e cultural. O modernismo foi pego pelas pernas e transformado em mercadoria banal, já que ninguém mais precisava entender o modernismo, mas tinham que possuir algumas de suas obras.

“O paradoxo da vanguarda, portanto, é que ela tomou como sucesso o signo do fracasso, enquanto a derrota significasse, para isso, uma confirmação de que estava certa. A vanguarda sofria quando o reconhecimento público era negado — mas ainda se sentia mais atormentada quando a sonhada aclamação e o aplauso surgiam finalmente”, explicaZygmunt Bauman.

Pós-modernismo

Já na pós-modernidade, os termos “filisteu” e “inculto” já não encontram mais significação. Toda arte é arte e nenhuma delas precisa estar alinhada com um objetivo político futuro. Não há mais maneiras de se definir o próximo passo, assim como não há como saber que o passado é pior e precisa de melhoras baseadas em um projeto de sociedade. O espaço e o tempo não são mais alinhados da mesma forma, não há mais como estabelecer um ponto fixo e não há como ver aquilo que está adiante. O presente é perpétuo, então, pra que um futuro?

Roy Lichtenstein, In the Car, 1963.

Não há mais estilos e movimentos retrógrados ou progressistas – o retrógrado é não aceitar a impossibilidade de deslegitimar um estilo ou um movimento. Ou seja, cabe aos artistas pós-modernos produzirem algo de grande impacto (para conseguirem se destacar entre a montanha de outros artistas tão legítimos quanto eles) e de fácil obsolescência (para que novas artes possam ocupar o espaço desta nas prateleiras do mercado artístico).
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...