Por intermédio dos espaços virtuais que os exprimiriam, os coletivos humanos se jogariam a uma escritura abundante, a uma leitura inventiva deles mesmos e de seus mundos(...) poderemos então pronunciar uma frase um pouco bizarra, mas que ressoará de todo seu sentido quando nossos corpos de saber habitarem o cyberspace: “Nós somos o texto.” E nós seremos um povo tanto mais livre quanto mais nós formos um texto vivo.
Pierre Lévy

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sobre a brevidade e a permanência da vida

Esta não tem sido uma semana fácil. Eu e outros amigos enfrentamos uma perda dolorosa cuja ferida talvez demore muito para cicatrizar. O luto é algo que convive conosco por um tempo que não podemos calcular e de modos que variam de acordo com o dia, a pessoa, a situação. Para mim, é no silêncio que ele se mostra mais doloroso, no espaço do carro durante uma viagem, no chuveiro, na cama, ali surgem pensamentos que castigam. Talvez a escrita, nesta hora, seja um modo de aliviar isso.
Hoje, durante uma aula, comentava acerca de uma árvore, plantada e cuidada por Burle Marx, durante sua vida, que ele jamais chegaria a ver florida, uma vez que demorariam 50 anos para isso que ocorresse uma única vez. Fiquei pensando em como, em nossa vida, há pessoas que, assim como o paisagista, estão dispostas a "plantar" ações, exemplos e sentimentos dos quais, muitas vezes, não chegam a fruir como merecem. Oferecem um cuidado, um colo, um sorriso um conselho que nunca chegamos a retribuir à altura, porque não somos capazes disso ou porque estamos distraídos demais com aquilo que é urgente ou banal.
Essas pessoas carregam em si um dom muito especial de amar o outro de modo desinteressado, um dom que nada mais é do que a felicidade e o amor materializados em uma pessoa. Elas têm o que José de Alencar chamou na obra "Til" de "alma sóror", são o reflexo da caridade.
Para aqueles que têm o privilégio de conviver com pessoas assim, esse é um presente que nos cobra um preço. Enquanto estamos em sua companhia, temos a oportunidade de aprender a amar mais, a doar mais, a retribuir de modo sincero aquilo que recebemos gratuitamente. Quando as perdemos, temos ainda o dever maior de manter esse legado vivo. Todos os bons exemplos, o amor, a dedicação e a paciência que recebemos foi, de algum modo, constituindo parte do que somos e é tentando - ainda que de modo falho e imperfeito - repetir em vida esses bons exemplos que acabamos revelando o quanto os amamos e, assim, eternizamos aquilo que foram.
Quando perguntaram a Roberto Burle Marx por que plantar algo que não veria florescer, ele respondeu que assim como alguém plantou para que ele pudesse ver; faria o mesmo para que, no futuro, outros tivessem o mesmo prazer. Se há algo de valioso na experiência humana, mesmo quando lidamos com perdas, é isso: aproveitar o melhor que os outros deixaram em nós para que outras pessoas possam se sentir tão acolhidas e amadas como fomos um dia.

Ode ao fracasso

Crônica / Matheus Pichonelli - Carta Capital

Ode ao fracasso
A reação aos modelos de perfeição ganhou voz nos filmes e discursos do Oscar 2015, que consagrou a história de um herói decadente e atormentado
por Matheus Pichonelli — publicado 27/02/2015 15:35, última modificação 27/02/2015 17:22






Cena de Birdman, história de um ator atormentado que levou o Oscar de melhor filme em 2015


Vivemos em listas fechadas. Nas escolas, livrarias, mesas redondas ou programas de auditório, o que não faltam são fórmulas prontas para obter o sucesso em poucos passos. "Vencer" é um imperativo moral, e seus semideuses berram nas nossas caras em capas de revistas, livros motivacionais ou talk shows. "Se você quer, você pode", dizem, antes de distribuírem ordens imediatas para emagrecer, alisar os cabelos, conseguir qualidade de vida, a barriga tanquinho, melhorar o rendimento sexual, a potência do motor, passar de fase no videogame, decifrar os códigos de múltipla escolha, encontrar a pessoa certa, ser feliz a dois, amar a Deus sobre todas as coisas, o trabalho como a si mesmo e os filhos como a uma etapa indenizatória da vida que não alcançamos.


Os fracassados estão em outras editorias. Estão nos depósitos do esquecimento, nas clínicas de reabilitação (do vício ao peso ideal), nos guetos para infectados, nas páginas policiais. Se eles caíram em tentação ou recaída, era porque não tentaram nem se esforçaram o suficiente. O sucesso só dependia deles, mas eles sucumbiam. Não decifraram a ordem que mandava ser correto, prudente, alegre e constante como as pessoas do comercial de supermercado e da margarina que nos lembravam todo santo dia que a felicidade era um pote de ouro destinado aos bem alinhados.


Em nome desse pote de ouro, e da culpa por não alcança-lo, desenvolvemos angústias, pânicos e ansiedades para lidar com um evento não programado nas fórmulas do sucesso: a vergonha. Nessa fórmula, nem mesmo o cinema, povoado de roteiros com variações sobre o mesmo tema, nos poupa. Os heróis interpretados por outros heróis que recebem um chamado, hesitam, aceitam, enfrentam uma corrida de barreiras e adversidades e triunfam no pódio de chegada com beijo de namorada. A história dos vitoriosos é a história do mito do homem moderno, e a eles o circuito convencional de cinema, mais do que qualquer outra expressão artística, sempre prestou tributos.


Neste ano, porém, algo parecia fora da ordem na festa de premiação do Oscar. Na disputa pela categoria principal, rareavam os roteiros de presidentes que fazem a escolha certa e entram para a história, agentes dispostos a arriscar a vida por reféns no Irã, garotos pobres que aprendem com a vida antes de se tornarem milionários ou artistas que preservaram os talentos diante dos novos tempos, novos sons e novas cores. Desta vez a Academia decidiu fazer uma concessão ao fracasso. Pois é disso que se trata Birdman - A Inesperada Virtude da Ignorância, filme de Alejandro González Iñarritu vencedor do Oscar na categoria principal, direção e fotografia. E disso falava boa parte dos indicados.


Riggan Thomson, personagem interpretado por Michael Keaton, é o rosto do fracasso descrito por Álvaro de Campos, pseudônimo de Fernando Pessoa, no poema Tabacaria. Consagrado na fantasia de super-herói, como Keaton, ele quis tirar a máscara quando estava grudada à cara para mostrar seu verdadeiro talento. Quando a tirou e se viu ao espelho, estava velho, envelhecido, não sabia mais a qual máscara pertencia. Como em outro poema do gênio português, estava farto de semideuses, os campeões em tudo que pareciam jamais ter tomado porrada na vida - mal sabia ele que por trás do palco e da petulância os colegas eram todos retumbantes fracassos, emocionalmente frágeis, inseguros, brochas, angustiados, ressentidos e amortecidos por remédios e bebidas. A derrota dupla Thomson e Keaton na disputa pelo Oscar de Melhor Ator viria a calhar: não premiá-los era quase um exercício de metalinguagem.


Criador e criaturas não estavam só. Dos indicados a melhor filme, todos, de alguma forma, contavam histórias de indivíduos imperfeitos, comuns ou atormentados em busca da consagração. A começar pelo sniper americano interpretado por Bradley Cooper, um típico cidadão comum que acreditou nas lorotas da guerra, virou máquina de moer gente e se tornou um fantasma de si mesmo ao voltar para casa. O desfecho, longe do heroísmo planejado por Clint Eastwood, é trágico, como é trágico o destino do homem que catapultou a ciência da computação para vencer os nazistas em O Jogo da Imitação e foi condenado em seu país por causa da homossexualidade. Em A Teoria de Tudo, a história se descola do roteiro da superação de seu protagonista, o cientista Stephen Hawkings. O tema, ali, é a separação e o desgaste inevitável das relações humanas - mesmo quando se apresentam como conto de fadas. Boyhood é a consagração da vida ordinária, sem eufemismos, sem certezas, sem cerimônias ou esforços premiados: seu protagonista é um sujeito que se desilude à medida que cresce e se torna um poço de dúvidas entre exercícios correntes de aceitação. Selma é a história de uma chaga não cicatrizada e ainda atual: a escravidão americana. O Grande Hotel Budapeste é o posfácio de uma ordem desmoronada no entreguerras. E Whiplash, por fim, é a caricatura de um período nefasto: levamos tão a sério a ideia de superação que nos transformamos em sujeitos boçais, arrogantes e incapazes de distinguir um abraço de uma chinelada. O sucesso requer esforço, e o esforço é sempre compensador, dizem os gurus da autoajuda. É esse espirito que o cinema contemporâneo parece tentar rebater ao sinalizar: temos o direito de fracassar.


Em uma noite supostamente dedicada ao glamour e à perfeição dos corpos, cortes, tecidos e sorrisos, a reação ao conto de fadas - e às angústias consequentes de sua busca ou frustração - era verbalizada cada vez que alguém subia ao palco e, em vez de exaltar uma suposta conquista, dedicava o prêmio a quem ainda hoje estoura as testas nos vidros antichoque da normatividade: mulheres assediadas e desvalorizadas em detrimento dos homens, jovens que não suportaram a bucha e interromperam a vida precocemente, negros encarcerados e humilhados por uma simetria inexistente de direitos. "Me pergunte mais", diziam algumas das atrizes em reação às velhas perguntas sobre os mesmos modelitos. Era uma forma de lembrar que havia um ser humano, imperfeito e indisposto à perfeição, por trás de tantas regras e máscara para atingir a glória. O voo do homem-pássaro começava a despencar.
Nas falas, temáticas e protestos cuspidos na noite das alegrias superficiais, era possível ouvir o personagem errático de Fernando Pessoa pedindo passagem. "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Abaixo, uma animação de Steve Cutts usa outra linguagem para refletir sobre isso:


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

No loop da montanha russa - a corrida para o século XXI



Resenha do livro:

SEVCENKO, Nicolau. A Corrida para o Século XXI: no Loop da Montanha Russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

por Geovane Costa do blog "Historiando a história"



Em sua brilhante obra “A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa”, Nicolau Sevcenko inicia dizendo que uma das sensações mais intensas, do mundo atual, que se pode experimentar é a montanha-russa, por submeter às pessoas as experiências extremas de deslocamento e aceleração que alteram a percepção do próprio corpo e do mundo ao redor. Assim, Sevcenko faz uma analogia entre a montanha-russa com o século XX, mostrando que os dois possuem um ritmo bem parecido de grandes subidas (momento de grandes avanços tecnológicos) e descidas (período em que não ocorre grandes avanços tecnológicos). Para ser mais claro, em uma montanha russa o começo de tudo é a subida e ele diz que essa ascensão ocorreu do século XVI a meados do XIX. Foi uma fase de ordem e do progresso, do desenvolvimento tecnológico. Mas logo depois temos a queda vertiginosa, que começou a ocorrer a partir de 1870 com a revolução cientifica tecnológica , trazendo a incorporação e aplicação de novas teorias científicas e junto delas temos a chegada da guerra que faz com a montanha-russa tenha um “efeito desorientador de aceleração extrema”. E a terceira fase é marcada pelo loop, que significa o status quo da aceleração precipitada, onde o universo torna-se imprevisível, irresistível e incompreensível. É o período que se inicia no século XX e que corresponde à revolução microeletrônica. Vale ressalvar que não chegamos nessa fase e que ainda podemos impedir ou pelo menos retardar o que ele chama de “síndrome do loop”. Mas o que seria isto? Para o autor, é o efeito causado pela precipitação das transformações tecnológicas que tendem a nos submeter a uma anuência cega, passiva e irrefletida. É uma perversão típica que herdamos da passagem do século XX para o XXI que abole a percepção do tempo, obscurece as referencias do espaço e emudece a crítica tornando a técnica surda à sociedade. E por que a crítica seria algo tão necessária à técnica? Porque ela é a contrapartida cultural diante da técnica, é a intermediante entre o dialogo da sociedade com as inovações.


No capítulo I “ Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrio, Sevcenko afirma que a particularidade do século XX é que ele foi o período de tendência continua e acelerada de mudança tecnológica, isto é, foi nesse período que ocorreu a maioria das invenções, cerca de 80%, onde a Segunda Guerra representa o marco divisório. Antes da guerra, prevaleceu o padrão industrial da Revolução Tecnológica- Cientifica do século XIX, e depois da guerra, onde tivemos uma intensificação das mudanças ocasionado pela produção e sofisticação de equipamentos para a guerra.


Sevcenko destaca que com o fim da guerra, os Estados Unidos se tornaram a maior potencia mundial, e na década de 70, para dar mais movimento ao mercado internacional, decidiram tomar medidas de liberalização dos controles cambiais, iniciando o fenômeno da globalização. Essa liberação dos fluxos financeiros permitiu a ampliação dos investimentos por todo o mundo (dinamizando o mercado, a produção e os serviços) e provocou uma separação entre as práticas financeiras e os empreendimentos econômicos. Assim, os agentes financeiros se beneficiaram pela liberalização dos controles cambiais, desregulamentação do mercado e pela conquista de novas tecnologias microeletrônicas que tornaram as transações eletrônicas. Mas essas mudanças serviram também para aumentar a desigualdade social, que é um legado do século XX, pois para o autor, desde a revolução cientifico-tecnológico até os anos 70, a tendência era que o Estado nacional controlasse a economia e as grandes corporações, impondo lhes uma taxação para poder transferir parte dos lucros aos setores carentes da sociedade( o autor chama isto de Estado de bem-estar social), mas com a globalização inicia-se uma desmontagem desse Estado de bem-estar, pois o Estado e a população ficam “reféns” das multinacionais, pois se o país não lhe agradar ela pode simplesmente mudar de país onde poderá encontrar salários mais baixos, melhores condições e terá um apoio maior da população. Ele também destaca as figuras do Presidente Ronald Reagan (EUA) e da Primeira-ministra da Grã-Bretanha, Magaret Thatcher, por evocarem para si o mérito da vitória do capitalismo sobre o comunismo. Ambos, deslocaram conteúdos doutrinários da religião para a política, e acabam disseminando assim o conceito de destino manifesto (missão de liderança civilizadora atribuída por Deus aos povos anglo-saxões). Sevcenko compara os dois a Adão e Eva.


O autor chama a atenção para a questão do presentitismo, que se manifesta em diferentes setores (tecnologia, política, empresarial e cultural ) e seria o assumir decisões que envolvem grandes riscos no presente sem considerar suas consequências e vitimas futuras, esquecendo sua história como se o mundo estivesse começando a partir da nova configuração tecnológica . Para multiplicar esses anseios presentistas, a sociedade neoliberal usa como força motriz a publicidade e o consumismo.


Sevcenko também mostra que o FMI e o Banco Mundial são de suam importância para o neoliberalismo na medida que torna os países de Terceiro mundo submissos ao neocolonialismo. Em seu principio estas instituições tinham como finalidade apoiar as nações em desenvolvimento mas quando essas precisaram a única coisa que fizeram foi dar um pacote de medidas de “reajuste estrutural”, o que sufocaria estes países de dívidas. Percebemos que com essas ações, não se visava promover o desenvolvimento mas fazer com que os países desenvolvidos obtivessem um lucro através dos juros.


No capítulo II, intitulado “ Máquinas, massas, percepções e mentes” o autor nos diz da metade do século XIX e do século XX afora, as transformações tecnológicas se tornaram decisivas na nossa visão de mundo por alterarem as estruturas sociais, econômicas, política, a condição de vida das pessoas e as rotinas do seu cotidiano, pois tivemos que nos adaptar ao ritmo das máquinas. Sevcenko ilustra suas idéias da relação entre as “Novas Tecnologias” e os comportamentos dos indivíduos quando trata da questão da tecnologia e da engenharia de fluxos, principalmente das informações (a tecnologia muda a rotina desses fluxos e o homem tem que se adaptar a isto). Por conta dessa mudança no comportamento das pessoas, altera-se os valores da sociedade, onde a comunicação é externa e baseada em símbolos exteriores, isto é, vive-se, agora, numa sociedade em que se privilegia o “ver”, mais que o ouvir e o falar. Por consequência teremos uma readaptação dos sentidos com uma supervalorização do olhar em que a percepção deve estar voltada, sobretudo, para assimilação visual das coisas do mundo, e cita como exemplo Einstein, que cria a teoria da relatividade, e Loewy que formula a idéia de estilo.


O autor atenta também para a criação do que ele denomina de industria do entretenimento no século XX. Com os direitos trabalhistas adquiridos pelos trabalhadores, temos grandes contingentes com tempo livre e recursos para gastar. Alguns empresários vislumbraram na oportunidade ocasionada pela eletricidade de realizar duas formas baratas de lazer, o cinema e o parque de diversões . Essa revolução do entretenimento redefine o padrão cultural das sociedades urbanas do século XX, e tem como pano de fundo a dissolução ou descontextualização da cultura popular tradicional. Saem as bandeiras dos países e entram ícones da “cultura” vendidos nas lojinhas do parque. Em suma, a cultura vira mercadoria e para compensar o empobrecimento social, cultural e emocional, essa indústria fornece fantasia, desejo e euforia.


No ultimo capítulo “Meio ambiente, corpos e comunidade” o autor transfere sua preocupação para o impacto causado pelas tecnologias ao meio ambiente. Segundo Sevcenko, os produtos sintéticos são os que mais poluem. Entretanto, o problema primordial não é sabermos que o meio ambiente está sendo prejudicado , mas o fato de não sabermos qual é o real impacto a longo prazo do que isto pode acarretar. Alguns cientistas fazem pesquisas particulares para analisarem se o produto é nocivo , mas as empresas dispõem de recursos para financiarem estudos na direção contrária. Assim, desse desequilíbrio surge o conceito de “principio da preocupação”, formulado pelo Sevcenko, que pode ser resumido em “ é melhor zelar pela segurança do que ter que lamentar”. O tripé que sustenta-o é o reconhecimento: de algum potencial de risco, de que pairam incertezas cientificas sobre o impacto e da necessidade de agir preventivamente em relação aos riscos.


Ainda atenta para o novo contexto da sociedade do fim do século XX, que se tornou uma sociedade do espetáculo onde tudo se transformou numa dimensão da estética. Para confrontar essa apropriação da cultura pela elite dominante, surgem grupos para criar uma antiestética para repor tudo o que estava sendo excluído. O grupo de maior importância nisso tudo, foi o Regain the streets. No inicio lutavam por causas ecológicas (bosques, defesa de lagos e rios) mas depois passaram a sustentar uma ideologia mais politizada (denuncias das populações nos países subdesenvolvidos , impactos da globalização etc). Sevcenko finaliza o seu livro com uma certa ironia ao rumo da história do novo século, pois antes os debates políticos eram realizados nas praças e agora voltariam a ter esse caráter.


A guisa de conclusão, o livro mostra que vários fatos que aconteceram no século XX influenciaram no século XXI, como as duas guerras mundiais e a guerra fria que causaram a globalização; o aumento das descobertas e de novas invenções; as multinacionais; a pouca conscientização das pessoas sobre a natureza e a grande desigualdade mundial. Somando a ascensão da cultura da imagem e do consumo, a desregulamentação dos mercados e a retração do Estado, com a desmontagem de seus mecanismos de distribuição e do apoio social e com a Revolução microeletrônica e digital, teremos como resultante um mundo no qual as imagens são mais importantes do que o conteúdo, no qual o individuo é mais importante do que o coletivo. Enfim, a conclusão que ele chega é a que temos que iniciar uma luta pela retomada da ética da dignidade humana, dos animais, enfim de toda a natureza.


São textos que se interligam entre si pela questão da tecnologia. O primeiro capítulo representa o apogeu, o segundo representa a queda e o terceiro representa o loop, onde se perde toda a noção do tempo e espaço. Além disso, o consumidor se torna mais do que o cidadão nessa nova sociedade.



Postado por Geovane Costa

Para ler a obra, clique aqui

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Fuvest, fronteiras, imagem e mundo digital - materiais de apoio

Seguem materiais de apoio para as propostas da Fuvest







http://xucurus.blogspot.com.br/2010/02/o-mundo-de-imagens.html

http://xucurus.blogspot.com.br/2010/08/o-valor-da-informacao.html

http://xucurus.blogspot.com.br/2013/04/o-olhar-os-cliques-e-vida-uma-boa.html

https://www.comvest.unicamp.br/vest_anteriores/2002/download/comentadas/CadernoQuestoes2002_fase1.pdf

https://eirebrasil.wordpress.com/2011/06/18/cultura-identidade-e-os-muros-de-segregacao/

Materiais que ajudam na Fuvest

http://xucurus.blogspot.com.br/2012/12/material-de-apoio-fuvest.html

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Humor, liberdade de expressão e crime de ódio

É comum ouvir humoristas recorrerem a tiradas politicamente incorretas a fim de obter aprovação de uma plateia. Especialmente durante a febre de "stand up" e vlogs, que exigem novidades frequentes para a manutenção de um público fiel, a prática se prolifera. Segundo tal lógica, qualquer opinião preconceituosa pode ser usada numa peça humorística. Alega-se, em sua defesa, que a liberdade de expressão existe para garantir espaço a posturas críticas e politicamente incorretas. O riso produzido resultaria da denúncia de hipocrisias presentes no "discurso politicamente correto".  Entretanto há quem considere esse uso desnecessário e até aviltante, uma vez que corrói qualquer ética democrática, aguça a intolerância e banaliza o preconceito. O caso do jornal francês Charlie Hebdo parece revelador do quanto essa questão é complexa e exige atenção. Se, por um lado, o jornal jamais se deixou limitar em sua crítica ácida a diferentes estratos da sociedade, por outro, sofreu os efeitos danosos (e físicos) desses excessos ao ver diversos colaboradores mortos num ataque.


Leia os textos abaixo e, munido de seus conhecimentos, redija um texto dissertativo-argumentativo sobre o assunto “humor”. 











Ser ou não ser ‘Charlie’
Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 13/01/2015 na edição 833
    
A multidão que tomou as ruas de Paris no domingo (11/1) para defender os valores republicanos e protestar contra “todos os fascismos” – enfrentando ao mesmo tempo o terror e a extrema-direita, empenhada no cultivo do ódio aos imigrantes pobres – não deixou dúvidas quando à força da consigna “Eu sou Charlie”, disseminada logo após a sangrenta investida contra o semanário satírico francês, na quarta-feira (7/1). Porém, com a mesma velocidade, embora sem equivalente vigor, apareceram contestações a essa expressão, com pelo menos dois sentidos distintos: um, de crítica à hipocrisia dos que diziam aderir a uma rebeldia jamais praticada; outro, de crítica ao próprio jornal alvo do ataque.
Antes de mais nada, seria preciso esclarecer que assumir-se “Charlie”, naquelas circunstâncias, não significa aceitar ou concordar com a linha editorial da publicação, mas repudiar um ato de barbárie. A respeito disso não deveria haver nenhuma hesitação ou ressalva.
Mas houve, e os que denunciaram como ofensivas e mesmo racistas e xenófobas as charges publicadas pelo jornal acabaram justificando o que ocorreu: embora implicitamente, sugeriram que, afinal, aqueles jornalistas fizeram o que não deviam e tiveram o que mereceram.
Há aqui duas ordens de questões: a primeira, mais imediata, sobre os limites do humor e da liberdade de expressão. A outra, mais ampla, sobre os valores a serem respeitados nas variadas culturas.
Sátira e liberdade de expressão
As dificuldades de se discutir a primeira questão já foi resumida neste Observatório por Luciano Martins Costa (“O buraco é mais embaixo”). Sobre essas teorizações, o cartunista Laerte observou:
“Em primeiro lugar, que o humor é humano, não existe humor que ridicularize coisas ou animais. É sempre humano. Em segundo lugar, é sempre grupal. Não existe humor produzido nem por um indivíduo nem para um indivíduo. Terceira coisa é algo que Bergson falava, que acho interessante, que nunca consegui apreender totalmente, é a ideia de que o alvo da ação humorística é o momento em que o ser humano deixa de ser humano, quando ele age mecanicamente. Quando se coisifica”.
Em outra entrevista, Laerte ressaltou a particularidade daquele jornal e a tradição satírica e iconoclasta tipicamente francesa:
“Temos de entender o Charlie Hebdo dentro do contexto histórico. Os franceses começaram a fazer charge política na época da Comuna de Paris. Eles arriscaram tudo e nunca foi fácil. Foram decapitados, presos, exilados, sofreram o diabo. E a agressividade do trabalho deles nunca diminuiu. A França não só comporta como exige a presença de um humorismo desse tipo. No Brasil, a gente nunca produziu uma coisa assim”.
Em entrevista para o caderno “Aliás”, do Estado de S.Paulo (11/1i), o sociólogo Michael Löwy sustentou que as charges do Charlie não poderiam ser acusadas de estimular o ódio:
“(...) acredito que a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão devam ser considerados princípios fundamentais. Entretanto, há formas de expressão que realmente resvalam na incitação ao ódio e deve haver leis contra elas. Na França, há. Quer dizer, é crime estimular o ódio contra um grupo religioso ou étnico ou o que seja. Não era o que fazia Charlie Hebdo – uma coisa é incitar o ódio contra religiões, outra coisa é ironizá-las satiricamente”.
Recordando a tradição da esquerda francesa, “anticlerical, antirreligiosa, ateísta”, Löwy defendeu que “a sátira faz parte da natureza de uma imprensa livre, irreverente, independente. E isso deve valer para qualquer tema. Qualquer um deve poder ser satirizado – o rei, a presidente, o profeta”.

Pensando no “outro”
Porém, não é porque podemos fazer certas coisas que devemos fazê-las. Esta é uma questão ética essencial, que diz respeito às nossas escolhas. Foi precisamente o sentido da crítica de Joe Sacco, famoso por seus trabalhos de reportagem em quadrinhos sobre a Palestina e Gaza: no Guardian de sexta-feira (9/1), ele mencionou a situação de crescente rejeição aos muçulmanos na Europa como um elemento que deveria levar os jornalistas a pensar duas vezes antes de fazer certas sátiras. “Quando traçamos uma linha, frequentemente cruzamos outra. Porque traços num papel são uma arma, e a sátira existe para cortar até o osso. Mas o osso de quem? Qual é o alvo, exatamente? E por quê?”
Para fundamentar, sugeriu pensar sobre as consequências de uma sátira aos judeus na Alemanha de 1933, ano em que Hitler se tornou chanceler. E tentou o difícil exercício de se colocar no lugar do outro, para tentar entender por que os muçulmanos não achariam graça ao verem Maomé ridicularizado.
É um argumento bem diferente da contestação imediata e radical aos supostos mau gosto e desrespeito do trabalho produzido pelo Charlie. Inclusive porque, no caso específico, seria preciso levar em conta que o problema não é a escatologia. Se os muçulmanos não admitem a representação de seu profeta, então não é que aquelas formas de representação tenham sido ofensivas: a ofensa é a própria representação. É aceitável curvar-se aos dogmas de uma religião e estabelecer aí os parâmetros para o exercício da crítica?
Nunca será demais lembrar – aliás, ao contrário do que sustenta a nossa imprensa, que não perde uma oportunidade para mistificar sobre esse tema e tentou imediatamente associar o atentado terrorista na França às iniciativas de regulação da mídia –, nunca será demais lembrar que não existem direitos absolutos, e que as liberdades de imprensa e de expressão têm, sim, um limite. Esse limite é dado pela lei. Exclusivamente pela lei, que há de punir os abusos. Jamais pelas armas, sob nenhuma hipótese.

Os desvios do multiculturalismo
Entre as muitas charges divulgadas logo após o ataque terrorista em Paris, uma chamou especial atenção: a republicação do trabalho do cartunista Michael Shaw, na revista New Yorker, em 2006, ironizando a onda de protestos contra o Charlie, que reproduzira desenhos originalmente veiculados por um jornal dinamarquês satirizando Maomé. “Por favor, aprecie este cartum cultural, étnica, religiosa e politicamente correto de forma responsável. Obrigado”, escreveu, sobre um retângulo em branco.
De fato, no limite, é assim mesmo: sempre haverá quem proteste e, para não contrariar ninguém, a saída é o silêncio.
Os protestos contra as supostas ofensas resultantes das sátiras estão ancorados na perspectiva multiculturalista que, de início, teve um papel fundamental na denúncia do etnocentrismo e seus muitos e tantas vezes mortais preconceitos mas, com o passar do tempo, derivou para um relativismo que nos leva a aceitar, ou pelo menos a tolerar, todas as práticas, mesmo as mais abomináveis, como legítima expressão de culturas particulares. E a rejeitar, em contrapartida, os valores universais cultivados pelo Iluminismo, que ultrapassam as particularidades de cada cultura e nos permitem reconhecer-nos como humanos.
Num artigo em que discorda da unanimidade em torno da palavra de ordem sobre Charlie e aponta o oportunismo dos chefes de Estado presentes à passeata em Paris – e o breve percurso que fizeram estaria a demonstrar, simbolicamente, o abismo entre esses políticos e o povo na rua –, o jornalista Carlos Fino indaga sobre as origens do ódio assassino, aponta a inutilidade das medidas para contê-lo e busca as raízes do problema:
“Ao trazerem para dentro do seu território, quando terminou a aventura colonial, ou por via da globalização, largas camadas populacionais de uma cultura diferente e até oposta, boa parte da Europa passou a ter no seu próprio seio duas visões radicalmente diferentes de estar, pensar, sentir e agir.
(...)
“A alternativa que se coloca, portanto, é esta – queremos vencer e impor ao outro o modo particular de sentir e de ser do nosso grupo, ou, em nome da convivialidade e da aceitação do que é diferente, negociamos para chegar a um compromisso razoável?”
Não se trata, porém, de querer vencer, mas de recuperar a perspectiva universalista que a onda do multiculturalismo esfacelou. E que carrega consigo exatamente a valorização do diálogo, precisamente no postulado iluminista esperançoso de que as ideias, e não os homens, é que deveriam brigar. Entretanto, o desejo esbarra na essência dos fundamentalismos, islâmico ou quaisquer outros: o dogma, que exclui a hipótese de crítica e, consequentemente, anula a possibilidade de diálogo.
Talvez por isso, como disse Laerte, não devêssemos pensar que o assassinato dos chargistas foi um ataque à liberdade de expressão:
“O objetivo real não é enfrentar o ataque humorístico, o objetivo real é político. (...) Acho que estão cagando pra liberdade expressão.
“(...) Houve um ataque à liberdade de expressão, mas não é este o objetivo estratégico. Por que não atacam a direita anti-islâmica? Porque não interessa. Querem criar uma confusão que visa comprometer todo o sistema. (...) Eles sabem que o sentimento xenófobo vai se exacerbar, e isso pode gerar políticas militaristas de intervenção no Oriente Médio – isso tudo interessa ao Estado Islâmico, um grupo que não está ligado à ideia de construir um Estado, está ligado em construir guerra”.
E de guerra os líderes políticos que compareceram à passeata de Paris entendem bem, por mais que se digam empenhados na paz.
***
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007) 
TEXTO 6 - Ser ou não ser ‘Charlie’
Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 13/01/2015 na edição 833
    
A multidão que tomou as ruas de Paris no domingo (11/1) para defender os valores republicanos e protestar contra “todos os fascismos” – enfrentando ao mesmo tempo o terror e a extrema-direita, empenhada no cultivo do ódio aos imigrantes pobres – não deixou dúvidas quando à força da consigna “Eu sou Charlie”, disseminada logo após a sangrenta investida contra o semanário satírico francês, na quarta-feira (7/1). Porém, com a mesma velocidade, embora sem equivalente vigor, apareceram contestações a essa expressão, com pelo menos dois sentidos distintos: um, de crítica à hipocrisia dos que diziam aderir a uma rebeldia jamais praticada; outro, de crítica ao próprio jornal alvo do ataque.
Antes de mais nada, seria preciso esclarecer que assumir-se “Charlie”, naquelas circunstâncias, não significa aceitar ou concordar com a linha editorial da publicação, mas repudiar um ato de barbárie. A respeito disso não deveria haver nenhuma hesitação ou ressalva.
Mas houve, e os que denunciaram como ofensivas e mesmo racistas e xenófobas as charges publicadas pelo jornal acabaram justificando o que ocorreu: embora implicitamente, sugeriram que, afinal, aqueles jornalistas fizeram o que não deviam e tiveram o que mereceram.
Há aqui duas ordens de questões: a primeira, mais imediata, sobre os limites do humor e da liberdade de expressão. A outra, mais ampla, sobre os valores a serem respeitados nas variadas culturas.
Sátira e liberdade de expressão
As dificuldades de se discutir a primeira questão já foi resumida neste Observatório por Luciano Martins Costa (“O buraco é mais embaixo”). Sobre essas teorizações, o cartunista Laerte observou:
“Em primeiro lugar, que o humor é humano, não existe humor que ridicularize coisas ou animais. É sempre humano. Em segundo lugar, é sempre grupal. Não existe humor produzido nem por um indivíduo nem para um indivíduo. Terceira coisa é algo que Bergson falava, que acho interessante, que nunca consegui apreender totalmente, é a ideia de que o alvo da ação humorística é o momento em que o ser humano deixa de ser humano, quando ele age mecanicamente. Quando se coisifica”.
Em outra entrevista, Laerte ressaltou a particularidade daquele jornal e a tradição satírica e iconoclasta tipicamente francesa:
“Temos de entender o Charlie Hebdo dentro do contexto histórico. Os franceses começaram a fazer charge política na época da Comuna de Paris. Eles arriscaram tudo e nunca foi fácil. Foram decapitados, presos, exilados, sofreram o diabo. E a agressividade do trabalho deles nunca diminuiu. A França não só comporta como exige a presença de um humorismo desse tipo. No Brasil, a gente nunca produziu uma coisa assim”.
Em entrevista para o caderno “Aliás”, do Estado de S.Paulo (11/1i), o sociólogo Michael Löwy sustentou que as charges do Charlie não poderiam ser acusadas de estimular o ódio:
“(...) acredito que a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão devam ser considerados princípios fundamentais. Entretanto, há formas de expressão que realmente resvalam na incitação ao ódio e deve haver leis contra elas. Na França, há. Quer dizer, é crime estimular o ódio contra um grupo religioso ou étnico ou o que seja. Não era o que fazia Charlie Hebdo – uma coisa é incitar o ódio contra religiões, outra coisa é ironizá-las satiricamente”.
Recordando a tradição da esquerda francesa, “anticlerical, antirreligiosa, ateísta”, Löwy defendeu que “a sátira faz parte da natureza de uma imprensa livre, irreverente, independente. E isso deve valer para qualquer tema. Qualquer um deve poder ser satirizado – o rei, a presidente, o profeta”.

Pensando no “outro”
Porém, não é porque podemos fazer certas coisas que devemos fazê-las. Esta é uma questão ética essencial, que diz respeito às nossas escolhas. Foi precisamente o sentido da crítica de Joe Sacco, famoso por seus trabalhos de reportagem em quadrinhos sobre a Palestina e Gaza: no Guardian de sexta-feira (9/1), ele mencionou a situação de crescente rejeição aos muçulmanos na Europa como um elemento que deveria levar os jornalistas a pensar duas vezes antes de fazer certas sátiras. “Quando traçamos uma linha, frequentemente cruzamos outra. Porque traços num papel são uma arma, e a sátira existe para cortar até o osso. Mas o osso de quem? Qual é o alvo, exatamente? E por quê?”
Para fundamentar, sugeriu pensar sobre as consequências de uma sátira aos judeus na Alemanha de 1933, ano em que Hitler se tornou chanceler. E tentou o difícil exercício de se colocar no lugar do outro, para tentar entender por que os muçulmanos não achariam graça ao verem Maomé ridicularizado.
É um argumento bem diferente da contestação imediata e radical aos supostos mau gosto e desrespeito do trabalho produzido pelo Charlie. Inclusive porque, no caso específico, seria preciso levar em conta que o problema não é a escatologia. Se os muçulmanos não admitem a representação de seu profeta, então não é que aquelas formas de representação tenham sido ofensivas: a ofensa é a própria representação. É aceitável curvar-se aos dogmas de uma religião e estabelecer aí os parâmetros para o exercício da crítica?
Nunca será demais lembrar – aliás, ao contrário do que sustenta a nossa imprensa, que não perde uma oportunidade para mistificar sobre esse tema e tentou imediatamente associar o atentado terrorista na França às iniciativas de regulação da mídia –, nunca será demais lembrar que não existem direitos absolutos, e que as liberdades de imprensa e de expressão têm, sim, um limite. Esse limite é dado pela lei. Exclusivamente pela lei, que há de punir os abusos. Jamais pelas armas, sob nenhuma hipótese.

Os desvios do multiculturalismo
Entre as muitas charges divulgadas logo após o ataque terrorista em Paris, uma chamou especial atenção: a republicação do trabalho do cartunista Michael Shaw, na revista New Yorker, em 2006, ironizando a onda de protestos contra o Charlie, que reproduzira desenhos originalmente veiculados por um jornal dinamarquês satirizando Maomé. “Por favor, aprecie este cartum cultural, étnica, religiosa e politicamente correto de forma responsável. Obrigado”, escreveu, sobre um retângulo em branco.
De fato, no limite, é assim mesmo: sempre haverá quem proteste e, para não contrariar ninguém, a saída é o silêncio.
Os protestos contra as supostas ofensas resultantes das sátiras estão ancorados na perspectiva multiculturalista que, de início, teve um papel fundamental na denúncia do etnocentrismo e seus muitos e tantas vezes mortais preconceitos mas, com o passar do tempo, derivou para um relativismo que nos leva a aceitar, ou pelo menos a tolerar, todas as práticas, mesmo as mais abomináveis, como legítima expressão de culturas particulares. E a rejeitar, em contrapartida, os valores universais cultivados pelo Iluminismo, que ultrapassam as particularidades de cada cultura e nos permitem reconhecer-nos como humanos.
Num artigo em que discorda da unanimidade em torno da palavra de ordem sobre Charlie e aponta o oportunismo dos chefes de Estado presentes à passeata em Paris – e o breve percurso que fizeram estaria a demonstrar, simbolicamente, o abismo entre esses políticos e o povo na rua –, o jornalista Carlos Fino indaga sobre as origens do ódio assassino, aponta a inutilidade das medidas para contê-lo e busca as raízes do problema:
“Ao trazerem para dentro do seu território, quando terminou a aventura colonial, ou por via da globalização, largas camadas populacionais de uma cultura diferente e até oposta, boa parte da Europa passou a ter no seu próprio seio duas visões radicalmente diferentes de estar, pensar, sentir e agir.
(...)
“A alternativa que se coloca, portanto, é esta – queremos vencer e impor ao outro o modo particular de sentir e de ser do nosso grupo, ou, em nome da convivialidade e da aceitação do que é diferente, negociamos para chegar a um compromisso razoável?”
Não se trata, porém, de querer vencer, mas de recuperar a perspectiva universalista que a onda do multiculturalismo esfacelou. E que carrega consigo exatamente a valorização do diálogo, precisamente no postulado iluminista esperançoso de que as ideias, e não os homens, é que deveriam brigar. Entretanto, o desejo esbarra na essência dos fundamentalismos, islâmico ou quaisquer outros: o dogma, que exclui a hipótese de crítica e, consequentemente, anula a possibilidade de diálogo.
Talvez por isso, como disse Laerte, não devêssemos pensar que o assassinato dos chargistas foi um ataque à liberdade de expressão:
“O objetivo real não é enfrentar o ataque humorístico, o objetivo real é político. (...) Acho que estão cagando pra liberdade expressão.
“(...) Houve um ataque à liberdade de expressão, mas não é este o objetivo estratégico. Por que não atacam a direita anti-islâmica? Porque não interessa. Querem criar uma confusão que visa comprometer todo o sistema. (...) Eles sabem que o sentimento xenófobo vai se exacerbar, e isso pode gerar políticas militaristas de intervenção no Oriente Médio – isso tudo interessa ao Estado Islâmico, um grupo que não está ligado à ideia de construir um Estado, está ligado em construir guerra”.
E de guerra os líderes políticos que compareceram à passeata de Paris entendem bem, por mais que se digam empenhados na paz.
***
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007) 
TEXTO 6 - Ser ou não ser ‘Charlie’
Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 13/01/2015 na edição 833
    
A multidão que tomou as ruas de Paris no domingo (11/1) para defender os valores republicanos e protestar contra “todos os fascismos” – enfrentando ao mesmo tempo o terror e a extrema-direita, empenhada no cultivo do ódio aos imigrantes pobres – não deixou dúvidas quando à força da consigna “Eu sou Charlie”, disseminada logo após a sangrenta investida contra o semanário satírico francês, na quarta-feira (7/1). Porém, com a mesma velocidade, embora sem equivalente vigor, apareceram contestações a essa expressão, com pelo menos dois sentidos distintos: um, de crítica à hipocrisia dos que diziam aderir a uma rebeldia jamais praticada; outro, de crítica ao próprio jornal alvo do ataque.
Antes de mais nada, seria preciso esclarecer que assumir-se “Charlie”, naquelas circunstâncias, não significa aceitar ou concordar com a linha editorial da publicação, mas repudiar um ato de barbárie. A respeito disso não deveria haver nenhuma hesitação ou ressalva.
Mas houve, e os que denunciaram como ofensivas e mesmo racistas e xenófobas as charges publicadas pelo jornal acabaram justificando o que ocorreu: embora implicitamente, sugeriram que, afinal, aqueles jornalistas fizeram o que não deviam e tiveram o que mereceram.
Há aqui duas ordens de questões: a primeira, mais imediata, sobre os limites do humor e da liberdade de expressão. A outra, mais ampla, sobre os valores a serem respeitados nas variadas culturas.
Sátira e liberdade de expressão
As dificuldades de se discutir a primeira questão já foi resumida neste Observatório por Luciano Martins Costa (“O buraco é mais embaixo”). Sobre essas teorizações, o cartunista Laerte observou:
“Em primeiro lugar, que o humor é humano, não existe humor que ridicularize coisas ou animais. É sempre humano. Em segundo lugar, é sempre grupal. Não existe humor produzido nem por um indivíduo nem para um indivíduo. Terceira coisa é algo que Bergson falava, que acho interessante, que nunca consegui apreender totalmente, é a ideia de que o alvo da ação humorística é o momento em que o ser humano deixa de ser humano, quando ele age mecanicamente. Quando se coisifica”.
Em outra entrevista, Laerte ressaltou a particularidade daquele jornal e a tradição satírica e iconoclasta tipicamente francesa:
“Temos de entender o Charlie Hebdo dentro do contexto histórico. Os franceses começaram a fazer charge política na época da Comuna de Paris. Eles arriscaram tudo e nunca foi fácil. Foram decapitados, presos, exilados, sofreram o diabo. E a agressividade do trabalho deles nunca diminuiu. A França não só comporta como exige a presença de um humorismo desse tipo. No Brasil, a gente nunca produziu uma coisa assim”.
Em entrevista para o caderno “Aliás”, do Estado de S.Paulo (11/1i), o sociólogo Michael Löwy sustentou que as charges do Charlie não poderiam ser acusadas de estimular o ódio:
“(...) acredito que a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão devam ser considerados princípios fundamentais. Entretanto, há formas de expressão que realmente resvalam na incitação ao ódio e deve haver leis contra elas. Na França, há. Quer dizer, é crime estimular o ódio contra um grupo religioso ou étnico ou o que seja. Não era o que fazia Charlie Hebdo – uma coisa é incitar o ódio contra religiões, outra coisa é ironizá-las satiricamente”.
Recordando a tradição da esquerda francesa, “anticlerical, antirreligiosa, ateísta”, Löwy defendeu que “a sátira faz parte da natureza de uma imprensa livre, irreverente, independente. E isso deve valer para qualquer tema. Qualquer um deve poder ser satirizado – o rei, a presidente, o profeta”.

Pensando no “outro”
Porém, não é porque podemos fazer certas coisas que devemos fazê-las. Esta é uma questão ética essencial, que diz respeito às nossas escolhas. Foi precisamente o sentido da crítica de Joe Sacco, famoso por seus trabalhos de reportagem em quadrinhos sobre a Palestina e Gaza: no Guardian de sexta-feira (9/1), ele mencionou a situação de crescente rejeição aos muçulmanos na Europa como um elemento que deveria levar os jornalistas a pensar duas vezes antes de fazer certas sátiras. “Quando traçamos uma linha, frequentemente cruzamos outra. Porque traços num papel são uma arma, e a sátira existe para cortar até o osso. Mas o osso de quem? Qual é o alvo, exatamente? E por quê?”
Para fundamentar, sugeriu pensar sobre as consequências de uma sátira aos judeus na Alemanha de 1933, ano em que Hitler se tornou chanceler. E tentou o difícil exercício de se colocar no lugar do outro, para tentar entender por que os muçulmanos não achariam graça ao verem Maomé ridicularizado.
É um argumento bem diferente da contestação imediata e radical aos supostos mau gosto e desrespeito do trabalho produzido pelo Charlie. Inclusive porque, no caso específico, seria preciso levar em conta que o problema não é a escatologia. Se os muçulmanos não admitem a representação de seu profeta, então não é que aquelas formas de representação tenham sido ofensivas: a ofensa é a própria representação. É aceitável curvar-se aos dogmas de uma religião e estabelecer aí os parâmetros para o exercício da crítica?
Nunca será demais lembrar – aliás, ao contrário do que sustenta a nossa imprensa, que não perde uma oportunidade para mistificar sobre esse tema e tentou imediatamente associar o atentado terrorista na França às iniciativas de regulação da mídia –, nunca será demais lembrar que não existem direitos absolutos, e que as liberdades de imprensa e de expressão têm, sim, um limite. Esse limite é dado pela lei. Exclusivamente pela lei, que há de punir os abusos. Jamais pelas armas, sob nenhuma hipótese.

Os desvios do multiculturalismo
Entre as muitas charges divulgadas logo após o ataque terrorista em Paris, uma chamou especial atenção: a republicação do trabalho do cartunista Michael Shaw, na revista New Yorker, em 2006, ironizando a onda de protestos contra o Charlie, que reproduzira desenhos originalmente veiculados por um jornal dinamarquês satirizando Maomé. “Por favor, aprecie este cartum cultural, étnica, religiosa e politicamente correto de forma responsável. Obrigado”, escreveu, sobre um retângulo em branco.
De fato, no limite, é assim mesmo: sempre haverá quem proteste e, para não contrariar ninguém, a saída é o silêncio.
Os protestos contra as supostas ofensas resultantes das sátiras estão ancorados na perspectiva multiculturalista que, de início, teve um papel fundamental na denúncia do etnocentrismo e seus muitos e tantas vezes mortais preconceitos mas, com o passar do tempo, derivou para um relativismo que nos leva a aceitar, ou pelo menos a tolerar, todas as práticas, mesmo as mais abomináveis, como legítima expressão de culturas particulares. E a rejeitar, em contrapartida, os valores universais cultivados pelo Iluminismo, que ultrapassam as particularidades de cada cultura e nos permitem reconhecer-nos como humanos.
Num artigo em que discorda da unanimidade em torno da palavra de ordem sobre Charlie e aponta o oportunismo dos chefes de Estado presentes à passeata em Paris – e o breve percurso que fizeram estaria a demonstrar, simbolicamente, o abismo entre esses políticos e o povo na rua –, o jornalista Carlos Fino indaga sobre as origens do ódio assassino, aponta a inutilidade das medidas para contê-lo e busca as raízes do problema:
“Ao trazerem para dentro do seu território, quando terminou a aventura colonial, ou por via da globalização, largas camadas populacionais de uma cultura diferente e até oposta, boa parte da Europa passou a ter no seu próprio seio duas visões radicalmente diferentes de estar, pensar, sentir e agir.
(...)
“A alternativa que se coloca, portanto, é esta – queremos vencer e impor ao outro o modo particular de sentir e de ser do nosso grupo, ou, em nome da convivialidade e da aceitação do que é diferente, negociamos para chegar a um compromisso razoável?”
Não se trata, porém, de querer vencer, mas de recuperar a perspectiva universalista que a onda do multiculturalismo esfacelou. E que carrega consigo exatamente a valorização do diálogo, precisamente no postulado iluminista esperançoso de que as ideias, e não os homens, é que deveriam brigar. Entretanto, o desejo esbarra na essência dos fundamentalismos, islâmico ou quaisquer outros: o dogma, que exclui a hipótese de crítica e, consequentemente, anula a possibilidade de diálogo.
Talvez por isso, como disse Laerte, não devêssemos pensar que o assassinato dos chargistas foi um ataque à liberdade de expressão:
“O objetivo real não é enfrentar o ataque humorístico, o objetivo real é político. (...) Acho que estão cagando pra liberdade expressão.
“(...) Houve um ataque à liberdade de expressão, mas não é este o objetivo estratégico. Por que não atacam a direita anti-islâmica? Porque não interessa. Querem criar uma confusão que visa comprometer todo o sistema. (...) Eles sabem que o sentimento xenófobo vai se exacerbar, e isso pode gerar políticas militaristas de intervenção no Oriente Médio – isso tudo interessa ao Estado Islâmico, um grupo que não está ligado à ideia de construir um Estado, está ligado em construir guerra”.
E de guerra os líderes políticos que compareceram à passeata de Paris entendem bem, por mais que se digam empenhados na paz.
***
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)


Paris
Charlie Hebdo: não cabem limites na defesa da livre expressão


A tragédia de 7 de janeiro serve apenas aos conservadores franceses, interessados em reduzi-la a um conflito religioso, afastando a discussão sobre as políticas dos EUA e da Europa em relação ao Oriente Médio e ao norte da África


por Roberto Amaral — publicado 14/01/2015 09:19, última modificação 14/01/2015 09:20




JEAN-PHILIPPE KSIAZEK/AFP




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Tema complexo e fascinante esse do massacre parisiense de 7 de janeiro. Às vezes me parece que tudo já foi dito, e no entanto sentimos que há ainda algo a dizer, pois é inesgotável a discussão entre os limites da liberdade de expressão e a estupidez ilimitada do terrorismo. A violência da barbárie é um truísmo, e dela não precisamos cuidar, senão de suas consequências políticas mais evidentes, e chorar as vítimas, pois o assassinato é sua matéria-prima.


Como estamos em face de um caso concreto, apartemos da discussão o semanário, porque não está em causa a valoração de seu conteúdo, de seu humor negro e sempre corrosivo, pretendidamente demolidor (‘journal irresponsable’ era seu lema), iconoclasta, anarquista, de um laicisismo que se confunde com antirreligiosismo, uma forma e um jeito de ser apenas possível em democracias maduras. Percorrendo caminho inverso, a imprensa alternativa brasileira, por definição ‘descomprometida’, morreu com a queda da ditadura, exatmente quando mais dispunha de ar livre para sobreviver. Mas este fenômeno pede outra reflexão.


Digamos, apenas, que dentre nós desapareceram todos os que buscavam a crítica política e de costumes pela via humorística, a começar pelo Pasquim, que considero política e editorialmente bem superior ao seu colega parisiense. Na França mesmo, sempre preferi o Canard Enchainé e, aqui, o traço de Henfil, afiado e perfurante como um bisturi, e a ironia do Ziraldo; adoro o José Simão na sua irreverência e morro de saudades do Stanislaw Ponte Preta, ao mesmo tempo em que detesto esse "humor" que tomou conta da decadência televisiva de nossos dias. Pior, só os telejornais. Mas gosto e religião (de que me afasto) não se discutem. Discute-se (dever-se-ia discutir) o empobrecimento da imprensa de humor no Brasil, justamente quando recuperamos a liberdade.


Que o nosso Je suis Charlie seja, portanto, um abraço de solidariedade em Wolinski e seus companheiros, mas seja também nossa homenagem ao Pasquim, ao Pif-Paf, ao Planeta Diário, ao Lampião, todos também devorados. O mesmo ocorreu com a imprensa popular de esquerda, de que é exemplo a destruição do Opinião pela ditadura, asfixiando financeiramente Fernando Gasparian. Ficaram os jornalões e as grandes empresas, gráficas e eletrônicas, e a pobreza embrutecedora do unilateralismo ideológico, uma forma de totalitarismo. Em todo e qualquer caso, o princípio a ser defendido é (deve ser) a ampla liberdade de imprensa, que paira acima de considerações a propósito das linhas editoriais. Princípio que protege, na França, com os mesmos direitos políticos, o direitismo do Le Nouvel Observateur e o cáustico Charlie, que eu classificaria como anarquista de esquerda, de uma esquerda que também era alvo de sua irreverência.


No Brasil, onde não há diversidade editorial, e onde os pequenos veículos têm de concorrer com empresas monopolistas,CartaCapital pode defender o governo e a revistona pode dedicar-se a agredir a verdade e vilipendiar o que quer que seja que insinue o interesse nacional brasileiro. As matérias da revistona e dos jornalões são de extremo mau-gosto, mas isso não está em jogo como não estão sob consideração as charges do Charlie. Mas a revistona e os jornalões não podem, como nós podemos, dizer "Je suis Charlie", pois são sua antítese.


Sem mas, porém ou todavia, com ou sem explicações sociológicas, antropológicas ou históricas, a liberdade de expressão é o princípio, e a repressão, o crime. Todo massacre é indefensável e todos precisam ser firmemente condenados: o terror de Paris e os assassinatos de palestinos pelo Estado de Israel (o último ceifou quase 2 mil vidas, incluídas mais de uma dezena de jornalistas), e dos EUA contra quase todo o mundo e hoje, principalmente, contra sírios, líbios e afegãos, fazendo do Oriente Médio o inferno na terra.


Esta é uma condenação absoluta, posto que é de ordem moral.


A liberdade é o combustível da aventura humana.


Afora o óbvio que o caracteriza, o terrorismo é covarde e burro. Covarde porque não dá condição de defesa às suas vítimas, age de surpresa, na tocaia, à traição, e burro porque só serve ao inimigo. A quem favorece o ataque ao Charlie Hebdo, senão às forças mais reacionárias dos EUA e da Europa, onde cresce perigosamente um nacionalismo xenófobo e um anti-islamismo racista? A quem serviu o 11 de Setembro senão à política genocida de Bush e seus asseclas, política perdurante sob Obama e perdurante, ver-se-á, sob seu sucessor? O terrorismo de Estado comandado por Nettanyahu – esse criminoso de guerra que, graças ao poderio dos EUA, permanece impune, só contribui para fortalecer o Hamas, manter Israel na condição de Estado marginal no concerto das nações e estimular o antissemitismo que volta a manifestar-se na Europa.


O terrorismo, em nome de dogmas religiosos, ataca o Estado laico (que o Brasil está deixando de ser), esquecido, porque é estúpido, de que ele, o laicisismo, é garantia de liberdade de todas as religiões. Esse terrorismo é utilizado para marginalizar ainda mais, na França e em toda a Europa, os imigrantes pobres, particularmente os provenientes das ex-colônias, os árabes, os turcos, os africanos e os muçulmanos de um modo geral, sobrevivendo do sub-emprego em bairros periféricos e pobres que mais parecem cloacas, sem instrução ou treinamento profissional adequados, e agredidos em suas culturas e em suas religiões.


Esse terrorismo serve apenas a seus inimigos, que dele se aproveitam para satanizar o Islã. A tragédia de 7 de janeiro serve apenas aos conservadores franceses, interessados em reduzi-la a um conflito religioso, afastando a discussão sobre as políticas dos EUA e da Europa em relação ao Oriente Médio e ao norte da África.


Na Alemanha grupos saudosistas do nazismo já patrocinam marchas pedindo a expulsão de árabes e muçulmanos do país.


O terrorismo da Al-Qaeda fortalece os "falcões" do Pentágono e a crescente direita, do velho e agônico continente, fornece argumentos ideológicos para a exploração política dos grupos reacionários que em toda Europa acenam com o autoritarismo como antídoto à falsa "ameaça de islamização". Faz o jogo dos culturalistas em seu projeto de "civilizar" o mundo (os outros) mediante a imposição, a ferro e fogo, dos valores que os EUA dizem ser aqueles da "sociedade ocidental e cristã", uma vez mais e sempre em luta contra o mau. Enfim, o dominado faz o jogo dos dominadores. O "choque de civilizações" inventado pelo reacionarismo racista de Samuel Huntington, a serviço do neocolonialismo.


A cobertura da imprensa mundial, ideologizada, a serviço de uma determinada geopolítica, deixou-me preocupado pelo que chamo de seu aparente desapreço ao valor vida, sem a qual a discussão sobre liberdade de imprensa se torna inócua. Pouco se fala nos mortos, na violência da morte em si, como se a violência contra um jornal (mesmo simbolizando a liberdade de expressão) pudesse ser mais grave que o assassinato. Afora os quatro cartunistas, e um policial, por acaso muçulmano, todos os demais foram condenados ao anonimato, ou ao esquecimento, como as trinta/quarenta vitimas fatais de outro atentado terrorista ocorrido na véspera, mas este no Cairo, matando apenas árabes. Dele sabe-se pouco, pois sobre esse massacre a imprensa logo se calou, não nos chegou um só comentário, nem a notícia de algum protesto, como quase não se fala – por quê? – do massacre praticado pelo grupo Boko Haram na última sexta-feira em Baga, na Nigéria, deixando nada menos que 2 mil mortos (numa estimativa aproximada). Preocupa-me a secundarização da vida.


Não cabem limites na defesa da livre expressão, e ela exige a compreensão do contraditório, ou seja, assegurar a palavra daquele que discorda. Como aliás, defendia Voltaire.


O jornalista, humorista ou não, está acima do bem e do mal? O jornal é um sacrário? Evidentemente que não, pois todos somos responsáveis, moral e juridicamente, pelas nossas ações; pelo que escrevemos ou desenhamos. Há o limite subjetivo, do qual o fôro íntimo é o senhor, e há as limitações legais. A Constituição brasileira, por exemplo, proíbe a apologia do crime e o incitamento à guerra, tanto quanto o racismo etc.


Há um quê de separação entre a crônica, o artigo, a reportagem e o texto humorístico, pois a base do humor é a ironia e a exploração do ridículo, ou a ridicularização de sua vítima. A caricatura, uma das mais contundentes intervenções políticas do humor, depende do exagero e da distorção. A piada quase sempre trabalha sobre preconceitos: o machismo, a homofobia, etc. Qual é o limite? O direito do outro, do ofendido – e, para sua proteção, o Estado oferece, bem ou mal, quase sempre mal, como no Brasil, os instrumentos judiciais de defesa da honra injuriada ou difamada ou caluniada. Nas democracias, liberdade e responsabilidade devem ser irmãs siamesas protegidas pelo mesmo direito.



A liberdade de expressão, que caminha para além da liberdade de imprensa, pressupõe, antes de mais nada, o conflito de ideias e opinião e, dando-lhe concretude, a possibilidade de circulação livre, o que não comunga com monopólio, oligopólio ou cartel, também características da imprensa brasileira, em todos os meios de comunicação de massa.


A monumental marcha de domingo 11 em Paris, ademais da justa repulsa ao terrorismo, evidenciou também – pela mobiliação do aparato estatal (que a transformou em ato oficial) e a presenças de chefes de Estado sem nenhum apreço pela liberdade de imprensa em seus países -, como a emoção das grandes massas, nos seus impulsos de pura fraternidade, pode ser mobilizada para projetos estratégicos de poder e dominação.


Um manifestante, com um cartaz escrito à mão encerra toda a complexidade: ”Je marche, mais je suis conscient de la confusion et de l’hypocrisie de la situation.” ("Eu marcho, mas estou consciente da confusão e da hipocrisia da situação.")

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Escrita

Escrever e falar
Leila Minatti Andrade
Estamos tão acostumados a ler e a escrever em nossa vida diária que, às vezes, esquecemos que nem todos escrevem e leem como nós. Todavia, ainda hoje, para algumas pessoas, escrever pode se restringir a assinar o próprio nome ou, no máximo, a redigir listas de palavras ou recados curtos.
Antigamente a situação era ainda pior, somente a elite tinha acesso à educação e, consequentemente, à escrita. Quem necessitasse escrever uma carta, tinha que solicitar o trabalho dos escribas. A escrita, hoje, já atinge praticamente todas as classes, embora falte muito para que ela atinja toda a população.
Embora seja imenso o número de escritores, é ainda maior o número de leitores. Das pessoas que sabem escrever, a maioria pouco utiliza a escrita e, quando a utiliza, é para coisas elementares, como deixar bilhetes, mandar recados e escrever cartas. Muitos, depois da invenção do telefone, pararam até de escrever cartas, já que falar por telefone é mais prático e se tem uma resposta imediata, pois os interlocutores estão "voz a voz", e a elaboração e produção da fala ocorrem simultaneamente. Escrever é um ato solitário, leva mais tempo, exige, talvez, um pouco mais de concentração, e o escritor tem de se preocupar com o seu virtual leitor. Se não bastasse isso, a escrita é mais formal do que a fala.
Internet e a volta da língua escrita
Com o fenômeno da Internet aumentou, e muito, o número de escritores. Quem sabe pelo fato de que a rede anima a escrever, pois nela é difícil falar. Hoje, no Brasil, mais de um milhão de pessoas estão ligadas à rede. Todos os dias milhares de novos brasileiros se conectam à Internet e essa comunidade, evidentemente, se comunica entre si.
Por meio de e-mails, chats, ICQ, mIRC e outros programas de comunicação, milhares de pessoas, todos os dias, trocam mensagens, piadas, fofocas, receitas, confidências pessoais, etc., usando a língua escrita. Acredita-se que o número de escritores aumentou porque os programas de comunicação da Internet são inovadores, dispensam papel, envelope, selos e carteiro. No correio eletrônico, por exemplo, o usuário da rede organiza um catálogo de endereços eletrônicos e, ao escrever ou receber uma mensagem que considere que deva ser compartilhada por todos, simplesmente clica em um botão que (re)envia a mesma mensagem para todos os constantes do seu catálogo. Esta função dos programas de correio eletrônico é importante porque faz a mensagem disseminar-se exponencialmente, atingindo milhares, quiçá milhões de pessoas em algumas horas ou dias. Que narrador poderoso! Tão poderoso que vê sua mensagem multiplicada praticamente a um número não pronunciável de leitores, tantos podem ser eles.
Na Internet, a escrita voltou a ser usada com mais frequência pela proximidade com a língua oral e pela incrível possibilidade de se comunicar com pessoas do mundo inteiro por um meio de comunicação prático e barato. Entretanto, ainda assim existem muitas pessoas que têm dificuldade de passar um e-mail e preferem falar ao telefone, mesmo pagando mais caro, por não conseguirem escrever o que estão pensando ou por terem preguiça, já que falar é mais rápido e fácil do que escrever.
Há empresas que proibiram que seus funcionários se comunicassem usando e-mails, porque muita gente não estava acostumada a escrever antes do surgimento da Internet e, por isso, surgiram muitos mal-entendidos, já que a escrita não tem todos os recursos da linguagem oral, não sendo possível ver a expressão do interlocutor, seus gestos e ouvir sua voz. Uma frase pode parecer amena quando falada e extremamente pesada quando escrita. Segundo Fischer, numa entrevista dada a uma revista de circulação nacional, algumas empresas estão ensinando seus funcionários a escrever em e-mails, pois isso passou a ser uma necessidade (Fischer, 2000).
Disponível em: . Acesso em: 30 mar. 2012. [Adaptado].

Máquina escrevendo
Clarice Lispector
Sinto que já cheguei quase à liberdade. A ponto de não precisar mais escrever. Se eu pudesse, deixava meu lugar nesta página em branco: cheio do maior silêncio. E cada um que olhasse o espaço em branco, o encheria com seus próprios desejos.
Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gênero. Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério. Preciso ter um ritual para o mistério? Acho que sim. Para me prender à matemática das coisas. No entanto, já estou de algum modo presa à terra: sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério. Sou uma só. Antes havia uma diferença entre escrever e eu (ou não havia? Não sei). Agora mais não. Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.
Crônicas para jovens: de escrita e vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2010. p. 57-58.

Narradores de Javé: o filme
Sônia Regina da Luz Matos
“Narradores de Javé”, produzido no Brasil, por Bananeiras Filmes, em 2003; escrito e dirigido pela brasileira Eliane Caffé. O filme inicia com Zaqueu, narrando a história da cidade de Javé, anos depois desta ser inundada pela represa. A história que Zaqueu conta aconteceu no sertão da Bahia, estando a comunidade de Javé ameaçada por uma inundação da hidrelétrica, construída na região. Para tentar impedir esta tragédia, os moradores do povoado resolveram escrever sua história e tentar transformá-la em patrimônio histórico, a ser preservado.
Essa história tinha que ser escrita através de um documento científico: um dossiê. Mas quem poderia escrevê-la? O único adulto da comunidade, alfabetizado e bom nas “escrituras”, era Antônio Biá (José Dumont).
Foi ele o escolhido para escrever este documento “científico”, embora a comunidade de Javé não confiasse nele.
O povo o chamava de “sacanajeiro, enganadô”. Porque as pessoas de Javé o chamavam assim? Zaqueu conta que no passado ele, o Biá, usou do poder da escrita para enganar as pessoas. Ele era funcionário do único posto de correios da cidade. Por ser uma comunidade não alfabetizada, o correio passou a ser um local, quase sem função social, as pessoas não utilizavam a tecnologia da escrita no seu cotidiano. Antônio Biá percebe a ameaça de ficar sem seu emprego, pois o correio estava para ser fechado, pela ausência de uso da escrita. Então, ele cria a estratégia para não perdê-lo. Passa a escrever cartas para outras localidades, em nome das pessoas do Vale de Javé. Fofocas eram o conteúdo das cartas, como bem relata Zaqueu: “Ele aumentava os fatos acontecidos com malícia e difamando. Mas tudo era feito com graça e sapiência do ofício de escrever”. Ao ser descoberta sua farsa, foi expulso do centro deste vilarejo. Mas a mesma comunidade que o expulsou, há tempos atrás, naquele momento, precisava de “seus serviços”. Zaqueu afirma que ele teria que escrever o documento científico de Javé, pois ele é tido com um bom escritor.(...) A história da vida deste povoado é a história das narrativas que ouviram, viram, e quase nada escreveram. A cada narrador uma outra história. A mesma Javé tinha sentidos diferentes, tanto para aquele que contava quanto para aqueles que ouviam. Produzindo assim multiplicidade de histórias e diferentes efeitos de sentidos. Somos constituídos e atravessados pelas nossas histórias e pelo que narramos delas.
Disponível em: . Acesso em: 30 mar. 2012. [Adaptado].

A escrita no século XXI (ou talvez além disso)
Luiz Carlos Cagliari
A telinha da tevê será o local da escrita no futuro, além de ter outras finalidades. Os computadores re-inventarão o livro, agora, no formato eletrônico. Segurar uma caneta para escrever vai ser um gesto desconhecido. Papel vai ser um material associado mais a outras coisas do que a veicular escrita. Os textos voltarão a ser basicamente orais ou convertidos em orais para uso comum. A forma gravada nada mais será do que uma memória eletrônica. A forma gráfica da escrita estará reduzida a comandos que escreverão discursos orais e decodificarão textos escritos e gravados.
Assim como comandamos a fala, prestando atenção à semântica do que se diz e não à forma como se diz, do mesmo modo a escrita do futuro será conduzida de forma semelhante. Os textos falados serão gravados de acordo com a fala das pessoas ou adaptados a uma determinada variedade, à escolha. Isto irá eliminar, na verdade, a escrita tal qual a conhecemos hoje. A gravação sonora dispensa o uso de sistemas de escrita, necessitando apenas de controle eletrônico. A ortografia ficará restrita às formas de superfície, de comando. Dicionários ortográficos serão substituídos por dicionários de variação linguística e, eventualmente, de línguas diferentes, para traduções. Se a escrita é, de fato, uma forma de representação gráfica da linguagem oral, continuará sendo uma forma de representação, mas deixará de ser gráfica.
Disponível em: . Acesso em : 2 abr. 2012.[Adaptado].


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