Por intermédio dos espaços virtuais que os exprimiriam, os coletivos humanos se jogariam a uma escritura abundante, a uma leitura inventiva deles mesmos e de seus mundos(...) poderemos então pronunciar uma frase um pouco bizarra, mas que ressoará de todo seu sentido quando nossos corpos de saber habitarem o cyberspace: “Nós somos o texto.” E nós seremos um povo tanto mais livre quanto mais nós formos um texto vivo.
Pierre Lévy

terça-feira, 24 de março de 2015

“A rebeldia, aos olhos de qualquer pessoa que tenha estudado um pouco de História, é a virtude original do ser humano.” Oscar Wilde

http://noticias.uol.com.br/internacional/listas/top-10-manifestacoes-populares.jhtm

quarta-feira, 18 de março de 2015

O analfabeto político

São tempos de ler e reler este antológico texto de Bertold Brecht:
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
Nada é impossível de Mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.
Privatizado, privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.

Como melhorar a leitura e a interpretação de textos


4 técnicas para melhorar sua interpretação de texto




Muitas vezes ao ler um texto encontramos dificuldades em compreendê-lo, não é mesmo? Isso ocorre com muitas pessoas, mas o que a maioria não sabe é que existem técnicas que ajudam muito na interpretação de texto, e é sobre isso que vamos falar nesse texto. Depois de dominar essas técnicas certamente você vai ter facilidade em entender até os textos mais difíceis!

Primeiramente é preciso entender como funciona o processo de interpretação. A Hermenêutica, a área da filosofia que estuda isso, diz que é preciso seguir três etapas para se obter uma leitura ou uma abordagem eficaz de um texto:

Pré-Compreensão: supõe-se que ao iniciar a leitura a pessoa já tenha conhecimentos prévios sobre o assunto ou área específica.
Compreensão: já tendo a pré-compreensão, o leitor vai se deparar com informações novas ou reconhecer as que já sabia. Através da pré-compreensão a pessoa amarra a informação nova com a que ela já tem e capta a intencionalidade do texto.
Interpretação: é a resposta que o leitor dá ao texto depois de compreendê-lo, pois para haver a interpretação é preciso “conversar” com o texto. É formada então o que se chama “fusão de horizontes”: o do texto e o do leitor. A interpretação supõe um novo texto. Significa abertura, o crescimento e a ampliação para novos sentidos.


Depois de entendido o processo de interpretação de texto, seguem as dicas de como chegar nessas três etapas.


1) Leia com um dicionário próximo


Uma maneira de chegar à pré-compreensão é ler bastante, e ajuda muito ter um dicionário do lado para auxiliar no entendimento do significado das palavras. Se você se deparar com alguma palavra que não conhece, anote essa palavra juntamente com o significado num caderninho. Desta maneira seu vocabulário se tornará mais extenso.


2) Faça paráfrases


A paráfrase é uma explicação ou uma nova apresentação do texto, onde são seguidas as ideias do texto sem copiá-lo, para isso é necessária a compreensão do mesmo, esse um ótimo exercício de interpretação de texto. Existem vários tipos de paráfrases mas, para o vestibulando, recomenda-se o estudo das seguintes:
Paráfrase-resumo: sublinhe as ideias principais, depois identifique as palavras-chave e faça um resumo. Resumir é escrever com as suas palavras as ideias principais do texto.
Paráfrase-resenha: além de resumir, você deve dar suas opiniões sobre o texto e justificá-las.
Paráfrase-esquema:texto esquematizado em tópicos ou pequenas frases com as ideias principais do texto lido.


3) Leia no papel


Um estudo realizado em 2014 comprovou que pessoas que leram pequenas histórias de mistério em um Kindle, um tipo de leitor digital foram consideravelmente piores ao elencar a ordem dos eventos do que os que leram a história em papel. Os pesquisadores explicam que isso se dá por não poderem virar as páginas ou controlar o texto fisicamente por meio de dobras, sublinhados e anotações. Isso limita a experiência sensorial e reduz a memória de longo prazo do texto, assim prejudicando a capacidade de interpretação. Por isso, sempre prefira textos impressos.


4) Reserve um tempo do seu dia para ler devagar


Recomenda-se separar entre 30 e 45 minutos diários para ler, mas isso deve ser feito longe de dispositivos tecnológicos, já que esses podem causar distrações. Assim é possível fazer uma leitura linear, que é a maneira como nosso cérebro lia antes da internet, aproveitando a vantagem de detalhes sensoriais.

A capacidade de ler longas sequências é perdida se não a usamos, separando esse tempo para leitura, o cérebro recupera a capacidade de realizar a leitura linear. E esse é só um dos muitos benefícios da leitura, que além de exercitar o cérebro trás conhecimento, reduz o estresse e melhora a concentração.

Lembrando que a prática leva à perfeição. Então se você ler bastante usando essas dicas, com certeza estará preparado para ler e compreender diversos textos.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Não há vanguarda


Arte de vanguarda é impossível na pós-modernidade

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O conceito de avant-garde, a vanguarda, valiosíssimo para os movimentos artísticos da modernidade, precisa ser interpretado como a noção de um grupo (e de um tipo de arte) que serve de ponta de lança para as próximas gerações artísticas. A vanguarda é aquela que aponta o caminho no momento em que ele não existia e no momento em que ele não pode nem mesmo ser entendido, “a vanguarda dá à distância que a separa do grosso da tropa uma dimensão temporal: o que está sendo feito presentemente por uma pequena unidade avançada será repetido mais tarde, por todas”, diz Bauman no Mal Estar da Pós-Modernidade.

Veja também: Surrealismo, o que é?

Zygmunt Bauman

Para isso, é necessário ter uma visão clara daquilo que está à frente e aquilo que está atrás. Ou seja, para saber que a vanguarda é o grupo que prepara o terreno para o grosso da sociedade depois percorrer com suavidade é necessário ter uma visão clara daquilo que está em nossa frente, que precisa ser alcançado, e aquilo que está atrás, que precisa ser superado, que está ficando anacrônico. O pressuposto da vanguarda é que a população irá depois seguir o seu exemplo. O trabalho da vanguarda, portanto, nunca é em vão, já que é um trabalho de bandeirante: corta-se a mata para abrir o caminho que todos seguirão.

Entretanto, a pós-modernidade é tudo, menos imóvel. Não é possível declarar uma vanguarda, esta ideia é obsoleta num mundo de fluxo contínuo em que é impossível determinar qual é a frente e qual é a traseira. “Podemos dizer que o que hoje se acha ausente é a linha de frente que outrora nos permitia decidir qual o movimento para frente e qual o de retirada. Em vez de um exército regular, as batalhas disseminadas, agora, são travadas por unidades de guerrilha”, ou seja, não há mais batalhas travadas por grupos que pretendem obter uma mudança global. Agora, as batalhas são travadas por artistas que não pretendem nada mais do que serem artistas.

A Modernidade

Na modernidade existia uma característica em comum dos movimentos artísticos: a tentativa de mudar o mundo, a necessidade de ir além da própria arte e de se utilizar da arte como uma arma para a transformação social. É por isso que diversos movimentos se apoiavam em organizações e em teorias da direita e da esquerda radical. A revolução era gritada e era o objetivo-mor destes movimentos.

O grande objetivo do modernismo era acelerar as mudanças que sempre foram prometidas pelas filosofias do século XIX, essa tentativa de aceleração mostrava a seriedade com que essas ideias eram tratadas. “Eles [os modernistas] também acreditavam firmemente na natureza de sua época como vetor, convencidos de que o fluxo do tempo tem uma direção, de que tudo o que vem depois é também (ou tem de ser, deve ser) melhor, enquanto tudo o que reflui para o passado é também pior — atrasado, retrógrado, inferior. Os modernistas não travaram sua guerra contra a realidade que encontraram em nome de valores alternativos e de uma visão de mundo diferente, mas em nome da aceleração”, ou seja, não se tratava de simplesmente modificar a realidade, mas de empurrar a história, de saber que eles eram o vetor principal da história para a aceleração e para o alcance do mundo perfeito, prometido e desejado.

Max Ernst – o surrealismo como arte moderna

Os modernistas tinham um inimigo claro, a burguesia inculta. Essa cambada de filisteus, vulgares e indignos deveriam ser arrasados, eles deveriam ser julgados sumariamente pelo seu gosto artístico inferior (ou melhor, por não terem gosto artístico). A arte moderna não pretendia ser facilmente digerível, na verdade, ela pretendia não ser passível de digestão, já que o papel em que os modernistas se colocavam estava sempre acima da média da população. Os modernistas queriam guiar, ensinar, apontar o dedo para o caminho correto e para isso, era necessário que a massa espectadora fosse composta por incultos.

Bauman explicita, “aos considerados imaturos, não completamente desenvolvidos, retardatários, os modernistas queriam mostrar a luz, ensinar, educar e converter; os modernistas só podiam, afinal, permanecer na posição de vanguarda quando tratando os outros como ainda não realizados, afundados nas trevas, esperando pelo esclarecimento”. Entretanto, pior do que a ignorância é o total entendimento.

Síndrome do underground?

Ao expor uma arte que precisava se distanciar da hegemonia, o modernismo também partiu do princípio de que o sucesso de suas proposições era o signo de seu fracasso. Como uma sociedade fracassada poderia entender em sua maioria as propostas modernistas? O capitalismo responde com a capitalização das obras.

Quando a alta burguesia precisou se distinguir do restante da sociedade, a compra de quadros e esculturas modernistas, a proposta de discussões do modernismo e a crescente procura das obras deste período se transformaram em símbolos de distinção social, de acumulação de capital simbólico e cultural. O modernismo foi pego pelas pernas e transformado em mercadoria banal, já que ninguém mais precisava entender o modernismo, mas tinham que possuir algumas de suas obras.

“O paradoxo da vanguarda, portanto, é que ela tomou como sucesso o signo do fracasso, enquanto a derrota significasse, para isso, uma confirmação de que estava certa. A vanguarda sofria quando o reconhecimento público era negado — mas ainda se sentia mais atormentada quando a sonhada aclamação e o aplauso surgiam finalmente”, explicaZygmunt Bauman.

Pós-modernismo

Já na pós-modernidade, os termos “filisteu” e “inculto” já não encontram mais significação. Toda arte é arte e nenhuma delas precisa estar alinhada com um objetivo político futuro. Não há mais maneiras de se definir o próximo passo, assim como não há como saber que o passado é pior e precisa de melhoras baseadas em um projeto de sociedade. O espaço e o tempo não são mais alinhados da mesma forma, não há mais como estabelecer um ponto fixo e não há como ver aquilo que está adiante. O presente é perpétuo, então, pra que um futuro?

Roy Lichtenstein, In the Car, 1963.

Não há mais estilos e movimentos retrógrados ou progressistas – o retrógrado é não aceitar a impossibilidade de deslegitimar um estilo ou um movimento. Ou seja, cabe aos artistas pós-modernos produzirem algo de grande impacto (para conseguirem se destacar entre a montanha de outros artistas tão legítimos quanto eles) e de fácil obsolescência (para que novas artes possam ocupar o espaço desta nas prateleiras do mercado artístico).

sábado, 7 de março de 2015

O mito da democracia racial

PROPOSTAS DE REDAÇÃO SOBRE A QUESTÃO RACIAL
Há os textos-base e, depois, uns vídeos e textos de apoio (lá embaixo).

Texto-base (escrevi um texto geral sobre o tema)
No Brasil, a chaga do racismo manifesta-se, muitas vezes, em práticas cotidianas percebidas apenas pelos negros, mas adquire visibilidade, vez ou outra, quando toca em certos grupos socioeconômicos privilegiados ou atinge níveis ultrajantes de violência física ou simbólica. Casos como o de um casal branco da elite carioca que teve o filho negro humilhado em uma concessionária da BMW, da caloura branca pintada de negra para representar sua condição de "escrava" e "subordinada" no trote da universidade federal de Minas Gerais, em 2013; os inúmeros eventos de racismo no futebol ocorridos em 2014 reacenderam o debate.
O fato é que as denúncias de racismo cresceram no Brasil nos últimos anos. Não em razão de um aumento do racismo, mas da aplicação da legislação que, desde 1988, tipificou a prática como crime inafiançável. Isso, de algum modo, revela o impacto da legislação sobre condutas sociais: aquilo que já estava "naturalizado" no comportamento social (como a discriminação implícita ou explícita aos negros em piadas, programas humorísticos e exigências estéticas para a contratação de funcionários), passou a ser objeto de demandas judiciais.
No entanto o mito de "democracia racial" atrapalha a percepção do racismo no país, sobretudo por aqueles que têm a pele mais clara. Um dos motivos dessa dificuldade é a diversidade fenotípica ímpar da população brasileira: os brasileiros, por serem produto da miscigenação, apresentam uma enorme variedade de tons de pele, formato de olhos, bocas, corpos. Isso, porém, não eliminou práticas cotidianas de diferenciação de pessoas em razão de a tonalidade da pele ser mais escura ou mais clara. Como disse o antropólogo Darcy Ribeiro, a miscigenação criou o brasileiro, esse "Zé-ninguém" - que não é branco, índio ou negro -, mas a vida social e a estrutura econômica dividiram esse zé-ninguém em dois grupos: os privilegiados (cuja tez é mais clara) e os marginalizados (cuja tez é mais escura).
Por isso, negro no Brasil não é uma herança genética ou genealógica, mas sobretudo uma percepção fenotípica e social.
O problema é que muitos creem que essa miscigenação gerou um "paraíso racial" e que aqui negro não sofre discriminação, mas dispõe das mesmas oportunidades que brancos. A comparação com situações de apartheid ocorridas na África do Sul e nos Estados Unidos  embota a visão acerca da realidade brasileira. Naqueles territórios, construíram-se "muros" étnicos explícitos em legislações e espaços apartados (com leis que proibiam uniões inter-raciais e até o compartilhamento do mesmo espaço público). Lá, ser negro era um fator indicado na origem, não no fenótipo. A tonalidade da pele - mais clara ou escura - era apenas um detalhe se o indivíduo possuísse ancestralidade negra.
Ao contrário da brutalidade desse racismo escancarado, o racismo brasileiro consolidou-se de um modo mais cínico. Intelectuais como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda compreenderam, cada um a seu modo, esse fenômeno que ao mesmo tempo legitimou a miscigenação e ajudou a dissimular o racismo. O negro escravizado aqui manteve pontos de contato com o branco dentro de um violento sistema de dominação encoberto por laços supostamente afetivos. O mesmo negro explorado, escravizado, coisificado pelo branco adentrava a casa do senhor - e depois os sobrados das cidades "livres" - e partilhava, ainda que de modo subalterno, o ambiente doméstico, seja para trabalhar, seja para prestar serviços sexuais. Era a negra que amamentava os filhos da branca, que iniciava sexualmente o jovem, que lhe preparava o alimento. Assim, surgiu um subterfúgio ainda hoje usado para tratar de modo emocional e familiar uma relação que sempre foi de exploração. Trata-se do "homem cordial", explicado por Sérgio Buarque de Holanda como aquele que estabelece relações de ordem emocional (cordial vem de "coração") para acobertar situações de ordem material (como a exploração e a corrupção).
Com a abolição legal da escravidão negra, os antigos escravos e senhores reproduziram, na sociedade "livre" essa mesma lógica: senhores passam a ser cidadãos moradores dos sobrados e continuam a receber - e explorar - os negros como subalternos, empregados nos casarões, mas esquecidos nos mucambos das periferias.
Já na sociedade "livre" do início do século XX, os motivos reais da escravização do negro    foram esquecidos e ampliou-se o espaço de teorias racialistas que preconizavam o negro como "inferior" para propagar a necessidade de se promover o "branqueamento da raça" como condição para o desenvolvimento do país. Não se discutiu o fato de escravidão ser mantida em razão de configurar um negócio extremamente lucrativo, nem o fato de o negro liberto ter sido condenado à marginalização social, uma vez que não lhe fora reservado nenhum espaço na nova estrutura baseada no trabalho assalariado de europeus (os "branqueadores" que nos livrariam da desordem e do atraso). Embora a escravidão já estivesse formalmente extinta, sua obra ainda estava de pé tanto nas práticas sociais - por meio da negação de qualquer oportunidade ao negro - quanto no discurso de que o negro não "melhora" de vida porque não quer ou porque não tem capacidade.  Assim, parecia "lógico" perceber a escravidão e a marginalização social como decorrências naturais de um povo propenso à servidão, ao trabalho braçal, à depravação sexual e à violência.
 Nesse mesmo contexto, os mestiços de pele mais clara ("mulatos") gozam de certos privilégios e conseguem até ingressar em alguns círculos brancos. Ao fazê-lo, no entanto, são social e culturalmente "branqueados": negam sua origem e identidade, assumem uma identidade e um discurso branco e, assim, surge um personagem familiar ao racismo à brasileira: o "negro de alma branca".
A atual percepção de que se vive em uma sociedade miscigenada e por isso livre do ódio racial é, portanto, falsa. Trata-se de uma visão simplista e facilmente contestada por estatísticas que atestam a disparidade entre negros e brancos quanto a emprego, renda,  vitimização (132,3% maior que a de brancos) e acesso ao ensino superior.

Texto 2
O Brasil era o último país do mundo ocidental a eliminar a escravidão! Para a maioria dos parlamentares, que se tinham empenhado pela abolição, a questão estava encerrada. Os ex-escravos foram abandonados à sua própria sorte. Caberia a eles, daí por diante, converter sua emancipação em realidade. Se a lei lhes garantia o status jurídico de homens livres, ela não lhes fornecia meios para tornar sua liberdade efetiva. A igualdade juridica não era suficiente para eliminar as enormes distâncias sociais e os preconceitos que mais de trezentos anos de cativeiro haviam criado. A Lei Áurea abolia a escravidão mas não seu legado.
Trezentos anos de opressão não se eliminam com uma penada. A abolição foi apenas o primeiro passo na direção da emancipação do negro. Nem por isso deixou de ser uma conquista, se bem que de efeito limitado.
(Emília Viotti da Costa. A abolição, 2008.)

Texto 3
O Instituto Ethos, em parceria com outras entidades, divulgou um estudo sobre a participação do negro nas 500 maiores empresas do país. E lamentou, com os jornais, o fato de que 27% delas não souberam responder quantos negros havia em cada nível funcional. Esse dado foi divulgado como indício de que, no Brasil, existe racismo. Um paradoxo. Quase um terço das empresas demonstra a entidades seriíssimas que “cor” ou “raça” não são filtros em seus departamentos de RH e, exatamente por essa razão, as empresas passam a ser suspeitas de racismo. Elas são acusadas por aquilo que as absolve. Tempos perigosos, em que pessoas, com ótimas intenções, não percebem que talvez estejam jogando no lixo o nosso maior patrimônio: a ausência de ódio racial.
Há toda uma gama de historiadores sérios, dedicados e igualmente bem-intencionados, que estudam a escravidão e se deparam com esta mesma constatação: nossa riqueza é esta, a tolerância. Nada escamoteiam: bem documentados, mostram os horrores da escravidão, mas atestam que, não a cor, mas a condição econômica é que explica a manutenção de um indivíduo na pobreza. [...]. Hoje, se a maior parte dos pobres é de negros, isso não se deve à cor da pele. Com uma melhor distribuição de renda, a condição do negro vai melhorar acentuadamente. Porque, aqui, cor não é uma questão.
(Ali Kamel. “Não somos racistas”. www.oglobo.com.br, 09.12.2003.)

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Pintura de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), um dos principais pintores das condições dos escravos no Império do Brasil (Wikimedia Commons)


Texto 4
Qualquer estudo sobre o racismo no Brasil deve começar por notar que, aqui, o racismo é um tabu. De fato, os brasileiros imaginam que vivem numa sociedade onde não há discriminação racial. Essa é uma fonte de orgulho nacional, e serve, no nosso confronto e comparação com outras nações, como prova inconteste de nosso status de povo civilizado.
(Antonio Sérgio Alfredo Guimarães. Racismo e anti-racismo no Brasil, 1999. Adaptado.)

Texto 5
Na ausência de uma política discriminatória oficial, estamos envoltos no país de uma “boa consciência”, que nega o preconceito ou o reconhece como mais brando. Afirma-se de modo genérico e sem questionamento uma certa harmonia racial e joga-se para o plano pessoal os possíveis conflitos. Essa é sem dúvida uma maneira problemática de lidar com o tema: ora ele se torna inexistente, ora aparece na roupa de alguém outro.
É só dessa maneira que podemos explicar os resultados de uma pesquisa realizada em 1988, em São Paulo, na qual 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito e 98% dos mesmos entrevistados disseram conhecer outras pessoas que tinham, sim, preconceito. Ao mesmo tempo, quando inquiridos sobre o grau de relação com aqueles que consideravam racistas, os entrevistados apontavam com frequência parentes próximos, namorados e amigos íntimos. Todo brasileiro parece se sentir, portanto, como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados.
(Lilia Moritz Schwarcz. Nem preto nem branco, muito pelo contrário, 2012. Adaptado.)

 PROPOSTA 1 (Unesp) Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva uma redação de gênero dissertativo, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema:
O legado da escravidão e o preconceito contra negros no Brasil.

SUGESTÃO DE ESTRUTURA:
A1 -  O legado da escravidão: como a escravidão determinou a marginalização social do negro
A2 - Quais os efeitos desse legado na situação do negro hoje. Como o racismo se manifesta hoje?


PROPOSTA 2 -  A partir dessas reflexões, escreva uma dissertação sobre o tema: Existe racismo no Brasil?

Assuma uma tese clara. Abaixo sugiro alguns caminhos:


SUGESTÃO 1
Tese: Existe racismo no Brasil. Ele é uma herança da escravidão que foi mal resolvido até hoje.
Discutir na argumentação
A1 - As origens do racismo no Brasil. Quais as heranças da escravidão? Como a escravidão constituiu a atual conjuntura de exclusão e marginalização do negro?
A2 - Como o racismo se manifesta hoje? O que revela sua existência? Ele surge de modo explícito sempre ou também é velado?

SUGESTÃO 2
Tese: Existe racismo no Brasil. Ele se manifesta cada vez menos de modo explícito e mais de modo velado.

Discutir na argumentação:
A1: Como o racismo se manifesta no Brasil? Que formas explícitas e implícitas o manifestam? Por que ele existe, como ele se consolidou?
A2: Que impactos tem gerado à vida da população negra e à própria organização social do país?

SUGESTÃO 3

Tese: Não existe racismo no Brasil. Há alguns poucos casos isolados de práticas racistas. O que prevalece é um bom convívio entre os diferentes grupos sociais e um grande exagero por parte de quem considera qualquer comportamento ousado uma manifestação racista.

Discutir na argumentação:

A1:  Como se constituem as relações inter-raciais no Brasil? Por que elas não são racistas? Por que as manifestações muitas vezes acusadas de racistas (como o desfile de Ronaldo Fraga e o trote da UFMG) na verdade não são racistas?
A2: Por que há certo exagero na avaliação de qualquer brincadeira ou referência que um branco faz a negros no Brasil? Que impactos esse discurso de considerar qualquer atitude racismo pode gerar?


Leituras e textos adicionais
 O mito da democracia racial: origem e relevância

Texto 1
Democracia Racial

A democracia racial existe ou se trata de um mito?

No Brasil, a história de seus conflitos e problemas envolveu bem mais do que a formação de classes sociais distintas por sua condição material. Nas origens da sociedade colonial, o nosso país ficou marcado pela questão do racismo e, especificamente, pela exclusão dos negros. Mais que uma simples herança de nosso passado, essa problemática racial toca o nosso dia a dia de diferentes formas.

Em nossa cultura poderíamos enumerar o vasto número de piadas e termos que mostram como a distinção racial é algo corrente em nosso cotidiano. Quando alguém autodefine que sua pele é negra, muitos se sentem deslocados. Parece ter sido dito algum tipo de termo extremista. Talvez chegamos a pensar que alguém só é negro quando tem pele “muito escura”. Com certeza, esse tipo de estranhamento e pensamento não é misteriosamente inexplicável. O desconforto, na verdade, denuncia nossa indefinição mediante a ideia da diversidade racial.

É bem verdade que o conceito de raça em si é inconsistente, já que do ponto de vista científico nenhum indivíduo da mesma espécie possui características biológicas (ou psicológicas) singulares. Porém, o saber racional nem sempre controla nossos valores e práticas culturais. A fenotipia do indivíduo acaba formando uma série de distinções que surgem no movimento de experiências históricas que se configuraram ao longo dos anos. Seja no Brasil ou em qualquer sociedade, os valores da nossa cultura não reproduzem integralmente as ideias da nossa ciência.

Dessa maneira, é no passado onde podemos levantar as questões sobre como o brasileiro lida com a questão racial. A escravidão africana instituída em solo brasileiro, mesmo sendo justificada por preceitos de ordem religiosa, perpetuou uma ideia corrente onde as tarefas braçais e subalternas são de responsabilidade dos negros. O branco, europeu e civilizado, tinha como papel, no ambiente colonial, liderar e conduzir as ações a serem desenvolvidas. Em outras palavras, uns (brancos) nasceram para o mando, e outros (negros) para a obediência.

No entanto, também devemos levar em consideração que o nosso racismo veio acompanhado de seu contraditório: a miscigenação. Colocada por uns como uma estratégia de ocupação, a miscigenação questiona se realmente somos ou não pertencentes a uma cultura racista. Para outros, o mestiço definitivamente comprova que o enlace sexual entre os diferentes atesta que nosso país não é racista. Surge então o mito da chamada democracia racial.

Sistematizado na obra “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, o conceito de democracia racial coloca a escravidão para fora da simples ótica da dominação. A condição do escravo, nessa obra, é historicamente articulada com relatos e dados onde os escravos vivem situações diferentes do trabalho compulsório nas casas e lavouras. De fato, muitos escravos viveram situações em que desfrutavam de certo conforto material ou ocupavam posições de confiança e prestígio na hierarquia da sociedade colonial. Os próprios documentos utilizados na obra de Freyre apontam essa tendência.

Porém, a miscigenação não exclui os preconceitos. Nossa última constituição coloca a discriminação racial como um crime inafiançável. Entre nossas discussões proferimos, ao mesmo tempo, horror ao racismo e admitimos publicamente que o Brasil é um país racista. Tal contradição indica que nosso racismo é velado e, nem por isso, pulsante. Queremos ter um discurso sobre o negro, mas não vemos a urgência de algum tipo de mobilização a favor da resolução desse problema.

Ultimamente, os sistemas de cotas e a criação de um ministério voltado para essa única questão demonstram o tamanho do nosso problema. Ainda aceitamos distinguir o negro do moreno, em uma aquarela de tons onde o último ocupa uma situação melhor que a do primeiro. Desta maneira, criamos a estranha situação onde “todos os outros podem ser racistas, menos eu... é claro!”. Isso nos indica que o alcance da democracia é um assunto tão difícil e complexo como a nossa relação com o negro no Brasil.

Por Rainer Sousa Mestre em História em Brasil Escola



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A VIOLÊNCIA DA DEMOCRACIA RACIAL BRASILEIRA
 Autor: Henrique Eduardo Lima de Araújo

A “democracia racial brasileira” é um mito ainda vivo e insidioso. Em um país que gosta de se imaginar uma nação sem racismo, o tardio reconhecimento por parte do Estado da existência desse problema ainda não se fez acompanhar de políticas públicas de efetivo alcance social para combatê-lo. Recentemente, ninguém menos que o chefe supremo da nação, em um discurso supostamente contra o racismo, afirmou também possuir sangue africano nas veias. “Tenho o pé na cozinha”, declarou o presidente, deixando claro para todos qual é o “lugar do negro” nesta sociedade.

Com efeito, como observa Darcy Ribeiro, aqui, a luta mais árdua dos negros brasileiros é a pela conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na sociedade nacional. Até então, ele será chamado de “negrinho arrogante” caso não cumpra seu papel de acordo com as expectativas tradicionais de humildade e subserviência, reservadas sobretudo aos negros em relação aos brancos.

RAÇA E ETNIA

Nunca foi fácil falar de racismo e de discriminação racial. No Brasil como em qualquer parte do mundo. Sobre este tema as controvérsias acadêmicas nunca foram pequenas. Basta simplesmente lembrar os debates acerca da impropriedade do termo “raça” e das limitações do termo “etnia”. “Raça” e “etnia” não são “dados de fato”, mas conceitos muito problemáticos.Não raro, define-se “etnia” com base lingüística, ou seja, fazendo coincidir as fronteiras da “etnia” com as da “língua”. Assim, um defensor do panturquismo pode definir, sem titubear, como “turco” até mesmo um esquimó do nordeste siberiano, já que este último se exprime em uma língua turcófona.

Com base neste critério, no Brasil, onde é praticamente universal o uso do português na sua vertente brasileira, seríamos quase todos da mesma etnia, impossibilitando uma tematização da discriminação étnica no país. É por essas e outras razões que, perfeitamente ciente dos problemas aí implicados, o movimento negro brasileiro (sem querer passar uma idéia que seja um grupo único e que não conheça enormes controvérsias no seu interior) tem, no mais das vezes, preferido adotar o conceito de “raça”. Estes ativistas estão cientes que “raça” não é uma realidade biológica, mas um conceito político, cuja aplicação social revelou-se um formidável instrumento de desumanização e de promoção de privilégios e desigualdades.

RACISMO INEXISTENTE E ANTI-RACISMO ALIENIGENA

Quem dera as dificuldades fossem apenas acadêmicas! Poderíamos dormir mais tranqüilos. As maiores dificuldades que se erguem quando se clama contra a opressão racial são de ordem cultural, ideológica e, portanto, sobretudo política. No Brasil, os diversos regimes autoritários sempre tiveram caprichosamente o cuidado de reprimir os que ousavam problematizar as ideologias racistas aqui adotadas ou lutar contra os mecanismos e as práticas de discriminação racial. O movimento negro foi recebido com suspeitas e acusado, entre outras coisas, de valer-se de “ideologias exóticas” ou “alienígenas” por meio das quais inventavam “um problema racial inexistente” ou, mais prosaicamente, de querer “criar antagonismos e ódios entre irmãos”.

Contra esse terrível perigo o Estado sempre soube se valer de sua autoridade e energia. Mesmo em período de democracia.Impossível esquecer a emblemática repressão desencadeada, no Rio de Janeiro, durante a comemoração oficial (portanto, branca) do centenário da abolição da escravidão, em maio de 1988, já no período pós-ditadura (Cardoso, 1992: 30-37). Naquela ocasião, entidades da sociedade civil organizaram inúmeras atividades e manifestações em todo o país.

No dia 11 de maio, no Rio de Janeiro, organizou-se uma passeata, devidamente autorizada, contra o racismo e em homenagem a Zumbi de Palmares, líder do principal e mais famoso “quilombo” (termo de origem afro usado para designar as comunidades solidárias onde viviam sobretudo escravos fugitivos). É preciso lembrar que o movimento negro no Brasil comemora o “20 de Novembro”, aniversário da morte de Zumbi e não o “13 de Maio”, aniversário da assinatura da “Lei Áurea”, pela princesa Isabel, que, na versão oficial, concedeu a liberdade aos negros. Zumbi representa a resistência negra; Isabel, a “redentora”, por sua vez, representa a bondade branca.

Àquela ocasião, o Comando Militar do Leste do Exército divulgou uma nota oficial explicando que teve que ocupar as ruas do centro carioca em face da “intenção descabida de ativistas em utilizarem-se das comemorações do Centenário para tumultuar a tranqüilidade da Cidade do Rio de Janeiro”. E mais: tinha-se que impedir que, “no bojo de pretensas passeatas”, com “objetivos bem conhecidos e até inconfessáveis”, tentassem, “de maneira grosseira, mudar fatos reais”, sem que estivessem “escudados em qualquer dado histórico-científico e sim apenas em meias verdades e omissões, divulgando para o povo deturpações com propósitos impatrióticos de criar antagonismos…” etc.. O de sempre.Em poucas palavras: para a nossa velha direita, apontar o dedo contra o racismo seria ameaçar a segurança nacional, valer-se de “ideologias alienígenas”, em um país marcado pelo “convívio harmonioso entre as classes”.

Parafraseando Roberto Schwarz, podemos dizer que aqueles que no Brasil acusam o anti-racismo de “ideologia alienígena” talvez acreditem que o fascismo seja invenção brasileira.

Por outro lado, colocar o anti-racismo nas agendas das esquerdas não foi muito mais fácil, sendo que se tenha, ainda hoje, conseguido conferir devida centralidade à luta contra a opressão racial no país. Durante o período de resistência à ditadura militar, as forças que lutavam pela implantação de um regime democrático não raro apresentavam enorme desconforto diante da problematização contra o racismo e a discriminação racial.

A esquerda tinha enormes dificuldades para lidar com a questão. Para que tanta preocupação com a discussão sobre o racismo ou outras discriminações? Isso seria típico do capitalismo. Com a revolução, uma vez debelados os problemas “objetivos”, os problemas “subjetivos” ruiriam feito um castelo de cartas, automaticamente. Além do mais, diziam outros, não existe racismo no Brasil, mas sim a desigualdade econômica. Os negros estariam sendo discriminados porque pobres.

Por que será, então, essa estranha obstinação desses negros em quererem manter-se pobres?Devemos muito à incansável atuação dos inúmeros ativistas negros, como Abdias do Nascimento, Edson Lopes Cardoso, Suely Carneiro e tantos outros para colocar na agenda das esquerdas a batalha contra o racismo no Brasil. O sociólogo Florestan Fernandes, o principal representante do grupo de intelectuais responsáveis pela desmistificação da democracia racial brasileira, foi uma figura central no processo ao procurar fazer as esquerdas brasileiras entenderem que lutar contra as diversas formas de opressão racial no país seria a forma mais eficaz de combate contra os mecanismos mais perversos do capitalismo brasileiro.

Racismo e discriminação são produtores eficazes de privilégios para o grupo racial dominante, com forte impacto na estrutura social como um todo. Destarte, a “democracia só será uma realidade quando houver, de fato, igualdade racial no Brasil e o negro não sofrer nenhuma espécie de discriminação, de preconceito, de estigmatização e de segregação, seja em termos de classe, seja em termos de raça” (Fernandes, 1987: 71).

DEMOCRACIA RACIAL E O LUGAR DO NEGRO

O mito da democracia racial no Brasil está assentado na suposta inexistência de mecanismos jurídicos de segregação e na afirmação de que não se levantaram barreiras à ascensão social do negro, dada a “ausência de preconceito e de discriminação”.O sociólogo Gilberto Freyre, embora reconhecesse a existência de um certo preconceito racial no país, foi o principal articulador desse mito, argumentando que, aqui, a distância social entre brancos e negros era resultado de diferenças de classe, antes que principal fruto de preconceitos de cor ou raça.

Segundo o autor de “Casa-Grande & Senzala” (publicado em 1933), a marca do povo brasileiro é a sua “duplicidade e alma”, a qual lhe confere uma especial capacidade para suportar contradições e harmonizá-las. Assim, no Brasil, tradicionalmente, a busca de soluções dos conflitos se faria por meio da integração ou do equilíbrio de elementos antagônicos. O brasileiro, figura transigente, saberia conciliar oposições.

Daí, “nossa relativa democracia étnica: ampla, embora não perfeita, oportunidade dada a todos os homens, independentemente de raça ou de cor, para se afirmarem brasileiros plenos” (Freire, 1971: 4-5).Freyre, distinguindo-se dos seus colegas que continuavam ancorados nas teorias racistas européias (Gobineau, Lapouge e outros), via como positiva a presença do africano na sociedade brasileira: o negro foi um agente da colonização e cumpriu importante papel civilizador.

Freire foi, por isso, alvo de duras críticas à época. Graças a ele, verificou-se uma transição nas abordagens sobre a questão racial: o debate ganhou novos contornos à medida que incorporou o discurso culturalista do antropólogo Franz Boas, que relativizava a importância da “raça” para a compreensão dos grupos humanos e destacava a relevância do ambiente, da história e da cultura.Mas, vejamos, se não há obstáculos, por que o negro não ascendeu? Malgrado as intenções de Freyre, o discurso acerca da democracia racial, fundado na igualdade formal acabou por aprofundar a visão baseada nas principais suposições das teorias racistas européias acerca da inferioridade natural do negro.

Enquanto haveria, de um lado, igualdade de direitos e de oportunidades para todos, de outro, os afro-descedentes seguem vivendo dez anos a menos do que os brancos, ganham quase a metade que os brancos, são a maioria dos desempregados, dos pobres, dos indigentes, dos analfabetos e de toda a horda dos deserdados.

Então, isso seria de se atribuir, fatalmente, à sua intrínseca inferioridade. E mais: não havendo racismo, não há contra o que se protestar a este respeito. “Nós não somos racistas, os negros conhecem o seu lugar”.Aqui, a pobreza negra está tão “naturalizada” no terreno das representações sociais que, quando um negro é visto “fora de seu lugar”, por exemplo, ao volante de um carro de luxo, costuma suscitar as suspeitas da polícia ou, no melhor dos casos, vira alvo de comentários dos passantes: “Deve ser o motorista, cantor de pagode ou jogador de futebol”.Conforme alerta Emília Viotti da Costa, para se entender as complexas percepções dos padrões raciais é preciso olhar além dos limitados quadros de referência das relações raciais.

Costuma-se dizer no Brasil que, se não se tem uma compreensão histórica, tem-se uma compreensão histérica. De fato, a compreensão da situação do negro na sociedade brasileira atual não poderia ser descolada de uma reflexão acerca da ordem escravocrata e senhorial que, no entanto, fazer-nos-ia extrapolar os limites deste artigo. Para tanto, é indispensável remeter o nosso leitor às obras de Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido, Celso Furtado, Thales de Azevedo, Caio Prado Junior, José Murilo de Carvalho, João Ribeiro Fragoso, além dos que já foram citados anteriormente.

Uma lista que continuaria, quase sem fim. Um antídoto ao histerismo racista, que atribui ao negro toda a culpa pelas suas mazelas, explicadas como “características próprias de sua raça” (como a preguiça, a ignorância, a criminalidade, todas elas inatas e inelutáveis) e não como resultado da escravidão, de uma abolição incompleta e da contínua opressão.A estreita vinculação entre a “condição social de escravo” e a condição de “cor”, que vinha se definindo a partir das “Grandes Navegações”, encontrou no continente americano meios para sua plena consolidação. Já no início da ocupação colonial do Brasil, superada a breve fase do escambo, foi imposto o regime de exploração de trabalho escravo ao índio e ao africano.

Foi então, gradativa e aceleradamente, constituída a mais longeva e poderosa organização escravista das Américas. Nesse cenário, conforme nos ensinou Florestan Fernandes, as relações e estruturas sociais que constituíram a ordem social escravocrata implicavam as mais diversas formas de discriminação racial e operavam no sentido de manter a posição e as relações existentes entre as “raças” dos senhores e aquelas dos escravos. Ao negro era proibido o acesso a papéis sociais que pressupunham prerrogativas que lhes eram vedadas pela “condição social” e pela “cor”.

As elites, contudo, aprenderam a abrir exceções para alguns indivíduos negros ou “mulatos”.No século XIX, nos últimos anos da escravatura, eram oferecidas poucas alternativas de inserção ao negro que se libertava legalmente do jugo escravista. Como mostra Maria Rosa Nogueira e Silva, o negro livre não tinha lugar na sociedade. Abandonado à própria sorte, alternava mendicância e trabalho temporário (com uma precariedade de fazer inveja aos mais afoitos adeptos da flexibilização neoliberal).

Não raro, o ex-escravo tinha que recorrer a roubos, agressões, assaltos, fugas e bebedeiras, já que no mundo dos senhores não havia mecanismos para atender às suas necessidades e anseios. Quando conseguia trabalho, era mal pago e identificado com a escravidão.Com o colapso do regime escravista, a abolição (1888) e a proclamação da República (1889), estabeleceram-se as condições preliminares da tese da “harmonia das raças, da paz social entre negros e brancos e da cordialidade do brasileiro”. Ocorreu então a reinterpretação do jugo escravista no Brasil: “Em nenhum outro lugar a nefanda instituição apresentou traços tão suave, doce e cristãmente humano”.

Com a revogação do estatuto servil, “o negro não tem mais problemas”, pois “as oportunidades de acumulação de riqueza, conquista de prestígio social e poder estão abertos a todos”. Claro. O Brasil vai dormir escravista e acorda uma democracia racial. No ano seguinte é composto o Hino à República, que à certa altura diz: “Nós nem cremos que escravos outrora/Tenha havido em tão nobre país…” Varremos para debaixo do tapete a maior mancha de nossa história. E se isso é coisa de “outrora” não são lícitos pedidos de reparação.

“BRANQUEAMENTO” SOCIAL, “BRANQUEAMENTO” BIOLOGICO E “TERRA NOSTRA”

Nunca houve no país ideologias segregacionistas tais como as dos EUA, onde impera um “preconceito de origem”, segundo o qual qualquer descendente de uma união entre um negro e um branco é considerado negro. Aqui, onde qualquer pessoa que não seja obviamente negra pode ser considerada branca, prevalece um “preconceito de cor”: uma pessoa é branca ou negra segundo sua aparência. E não só: alguém pode deixar de ser negro à medida que passe por um processo de “branqueamento” social e cultural.No Brasil, a partir do fim do século XIX, as idéias racistas européias sofreram uma retradução, no bojo da qual foram excluídas duas de suas principais suposições: a natureza inata das diferenças raciais e a degeneração dos sangues mestiços.

Embora as elites brasileiras afirmassem constantemente sua fé na superioridade dos brancos, elas tinham meios para aceitar negros em suas fileiras.Historicamente, a gradativa absorção do negro dava-se por um processo de seleção e assimilação dos que se mostrassem mais identificados com os círculos dirigentes da “raça dominante” e os que ostentassem total lealdade a seus interesses e valores sociais. As elites brancas podiam aceitar em suas camadas um negro mestiço de pele mais clara (o “mulato”), que adquiria assim o status de branco.

A assimilação se dava à medida que os negros que ocupavam uma posição superior passavam a se identificar a si mesmos como integrantes da comunidade branca. Para sair do lugar que a sociedade inicialmente lhe designou, o negro tem que “embranquecer”, renunciar à sua identidade e à sua comunidade. Um “branqueamento” social que produziu o “preto de alma branca”. A este propósito, Darcy Ribeiro lembra a resposta comovida do pintor negro Santa Rosa a um jovem negro que se lamentava das dificuldades postas às “pessoas de cor” na carreira diplomática: “Compreendo perfeitamente o seu caso, meu caro. Eu também já fui negro”.

As elites ainda elaboraram uma visão que os “mulatos” estariam, biológica e evolutivamente falando, a meio caminho entre os negros e os brancos. A mestiçagem era louvada e não criminalizada, posto que vista como possibilidade de resgate da “qualidade da raça”. E mais: o sangue bom e forte, o sangue branco, prevaleceria e o país, no arco de algumas décadas estaria inteiramente branco.

O então diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, o cientista João Batista Lacerda, ao participar do I Congresso Internacional das Raças, realizado em 1911, apresentou a tese que era “lógico supor que, na entrada do novo século, os mestiços terão desaparecido no Brasil, fato que coincidirá com a extinção paralela da raça negra entre nós”. Um “branqueamento” biológico, eugênico. Neste sentido convergia o incentivo à imigração européia ao país: embranquecê-lo, elevar a qualidade do patrimônio genético nacional.

À medida que o regime escravista dava sinais de estar prestes a colapsar-se e se aprofundavam as transformações sócio-econômicas sobretudo na regiões centro-sul do país, as classes dominantes reestruturaram eficazmente seu sistema de recrutamento de força de trabalho,substituindo a mão de obra escrava por imigrantes sobretudo da Europa. Viu-se então surgir o imigrante europeu como agente natural do trabalho livre, como esperança de progresso e de “branqueamento” da nação.

O imigrante não viria simplesmente para ocupar o lugar do escravo, mas sim um lugar novo em uma nova estrutura de trabalho, própria da ordem social competitiva, da qual o ex-escravo foi sistematicamente impedido de participar em face da precariedade do processo de ressocialização ao qual foi submetido. Tolhido inclusive da possibilidade de encontrar uma identidade de classe, o negro foi conduzido a uma existência ambígua à margem da sociedade, sem condições de integrar-se ao novo sistema.

Na célebre frase de Celso Furtado, “o negro foi liberto para o ócio”.Por essa razão, Suely Carneiro considera uma das coisas mais cruéis e perversas traçar um simples paralelo entre a situação do escravo com a do imigrante. São situações dramaticamente diferentes a imigração e a redução à escravidão. No primeiro caso, alguém pode estar deixando para trás parentes, amores e amigos, condições sociais adversas, guerras, pobreza, discriminações e perseguições. Mas lhe resta algo: a humanidade, que a condição de escravo liquida e tenta aniquilar completamente.

Neste último caso, diante do apresamento, do desenraizamento, da aculturação e da perda da condição humana, a sobrevivência, o resgate de uma identidade sócio-cultural e a reconstrução da estrutura psicológica representam praticamente um “milagre sociológico”. Entendamo-nos: ninguém está desfazendo do sofrimento de Giuliana e Matteo, de “Terra Nostra”. Mas, como lembra Edson Lopes Cardoso, eles ao menos tiveram tempo de fazerem suas malas. Isso sem falar que inúmeros imigrantes encontraram facilitações por parte do Estado brasileiro para aqui se instalarem, em total detrimento da população negra, desamparada, deixada à sua própria sorte.

Vale lembrar que para a colonização do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, os alemães não apenas contaram com terras e recursos concedidos pelo Estado: o mesmo decreto que lhes instituía os direitos de colonização simplesmente proibia a presença negra na região. (É impressionante, muito embora não surpreenda por demais, como os cursos nas universidades sobre imigração italiana tendam, com freqüência, a silenciar-se sobre isto).

UMA NEGRA A’ ALTURA DE UM BRANCO

A luta contra a discriminação racial no Brasil começa ainda no período colonial, com a resistência do africano e do índio diante da violência do projeto colonial português. De lá para cá, os combates contra a opressão racial têm assumido diversas conformações.Hoje, de um lado, tal empenho volta-se a reivindicações de políticas públicas de combate à discriminação racial, como a adoção de cotas, cuja proposição se faz imediatamente acompanhar do coro: “Estão importando o racismo e os modelos dos Estados Unidos!”.

Se isso fosse verdadeiro, o movimento negro não estaria fazendo nada que fosse radicalmente diferente do que faz uma sociedade, como a nossa, cada vez mais envolvida em um processo de macdonaldização. De resto, a “ação afirmativa”, é importante lembrar, não é necessariamente uma invenção norte-americana e, além do mais, nem tudo que provém dos EUA deve ser necessariamente ruim.

De outro, tal luta se desdobra também em uma miríade de trabalhos comunitários, nos mais variados campos, marcadamente o da escola e o da consolidação de uma postura crítica em relação aos meios de comunicação, que continuam sendo formidáveis espaços de reprodução e ampliação do racismo no país. Por falar nisso, vale mencionar uma publicidade de um novo café solúvel, lançado há alguns meses por uma empresa de laticínios italiana no Brasil.

Ao lado de uma foto de um belo modelo branco (nórdico), que aparece abraçado por uma negra igualmente bela, surgem os seguintes dizeres: “Chegou o Café Parmalat. O café à altura de nosso leite.” É preciso dizer algo mais? Acrescente-se apenas que a situação da mulher negra no país é a da mais extrema subalternização. As estatísticas oficiais dão-nos conta da ampla diversificação na participação das mulheres no mercado de trabalho, uma vez que elas começam a conquistar espaços tradicionalmente masculinos.



Contudo, se cruzarmos as variáveis de gênero à de cor, veremos logo que as mulheres negras continuam confinadas no emprego doméstico, de onde, como tão bem ilustram (e encarecem) as nossas telenovelas, elas se desdobram, felizes em servir o melhor possível às famílias brancas. No que se refere a salários (formidável índice de valorização de alguém em uma sociedade), o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e de Estudos Sócio-Econômicos) confirma: no Brasil, duas negras e meia equivalem a um homem branco. A hierarquia fica então estabelecida: no topo o homem branco, seguido pela mulher branca, depois vem o homem negro e só, por fim, a mulher negra.

A “mulata” da Parmalat, como os dizeres deixam claro, é uma exceção.Vale ainda ressaltar que a ascensão social de um negro no Brasil não lhe garante uma imunidade ao racismo e à discriminação. Ele pode até deixar de sofrer carências materiais, mas não se livrará das insídias da “democracia racial” brasileira ou da “neodemocracia racial”, como diz Suely Carneiro: neste caso, o negro incluído é somente encarado na sua dimensão de consumidor, mas não na de cidadão. O mercado, esse bezerro de ouro, acaba, assim, por definir o projeto de inclusão do negro.

Uma inclusão subordinada e minoritária (Carneiro, 2000a: 28).Para terminar, é quase obrigatório falar de Jane Elliot, uma esplêndida e corajosa professora norte-americana que concebeu um exercício (“Blue Eyed”) que usou inicialmente para explicar aos seus jovens alunos por que haviam matado Martin Luther King. Apesar das retaliações que teve de enfrentar durante toda a sua vida por isso, ela nunca desistiu ou perdeu a oportunidade de sublinhar que a omissão das “pessoas boas” tem tornado possível a extrema violência do racismo. Lembro dela, diante de uma platéia, pedindo aos brancos presentes que ficassem de pé caso desejassem ser tratados como os negros normalmente são.

Como, obviamente, ninguém se levantou, Elliott concluiu: “Se não se levantaram é porque sabem o que está acontecendo e não o desejam para si. O problema, então, é saber por qual razão permitem que isso continue acontecendo com os outros.”

O autor é professor de Sociologia ao UniCEUB e IESB de Brasilia.

Referências bibliográficas:

BASTOS, Élide Rugai. A questão racial e a revolução burguesa.

D’INCAO, Maria Ângela (org.). O saber militante. São Paulo: Paz e Terra, 1987.

______ Gilberto Freyre e o mito da cultura brasileira. Humanidades, 15, 1987/1988.

CARDOSO, Edson Lopes. Bruxas, espíritos e outros bichos. Belo Horizonte: Mazza Edições, 1992.

CARNEIRO, Suely, “Terra Nostra” só para os italianos. Folha de S. Paulo, 27.12.1999.

______ Uma guerreira contra o racismo. Caros Amigos. Fevereiro, 2000a.

______ Racismo na educação infantil. Correio Braziliense, 10.11.2000.

COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à república. 7. ed., São Paulo: Unesp, 1999.

FERNANDES, Florestan.A integração do negro na sociedade de classes. 3. ed., São Paulo: Ática, 1978, 2 vols.

______ O negro e a democracia. Humanidades, 14, 1987.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 39. ed., Rio de Janeiro: Record, 2000. (Padroni e Schiavi. Torino: Einaudi, 1965).

______ Novo mundo nos trópicos. São Paulo: Editora Nacional, EDUSP, 1971.

FURTADO, Celso, Formação econômica do Brasil. 27 ed., São Paulo: Nacional, 1998.

INSTITUTO INTERSINDICAL INTERAMERICANO PELA IGUALDADE RACIAL. Mapa da população negra no mercado de trabalho, São Paulo: INSPIR/DIEESE, 1999.

RIBEIRO, Darcy.O povo brasileiro. 2. ed., 17. reimpr., São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

SCHWARZ, Roberto, Que horas são? São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

SILVA, Maria Rosa Nogueira e, “Negro na rua”. São Paulo: Hucitec,1988

OUTRO TEXTO BACANA:
Vale a pena ler também http://xucurus.blogspot.com.br/2014/02/racismo-em-deghtmlrade.

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