Por intermédio dos espaços virtuais que os exprimiriam, os coletivos humanos se jogariam a uma escritura abundante, a uma leitura inventiva deles mesmos e de seus mundos(...) poderemos então pronunciar uma frase um pouco bizarra, mas que ressoará de todo seu sentido quando nossos corpos de saber habitarem o cyberspace: “Nós somos o texto.” E nós seremos um povo tanto mais livre quanto mais nós formos um texto vivo.
Pierre Lévy

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Por que estamos colorindo livros

EM COLUNISTAS da REVISTA BULA

Basta procurar “Jardim Secreto” no Instagram para compreender o fenômeno: mais de 50 mil publicações de fotos de livros para colorir em andamento ou concluídos. Para um desavisado pode parecer que o Instagram foi tomado por crianças ou que, por um milagre, instaurou-se um grande movimento artístico. A segunda afirmação parece ser a mais apropriada.


O sucesso desse novo segmento de livros, conhecidos como “livros de colorir”, se deve, principalmente, a dois fatores que são antagônicos entre si: o jogo lúdico (a válvula de escape, o efeito antiestresse) que nos foi tirado na escola, e o medo do não pertencimento a um grupo ou tendência, que por sua vez traz em suas veias o sentimento de disputa.


Fomos e somos educados numa sociedade onde a disputa forma a base do nosso aprendizado. Somos incentivados sempre a vencer, a ser o melhor dentro de uma estrutura onde são avaliados conhecimentos técnicos, sem levar em consideração as habilidades reais e profundas de cada indivíduo.


O artista Allan Kaprow — precursor do conceito de performance na arte contemporânea — a esse respeito escreveu: “Os estudantes competem por notas, os professores por classes bem comportadas, diretores por orçamentos mais altos. Cada um realiza o ritual da disputa de acordo com regras estritas, algumas vezes com arte, mas permanece o fato de que muitos estão lutando por algo que apenas alguns podem ter: poder. Dado que a civilização vive para competir e compete para viver, não é por acaso que a educação na maioria das partes do mundo esteja profundamente envolvida em disputas de enfrentamento agressivo”.


Nessa busca pelo poder nos é tirada a oportunidade de descobrirmos nossas reais potencialidades, pois estamos aprendendo uma série de informações que possivelmente não nos serão úteis, enquanto aquilo que temos de único é esquecido. Somos educados como numa linha de produção em série. Ken Robinson, na preleção mais assistida do TEDX intitulada “As escolas matam a criatividade?”, afirmou: Estamos produzindo indivíduos desprovidos de criatividade.


A arte e o esporte são tratados nos bancos escolares meramente como matérias de segundo plano, do último degrau da escada hierárquica das disciplinas. As ciências são prioridades e ensinadas num método puramente teórico, sem aplicação prática para a vida do aluno. Dessa forma, afastamos a arte das nossas vidas. A escola nos tira a arte e desencoraja, portanto, uma carreira artística, nos impondo a disputa: o mérito como elemento de premiação e sucesso.


Crescemos crentes de que o segredo da felicidade é escolher uma boa formação universitária, que nos propiciará um bom emprego, que por consequência nos trará status, sucesso e muito dinheiro, mas quando alcançamos tudo aquilo que acreditávamos ser necessário para a felicidade plena, encontramo-nos novamente num vazio. Neste momento, as artes e a espiritualidade assumem um papel essencial como subterfúgio ou conforto para preencher este vazio: suprimir o lúdico que nos foi extraído na infância, assim, transportamo-las de volta ao nosso cotidiano adulto, já carente de criatividade.


E é possível conciliar a arte com a confusão e a disputa acirrada dos nossos dias atuais?


De uma só vez o ato de colorir livros (para depois publicá-los nas redes sociais) cumpre o seu papel de incorporar a arte, o jogo lúdico, ou “jogar-brincar”, como define Kaprow, para a nossa rotina, mas trazem consigo a disputa quando o fazemos somente pelo sentimento de pertencimento a um grupo, correndo o risco de, quando não fazendo o que todo mundo faz, parecermos desatualizados ou fora de moda.


A disputa se insere na rede social e, por consequência, na vida do usuário quando este busca manter um laço estreito com aquilo que vê e acredita ser o seu ideal, repetindo atitudes e maneiras de pensar sem considerar as consequências. O sociólogo Zygmunt Bauman — sobre essa necessidade do “ser visto” — assim diz: “Já há algum tempo a famosa “prova de existência”, de Descartes, “Penso logo existo”, tem sido substituída e rejeitada por uma nova versão atualizada para a nossa era da comunicação de massas: “Sou visto, logo existo”. “Quanto mais pessoas podem escolher me ver, mais convincente é a prova de que estou por aqui”. Ao tentar ser visto a todo instante, o jogar-brincar perde espaço para a disputa. E obviamente a disputa traz os malefícios que contradizem ao sentido próprio da brincadeira.


As publicações dos livros nas redes sociais podem servir para divulgação e incentivo das artes, entretanto, é preciso cautela para que os valores deste passatempo não se transformem na disputa que justamente tentamos fugir.


Não entrar na disputa (combustível essencial das redes sociais) talvez seja o caminho mais saudável para que não tornemos aquilo que nos faz bem no motivo do nosso desassossego. E, quiçá, que as artes possam fazer parte da nossa rotina e não apenas como um instrumento de fuga!

Desconstruindo a meritocracia por meio de uma história em quadrinhos...

http://awebic.com/cultura/se-voce-acha-que-todos-tem-as-mesmas-oportunidades-da-uma-lida-nessa-historia-em-quadrinhos/

Privilégio e justiça social são dois temas que ganharam inúmeras discussões nas redes sociais ultimamente.
Em tempos de Eleições e crise econômica, todo argumento parecia rodear essas questões.
A verdade é que o entendimento sobre os assuntos são muito mais complexos do que qualquer discussão no Facebook costuma levantar. Mas, para nossa sorte, o ilustrador australiano Toby Morris criou um quadrinho que coloca um pouco de luz sobre isso.
Feito para qualquer um entender, On a Plate (“De bandeja”, em tradução livre) foi traduzido pelo pessoal do catavento*.
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Publicação original de The Wireless. Tradução por catavento*.

Povos indígenas: conhecer para valorizar


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Temas variados

Maioridade penal
http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,argumentos-contra-e-a-favor-da-reducao-da-maioridade-penal,1661582
http://educacao.uol.com.br/bancoderedacoes/deve-se-reduzir-a-maioridade-penal-no-brasil.jhtm
http://www.ebc.com.br/cidadania/2015/05/reducao-da-maioridade-penal-pros-e-contras
http://guiadoestudante.abril.com.br/blogs/redacao-enem-vestibular/2015/04/02/nova-proposta-de-redacao-reducao-da-maioridade-penal/
http://vestibular.brasilescola.com/banco-de-redacoes/tema-maioridade-penal.htm
http://educacao.uol.com.br/bancoderedacoes/lista/deve-se-reduzir-a-maioridade-penal-no-brasil.jhtm

Liberação da maconha
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT173787-17773,00.html

Humor e liberdade de expressão
http://educacao.uol.com.br/bancoderedacoes/ha-limites-para-a-liberdade-de-expressao.jhtm

Trotes
http://educacao.uol.com.br/bancoderedacoes/qual-e-o-limite-entre-o-trote-e-o-crime.jhtm
http://vestibular.brasilescola.com/banco-de-redacoes/tema-trote-festa-ou-violencia.htm
http://g1.globo.com/educacao/noticia/2013/03/trote-universitario-nao-e-tradicao-e-relacao-de-poder-diz-especialista.html

Ser ou não ser professor?


Safatle critica massacre do Paraná e aconselha: “Não seja professor”

maio 5, 2015 11:49




“Você ouvirá que ser professor é uma vocação, que seu salário não é assim tão ruim e outras amenidades do gênero. Suas salas de aula terão, em média, 32 alunos, enquanto no Chile são 27 e em Portugal, 8. Sua escola provavelmente não terá biblioteca, como é o caso de 72% das escolas públicas brasileiras”, escreveu o filósofo em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo

Por Redação

Em coluna publicada nesta terça-feira (5) na Folha de S. Paulo, o filósofo Vladimir Safatle critica a violenta repressão da Polícia Militar aos professores e servidores públicos em greve, ocorrida na última quarta-feira (29) em Curitiba (PR). O episódio, batizado de “massacre do Paraná”, deixou mais de 200 feridos e colocou em xeque o mandato do governador Beto Richa (PSDB).

Safatle, professor livre-docente da Universidade de São Paulo (USP), começa o texto com um alerta: “gostaria de aproveitar o espaço para escrever diretamente a meus alunos e pedir a eles que não sejam professores, não cometam esse equívoco. Esta ‘pátria educadora’ não merece ter professores”.

Em seguida, descreve o descaso e indiferença com que são tratados os grandes responsáveis pela educação no país, sobretudo aqueles que trabalham com os ensinos fundamental e médio. “Mais importante para eles não é sua situação, base para os resultados medíocres da educação nacional, mas alguma diatribe canina contra o governo ou os emocionantes embates entre os presidentes da Câmara e do Senado a fim de saber quem espolia mais um Executivo nas cordas”, argumenta, após citar os baixos salários, a precarização do trabalho e as péssimas condições das escolas brasileiras.

Confira na íntegra o artigo:

“Não seja professor

Quem escreve este artigo é alguém que é professor universitário há quase 20 anos e que gostaria de estar neste momento escrevendo o contrário do que se vê obrigado agora a dizer. Pois, diante das circunstâncias, gostaria de aproveitar o espaço para escrever diretamente a meus alunos e pedir a eles que não sejam professores, não cometam esse equívoco. Esta “pátria educadora” não merece ter professores.

Um professor, principalmente aquele que se dedicou ao ensino fundamental e médio, será cotidianamente desprezado. Seu salário será, em média, 51% do salário médio daqueles que terão a mesma formação. Em um estudo publicado há meses pela OCDE, o salário do professor brasileiro aparece em penúltimo lugar em uma lista de 35 países, atrás da Turquia, do Chile e do México, entre tantos outros.

Mesmo assim, você ouvirá que ser professor é uma vocação, que seu salário não é assim tão ruim e outras amenidades do gênero. Suas salas de aula terão, em média, 32 alunos, enquanto no Chile são 27 e Portugal, 8. Sua escola provavelmente não terá biblioteca, como é o caso de 72% das escolas públicas brasileiras.

Se você tiver a péssima ideia de se manifestar contra o descalabro e a precarização, caso você more no Paraná, o governo o tratará à base de bomba de gás lacrimogêneo, cachorro e bala de borracha. Em outros Estados, a pura e simples indiferença. Imagens correrão o mundo, a Anistia Internacional irá emitir notas condenando, mas as principais revistas semanárias do país não darão nada a respeito nem do fato nem de sua situação. Para elas e para a “opinião pública” que elas parecem representar, você não existe.

Mais importante para eles não é sua situação, base para os resultados medíocres da educação nacional, mas alguma diatribe canina contra o governo ou os emocionantes embates entre os presidentes da Câmara e do Senado a fim de saber quem espolia mais um Executivo nas cordas.

No entanto, depois de voltar para casa sangrando por ter levado uma bala de borracha da nossa simpática PM, você poderá ter o prazer de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de o país “ter pouca educação” ou algum candidato a governador dizer que educação será sempre a prioridade das prioridades.

Diante de tamanho cinismo, você não terá nada a fazer a não ser alimentar uma incompreensão profunda por ter sido professor, em vez de ter aberto um restaurante. Por isso o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de ensino médio e fundamental. Assim, acordaremos um dia em um país que não poderá mais mentir para si mesmo, pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa.”

(Foto: Gabriel Rosa/SMCS)



Seja professor! [resposta a um artigo realista-desencorajador]

maio 14, 2015 14:39




Com base no artigo “Não seja professor”, publicado pelo filósofo Vladimir Safatle na Folha de S. Paulo, professor da Universidade de Brasília (UnB) questiona os argumentos apresentados e defende o incentivo à carreira dos docentes, apesar das dificuldades da profissão: “O momento não é de desencorajamento, mas de estímulo à mudança prática e ao embate de diálogo aberto com aqueles que deveriam nos representar”

Por Everaldo Batista da Costa*

Na manhã de 5 de maio de 2015, um artigo publicado no caderno Opinião da Folha de S. Paulo deixou-me perplexo. O professor e filósofo Vladimir Safatle – da Universidade de São Paulo – emitiu, de forma clara e direta, alguns breves apontamentos para que seus alunos não sejam professores neste país. Ao ler seu texto, me vi na obrigação, enquanto professor e geógrafo formador de outros professores-cidadãos, de fazer alguns contrapontos diretos a suas ideias. Faço isso de forma respeitosa à opinião do aludido docente; a ideia aqui é a de uma franca reflexão conjunta ou de deixar outro viés para o pensamento coletivo.

No contexto do atual descalabro de conflito e agressão do estado do Paraná para com seus docentes, Safatle diz que “diante das circunstâncias, gostaria de aproveitar o espaço para escrever diretamente a meus alunos e pedir a eles que não sejam professores, não cometam esse equívoco. Esta ‘pátria educadora’ não merece ter professores”. Pois bem, defendo que os alunos de Safatle – que se formarão em Filosofia e professores pela prestigiosa USP -, bem como meus alunos, que se formarão geógrafos e também professores pela Universidade de Brasília, assumam a docência nas escolas, sim!

Uma nação democrática ou um bairro digno não se fazem sem conhecimentos da realidade. Não estaríamos em nossas universidades a contribuir na formação de professores-cidadãos se não fosse pelos mestres que tivemos desde a pré-escola e, certamente, não lecionaríamos nestas importantes instituições de ensino superior do Brasil não fosse o empenho e a qualidade desses mestres ou o esforço financeiro de cada contribuinte brasileiro em nos manter docentes, da forma que nos mantém e continuamos [alguns preferem ser tratados por pesquisadores, a ideia de professor parece aos mesmos minimizar o status do ofício]. A devolutiva deve ser dada nas escolas, aos filhos desses contribuintes – é nosso dever moral e ético, mas não a qualquer preço, certamente.

Safatle escreve que “um professor, principalmente aquele que se dedicou ao ensino fundamental e médio, será cotidianamente desprezado. Seu salário será, em média, 51% do salário médio daqueles que terão a mesma formação”. O professor e filósofo com quem dialogo cordialmente está correto no que afirma. Contudo, cabe ao próprio professor [a quem respondo, a mim e a todos os que lerem este artigo – ou não lerem] não desestimular, mas, ao contrário, apontar algum caminho para a mudança do quadro atual de ensino no Brasil, que realmente é trágico.

Logo, afirmo que é o momento para uma efetiva prática de mobilização nacional dos professores em todos os níveis, em pressão aos governos de estados e à União, para a melhoria de um quadro que não se restringe ao salarial, mas que atinge a dignidade física e psicológica dos docentes, que encaram uma sociedade calamitosa face a face, de violência material e simbólica no cotidiano escolar. Desestimular um futuro professor é remar contra a ideia da construção de um país menos desigual e potencializar os problemas já existentes. Uma boa saída seria o fechamento dos cursos de licenciatura ou uma mobilização nacional consciente e articulada em prol de um ensino mais digno, em todos os níveis, a envolver professores, pais e alunos?

No contexto da indiferença com a qual são tratados nossos professores no país, Safatle considera que “depois de voltar para casa sangrando por ter levado uma bala de borracha da nossa simpática PM, você poderá ter o prazer de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de o país ‘ter pouca educação’ ou algum candidato a governador dizer que educação será sempre a prioridade das prioridades”. Também não se equivoca Safatle. Entretanto, esses fatos não justificam desencorajar os egressos de nossas universidades à docência.

O cenário da educação no país mudou, em certo grau, nas últimas décadas [notadamente, na última]; há dados sobre tais mudanças, que se fazem de maneira extremamente pontuais e ainda insuficientes, sobretudo quando vislumbramos o país em sua totalidade. Por mais que os noticiários denunciem, diariamente, a precariedade do ensino nas regiões mais pobres e a violência com a qual a educação é tratada no país, os incontáveis problemas ainda persistentes devem servir de estímulo para pensarmos no valor educativo, uma nova escola para um novo professor mais propositivo, mais otimista e mais engajado na formação de nossas crianças, para um real país “pátria educadora”.

Porém, a ação ou a mobilização coletiva se faz mais que urgente, para a alteração do quadro geral que criticamos, o qual reflete o descaso efetivo com a educação brasileira em todos os níveis, especialmente no fundamental e no médio. O professor universitário em geral não deve afugentar ou apartar as escolas ou os professores das escolas; seu papel é aproximar dos mesmos, potencializar o debate e as ações pela mudança educacional no país, trazer os professores e as escolas à universidade, sair de seu gabinete favorável à manutenção de bolsas individuais de pesquisas que o faz imóvel ou letárgico diante dos problemas concretos de nosso país.

Por fim, assegura Safatle que “diante de tamanho cinismo, você não terá nada a fazer a não ser alimentar uma incompreensão profunda por ter sido professor, em vez de ter aberto um restaurante. Por isso o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de ensino médio e fundamental. Assim, acordaremos um dia em um país que não poderá mais mentir para si mesmo, pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa”. Como sugerir a abertura de um restaurante ao invés de ser professor, após a finalização de um curso superior bancado por indivíduos adultos que sonham em ter seus filhos em boas escolas? A saída para nossa educação é indicar a recusa a ser professor do ensino médio e fundamental? Sugere-se ser professor no ensino superior apenas, cuja realidade fora dos grandes centros não se diferencia das piores escolas nacionais? Como será acordar em um país sem escolas? Na verdade, dormiremos em sono profundo, com poucos clientes para muitos restaurantes.

Penso que seja dever do professor de nossas universidades públicas estimular os jovens futuros docentes a assumirem o lugar de uma crítica propositiva, de uma crítica emancipatória para a ação em prol de uma real “pátria educadora”, na qual o ensino-aprendizagem se faça prioridade na vida de cada indivíduo. A ação em massa, junto aos sindicados dos professores, pais e alunos, com a tomada dos espaços públicos de nossas cidades, faz-se urgente. Não há um único professor universitário, advogado, médico, engenheiro, geógrafo ou historiador que não tenham passado por algum engajado professor do pré-escolar, do ensino fundamental ou médio. O momento não é de desencorajamento, mas de estímulo à mudança prática e ao embate de diálogo aberto com aqueles que deveriam nos representar. Não há armamento que segure a coletividade [no caso, toda a classe de professores – sem elitismo] realmente unida e consciente de seus direitos e deveres. Nossas crianças, os adultos do futuro, merecem e precisam desse empenho atual.

Por um lado, a sociedade espera empenho dos estudantes dos cursos de licenciatura e de bacharelado lotados nas universidades públicas brasileiras, após anos de tributação e de investimento. Por outro, o Estado Absoluto parece esperar que a massa se revolte, mais tantas vezes forem necessárias, para respostas a demandas reais e urgentes nas instituições de ensino. Sejamos todos professores engajados na busca de outra educação, para um novo país. O mundo em metamorfose se faz pela sociedade em trânsitos ininterruptos. O estímulo deve continuar a ser dado, pelas bases do ensino. Sejamos professores, neste país, pelo entendimento dessa metamorfose.

* Everaldo Batista da Costa é professor do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)

Foto de capa: Arquivo/Agência Brasil

segunda-feira, 11 de maio de 2015






A MORTE DO FUNCIONÁRIO
(Anton Tcheckov)


Numa noite encantadora, o não menos encantador oficial de justiça Ivan Dmitritch Tcherviakov estava sentado na segunda fila da platéia, contemplando, pelo binóculo, "Os Sinos de Corneville". Sentia-se no cúmulo da bem-aventurança. Mas, de repente... É muito comum encontrar-se, nos contos, este "mas, de repente". Os autores têm razão: a vida é tão cheia de coisas inesperadas! Mas, de repente, seu rosto enrugou-se, os olhos contraíram-se, parou a respiração... afastou o binóculo, inclinou-se e... atchim!!! Espirrou, conforme estão vendo. Não é proibido espirrar, seja a quem for e onde for. Espirram os mujiques, os chefes de polícia e, às vezes, os próprios conselheiros-privados. Todos espirram. Tcherviakov não ficou sequer encabulado, enxugou-se com um lencinho e, como pessoa educada, espiou ao redor, para ver se havia incomodado alguém com seu espirro. Chegou-lhe então a vez de ficar perturbado. Viu que um velhinho, sentado na frente, na primeira fileira, enxugava meticulosamente a calva e o pescoço com a luva, murmurando algo. E Tcherviakov reconheceu, naquele velhinho, o general civil Brizjalov, do Departamento da Viação.
- Eu o molhei! - pensou Tcherviakov. - Não é meu chefe, mas apesar de tudo, não fica bem. Devo desculpar-me.
Tossiu, inclinou o busto para frente e murmurou ao ouvido do general:
- Desculpe, Vossa Excelência, eu o borrifei... foi sem querer...
- Não faz mal, não tem importância...
- Perdoe-me, pelo amor de Deus... Realmente, foi sem querer!
- Ah, sente-se, por favor! Deixe-me ouvir a música!
Tcherviakov ficou perturbado, sorriu estupidamente e pôs-se a olhar para o palco. Mas, por mais que olhasse, não sentia a primitiva bem-aventurança. Começou a atormentar-se de inquietação. No intervalo, aproximou-se de Brizjalov, caminhou um pouco para um lado e outro, perto dele, e, vencendo finalmente a timidez, balbuciou:
- Eu o borrifei, Vossa Excelência... Desculpe... Com efeito... eu... não é que...
- Ah, não se preocupe... Eu até já esqueci e o senhor está sempre falando nisso! - disse o general e moveu com impaciência o lábio inferior.
"Diz que esqueceu, mas há maldade em seus olhos", pensou
Tcherviakov, olhando desconfiado para o general. "Nem sequer fala sobre o caso. Seria preciso explicar-lhe que eu não quis, absolutamente... que se trata de uma lei da natureza. Senão, vai pensar que eu quis cuspir nele. Se não pensar assim agora, chegará a essa conclusão mais tarde!...".
Em casa, Tcherviakov relatou à mulher a falha cometida. Pareceu-lhe que ela encarou o ocorrido com demasiada leviandade. Teve um susto, mas se acalmou, ao saber que Brizjalov pertencia a outra repartição.
- Mesmo assim - disse ela - você deve ir lhe pedir desculpas. Senão, vai pensar que você não sabe se comportar em público!
- Isso mesmo! Eu já me desculpei, mas ele se portou de modo estranho... Não disse uma palavra razoável, sequer. Além disso, não houve oportunidade de conversar.
No dia seguinte, Tcherviakov envergou seu novo uniforme de gala, cortou o cabelo e foi à casa de Brizjalov, para se explicar... Entrando na sala de recepção, viu lá muitos solicitantes e, no meio destes, o próprio general, que já iniciara o recebimento das solicitações. Depois de interrogar alguns dos presentes, o general dirigiu o olhar para Tcherviakov.
Se o senhor se recorda, Vossa Excelência, ontem, no "Arcádia" - começou a relatar o oficial de justiça - eu espirrei e... involuntariamente, o borrifei... Des...
- Que tolice... Vá com Deus! E o senhor, que deseja? - perguntou o general, dirigindo-se já a outro solicitante.
"Não quer falar!", pensou Tcherviakov, empalidecendo. "Quer dizer que está zangado... Não, isso não pode ficar assim... vou-lhe explicar...".
Quando o general acabou de atender o último solicitante e dirigia-se já para o interior da casa, Tcherviakóv deu um passo em sua direção, murmurando:
- Vossa Excelência! Se me atrevo a incomodar Vossa Excelência, é justamente, posso dizer, sob o impulso do arrependimento!... Não foi de propósito, o senhor não pode ignorá-lo!
O general fez cara de choro e sacudiu a mão.
- O senhor está simplesmente zombando de mim! - disse, desaparecendo atrás da porta.
"Que zombaria pode haver nisso?", pensou Tcherviakov. "Não se trata de zombaria! É general, mas não pode compreender isso! Se assim é, não vou me desculpar mais perante esse fanfarrão! Diabo que o carregue! Vou escrever-lhe uma carta, mas não o procurarei mais pessoalmente! Juro por Deus!".
Assim pensava Tcherviakov, a caminho de casa. No entanto, não escreveu aquela carta ao general. Ficou pensando, pensando, mas não conseguiu redigi-la. Foi preciso ir explicar-se pessoalmente, no dia seguinte.
- Ontem eu vim incomodar Vossa Excelência - balbuciou, quando o general dirigiu para ele o olhar interrogador - mas não foi para zombar do senhor, conforme se dignou a dizer. Eu estava-me desculpando porque, ao espirrar, borrifei-o... mas, nem pensei em zombaria. Como poderia ousá-lo? Se formos zombar, quer dizer que não haverá, então, qualquer respeito... pelas pessoas...
- Fora daqui! - vociferou de repente o general, que se tornara azul e tremia com todo o corpo.
- O quê? - perguntou, num murmúrio Tcherviakov, empalidecendo de espanto.
- Fora daqui! - repetiu o general, batendo os pés.
Algo se rompeu na barriga de Tcherviakov. Recuou para a porta, sem ver, sem ouvir coisa alguma, saiu para a rua e caminhou lentamente...
Chegando maquinalmente em casa, deitou-se no divã, sem tirar o uniforme de gala e... morreu.


(1883)
"A Dama do Cachorrinho e outros contos"
Trad. Boris Schnaiderman
ED. Max Limonad, 1986.





PAMONHA
(Anton Tcheckov)


Convidei há dias para o meu escritório a governanta de meus filhos, Iúlia Vassílievna. Era preciso acertar as contas.
- Sente-se, Iúlia Vassílievna! - disse - Vamos fazer as contas. Com certeza, está precisando de dinheiro e a senhora‚ tão cerimoniosa que não pede sozinha... Bem... ficou ajustado entre nós que seriam trinta rublos por mês...
- Quarenta...
- Não, Trinta... Eu tenho anotado... Sempre paguei trinta rublos às governantas...Bem, a senhora residiu aqui durante dois meses...
- Dois meses e cinco dias...
- Dois meses exatos... Anotei assim. Quer dizer que tem a receber sessenta rublos... Descontando nove domingos... a senhora, realmente, não deu aula ao Kólia nos domingos, mas apenas passeou com ele... E mais três feriados...
Iúlia Vassílievna ficou vermelha e pôs-se a puxar uma franja do vestido, mas... não disse palavra!...
- Três feriados... quer dizer que temos a descontar doze rublos... Kólia esteve doente quatro dias e, por isso, não estudou... A senhora, então, deu aula apenas a Vária... Durante três dias, a senhora teve dor de dente e minha mulher dispensou-a das aulas da tarde... Doze e sete são dezenove. Descontando... ficam... hum... quarenta e um rublos... Certo?
O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou congestionado e nublou-se. Começou a tremer-lhe o queixo. Tossiu nervosa, assoou-se, mas... sem dizer palavra!
- Na noite de Ano Bom, a senhora quebrou uma xícara de chá e um pires. São menos dois rublos... A xícara é uma relíquia, custa mais caro, mas... vá lá, Deus que a perdoe! Nossas coisas já se têm estragado em tantas ocasiões! Depois, devido a uma falta de atenção por parte da senhora, Kólia trepou numa árvore e rasgou o paletozinho... São menos dez... A arrumadeira, em consequência igualmente de uma distração sua, roubou os sapatos de Vária. A senhora deve cuidar de tudo. Está contratada e recebe ordenado. Quer dizer que devemos tirar mais cinco... No dia dez de janeiro, a senhora levou emprestados de mim dez rublos...
- Eu não levei! - murmurou Iúlia Vassílievna.
- Mas está anotado aqui!
- Está bem...seja.
- De quarenta e um, tira-se vinte e sete, sobram quatorze...
Os olhos da governanta encheram-se de lágrimas... O suor apareceu sobre seu narizinho comprido e gracioso. Pobre menina!
- Eu só levei uma vez - disse ela, a voz trêmula. - Levei três rublos de sua senhora... Não levei mais nada...
- E agora? Imagine, eu nem anotei isso! Tirando três de quatorze, fica onze... Aqui está o seu dinheiro, minha cara! Três... tres, três... um e um... Queira receber!
Dei-lhe os onze rublos... ela os tomou e enfiou-os no bolso, com dedos trêmulos.
- Merci - murmurou.
Levantei-me de um salto e pus-me a andar pelo quarto. O furor apossou-se de mim.
- Mas, por que este merci? - perguntei.
- Pelo dinheiro...
- Mas eu a assaltei, diabos, eu lhe roubei dinheiro! Por que merci?
- Noutras casas, cheguei a não receber nada...
- Não recebeu nada! Compreende-se! Eu caçoei da senhora, dei-lhe uma lição cruel... Vou lhe pagar todos os seus oitenta rublos! Estão preparados para a senhora, neste envelope! Mas, como é que se pode ser moleirona assim? Porque não protesta? Por que fica quieta? Pensa que, neste mundo, pode-se não ser audacioso? Pensa que se pode ser tão pamonha?
Ela esboçou um sorriso azedo e eu li em seu rosto: "Pode-se sim!".
Pedi-lhe perdão por aquela lição cruel e dei-lhe, para seu grande espanto, os oitenta rublos. Pôs-se a balbuciar merci com timidez e saiu do escritório. Acompanhei-a com o olhar e pensei:
- É fácil ser forte neste mundo!
(1883)
"A Dama do Cachorrinho e outros contos"
Trad. Boris Schnaiderman
ED. Max Limonad, 1986.


UM APÓLOGO
(Machado de Assis)

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.


***


Indico, ainda, a leitura do conto "O inimigo", também do Tcheckov

A utopia da melhor idade



Alice no país das Maravilhas” (melhores redações – FUVEST 1999)


A juventude é contestadora, revolucionária, inovadora. A própria idade e imaturidade do adolescente lhe dá a sensação de onipotência e vontade de mudar o mundo. Certo? Não, errado. Infelizmente a jovem geração brasileira da atualidade é, em grande parte, caracterizada pela futilidade, pela falta de consciência social e pelo conformismo.
Ao passarmos pelos inúmeros shoppings do Brasil, localizamos um extrato da sociedade, característico dos anos 90: a juventude de shopping, possuidora de valores que envergonhariam a juventude que há dez anos lutava por “diretas já”. São jovens preocupados com ostentação, seja através de roupas de griffes, telefones celulares e carros importados.
A injusta distribuição de renda do nosso país, e a criminalidade geraram jovens de condomínio fechado. Cercada em seu mundo de fantasia, essa geração não tem o mínimo de consciência social, e nem interesse em conhecer o que há por tráz dos muros de seu “país das maravilhas”. São pessoas, que muitas vezes não conhecem o valor do dinheiro, e que não sabem o quanto seus pais tiveram que trabalhar para obtê-lo.
É perceptível que a um período de agitação política e de manifestações sociais, que caracterizaram o regime militar, seguiu a geração atual, conformada e acomodada. Essa juventude não tem ideais. Reage ao problema dos “sem-terra” ou à quebra da saúde pública, como reagiria ao lançamento de uma nova coleção de roupas. Quem sabe o segundo fato fosse até mais interessante para ela...
Desse modo, a juventude de shopping, de condomínio fechado ou a juventude conformada são todos sinônimos para esses mesmos jovens da atualidade, que abdicaram de sua vontade natural de mudar o mundo, e de seu ímpeto revolucionário. Preferem contar com sua dose de alienação diária e fazerem compras. É! Talvez seja realmente mais fácil, ou como eles diriam: “mais legal”.




Há certa resistência entre alguns estudiosos em usar termos muito fechados para definir povos, regiões ou gerações. Argumentam que definições simplificam os problemas e que toda simplificação tende a superficializar o debate. Outra corrente defende que, ainda que possam simplificar o debate, as definições têm o mérito de orientar as discussões. Fiquemos com a segunda opção. Até pouco tempo atrás, livros e filmes ainda falavam da Geração X, aquela que substituiu os yuppies dos anos 80. Essa turma preferia o bermudão e a camisa de flanela à gravata colorida e ao relógio Rolex, ícones de seus antecessores. Isso foi no início dos anos 90. Recentemente, o mercado publicitário saudou a maioridade da Geração Y, formada pelos jovens nascidos do meio para o fim da década de 70, que assistiram à revolução tecnológica. Ao contrário de seus antecessores slackers – algo como "largadões", em inglês –, os adolescentes da metade dos anos 90 eram consumistas. Mas não de roupas, e sim de traquitanas eletrônicas. Agora, começa-se a falar na Geração Z, que engloba os nascidos em meados da década de 80.
A grande nuance dessa geração é zapear. Daí o Z. Em comum, essa juventude muda de um canal para outro na televisão. Vai da internet para o telefone, do telefone para o vídeo e retorna novamente à internet. Também troca de uma visão de mundo para outra, na vida.
Garotas e garotos da Geração Z, em sua maioria, nunca conceberam o planeta sem computador, chats, telefone celular. Por isso, são menos deslumbrados que os da Geração Y com chips e joysticks. Sua maneira de pensar foi influenciada desde o berço pelo mundo complexo e veloz que a tecnologia engendrou. Diferentemente de seus pais, sentem-se à vontade quando ligam ao mesmo tempo a televisão, o rádio, o telefone, música e internet. Outra característica essencial dessa geração é o conceito de mundo que possui, desapegado das fronteiras geográficas. Para eles, a globalização não foi um valor adquirido no meio da vida a um custo elevado. Aprenderam a conviver com ela já na infância. Como informação não lhes falta, estão um passo à frente dos mais velhos, concentrados em adaptar-se aos novos tempos.
Enquanto os demais buscam adquirir informação, o desafio que se apresenta à Geração Z é de outra natureza. Ela precisa aprender a selecionar e separar o joio do trigo. E esse desafio não se resolve com um micro veloz. A arma chama-se maturidade. É nisso, dizem os especialistas, que os jovens precisam trabalhar. Como sempre.









Houve um tempo em que não existiam jovens. Existiam, evidentemente, pessoas na faixa dos 15 aos 30 anos de idade, mas elas não se viam como um grupo que compartilhava valores, códigos de conduta, vestimentas ou dialetos diferentes do restante da sociedade. Nesse tempo, que se estendeu até o final da Segunda Guerra Mundial, a infância era mais longa, interrompida por uma brusca entrada na vida adulta. As meninas eram meninas – ou seja, brincavam de bonecas – até os quinze anos, quando debutavam e começavam a espera, por vezes exasperadora, do pretendente com o qual se casariam. As filhas de famílias de classe média iam cursar a Escola Normal, onde aprimoravam seus dotes de futuras esposas e mães. Os garotos tinham infância um pouco mais longa: os folguedos podiam durar até os dezessete anos, quando a necessidade os empurrava para a rua, para aprenderem uma profissão e ajudar no sustento da casa. Aos mais ricos, que ingressavam nas faculdades, era permitido adiar um pouco mais a entrada no mundo do trabalho.
Essa etapa entre a infância e a adultice – a espera matrimonial das moças, a formação profissional dos rapazes – não era uma “juventude” no sentido que uso aqui, isto é, uma fase diferenciada da vida, durante a qual se compartilha valores, condutas, modas etc., diferentes dos adultos e crianças. O que todos queriam era abreviar, e não prolongar essa fase. Não havia qualquer prazer em ser jovem. A inexperiência era um martírio, motivo de escárnio para os mais velhos. Nos anos 1900, na Bolsa de Café de São Paulo, por exemplo, ridicularizava-se os rapazes que não exibissem vastos bigodes, símbolo de virilidade na Belle Époque. O que os moços e moças mais desejavam era serem valorizados e respeitados, o que só ocorreria com casamento, filhos, experiência profissional e diploma. Os jovens se preparavam arduamente para serem aceitos no mundo dos adultos, e nisso se resumia a juventude.
Tudo isso mudou no pós-guerra. Nos países ricos e, entre nós, nas famílias de classe média e alta das grandes cidades, surgiram condutas, modas, músicas, enfim, um universo de referências culturais identificadas à juventude. Nos Estados Unidos, graças à prosperidade econômica e ao costume dos empregos temporários, os jovens passaram a dispor de mais dinheiro, o que se traduziu na formação de nichos de consumo específicos para essa faixa etária. O nascimento do rock and roll, entre 1951 e 1952, exemplifica bem esse novo comportamento. Naqueles anos, garotos e garotas começaram a sintonizar rádios independentes de rythm and blues negro, a comprar discos desse gênero e a dançá-los, utilizando-se das coreografias do boogie woogie. Artistas como Fats Domino, Chuck Berry e Little Richard logo perceberam que o ritmo e o hedonismo da música negra era o que mais agradava os jovens. Por intermédio de pequenas gravadoras, lançaram composições que fundiam o rythm and blues ao country. Esse novo estilo, batizado de rock and roll, tornou-se um estrondoso sucesso e pegou de surpresa a grande indústria fonográfica. Pela primeira vez, os adolescentes ouviam um tipo de música diferente do que os seus pais gostavam.
Junto com a música, vieram o cinema e a moda. Hollywood logo percebeu que a juventude era um novo filão de consumo, e Juventude Transviada estreou em 1955, com James Dean interpretando Jim Stark, um rebelde agressivo que esbanjava charme e apelo sexual. Marlon Brando, em O Selvagem, lançado no mesmo ano, viveu um jovem líder de uma gangue de motociclistas, vestindo camiseta justa e jaqueta de couro. Dean e Brando tornaram-se os modelos daquela geração: o comportamento rebelde, agressivo e sensual de seus personagens era imitado pelos garotos e arrancava suspiros das moças. Nessa época, formaram-se violentas gangues de jovens em quase todas as grandes cidades do mundo, montados em motonetas scooters e trajando a moda rockabilly: camisetas, jaquetas de couro, calças jeans, costeletas e longos topetes.
Inventava-se, assim, a juventude, identificada pelo comportamento transgressor, pela gíria, pela vestimenta, pela música. Os adolescentes, em qualquer cultura e época, constroem suas identidades ao rejeitar a condição de crianças e romper, às vezes intempestivamente, os vínculos que os mantêm unidos aos pais. A novidade histórica dos anos do pós-guerra foi associar, a essa atitude essencialmente juvenil, dois ingredientes: a ideia de liberdade individual e o consumo. A relação entre esses elementos foi dialética, como diriam os hegelianos e marxistas. A ideia de liberdade como livre arbítrio, herdada das Luzes e fundamental para a concepção ocidental de democracia, foi transformada pelos jovens rebeldes em liberdade para escolher ser diferente dos pais, professores, padres, ou seja, dos adultos. Isso implicava no consumo de bens – músicas, roupas, adereços, filmes, drogas – capazes de defini-los como membros de um grupo que lhes emprestava identidade e, portanto, reforçava a sensação de liberdade.
Hoje, uma das ideias centrais de nossa cultura é a obsessão pela juventude. A infância foi encurtada, pois meninos e meninas querem deixar de ser crianças cada vez mais cedo. A adultice é cada vez mais postergada, pois os adultos relutam em assumi-la e querem permanecer jovens por mais tempo. Se, antes, a juventude era apenas mais um nicho de consumo, hoje se tornou o eixo quase único a orientar a produção da música, moda, cinema e outros (...)


21/07/2009 - Luis Bustamante

sábado, 9 de maio de 2015

Os desafios de um país que envelhece

A população mundial está envelhecendo e, nas próximas décadas, esse percentual tenderá a ser, cada vez maior. Porém o tratamento dispensado aos idosos e seu papel social têm se alterado significativamente ao longo da história e, no Brasil, ainda são inúmeros os desafios para garantir a essa faixa da população uma vida mais saudável, estável e produtiva.  Leia os excertos abaixo e, munido de seus conhecimentos sobre o tema, escreva uma dissertação sobre o tema “Os desafios de um país envelhecendo”, elaborando uma proposta de intervenção para os desafios que abordar.



Texto 1 O tsunami grisalho
José Eustáquio Diniz Alves
A população mundial atingiu a maior taxa de crescimento da história da humanidade na década de 1960, cerca de 2,1% ao ano. Foi nesta época que se começou a se difundir a visão catastrófica da “bomba populacional”. De lá para cá, o ritmo de crescimento demográfico tem diminuído, estando em torno de 1,1% ao ano, no quinquênio 2010-15. Ou seja, a chamada “bomba populacional” está sendo desarmada. A população mundial está crescendo menos e vivendo mais. A esperança de vida ao nascer era de 48 anos em 1950-55 e subiu para 68 anos no quinquênio 2005-10.
Mas enquanto a população como um todo cresce em ritmo mais lento, a população idosa cresce num ritmo mais veloz, pois a grande onda de nascimentos e de filhos sobreviventes depois da Segunda Guerra Mundial, especialmente das décadas de 1950 e 1960, está se transformando em uma grande onda de idosos que chegam à “terceira idade” agora no século XXI. Alguns autores estão chamando este fenômeno de tsunami grisalho (grey tsunami).

Texto 2 O fantasma da pessoa idosa
O mundo está envelhecendo como nunca antes na história humana. Diante desse quadro, o mercado de consumo se expande, oferecendo produtos específicos para a “pessoa idosa”. Ao modo de um comercial de TV, toda a artificialidade do lugar, com academias e programas específicos para a “terceira idade”.
Essas cidades, bairros ou asilos específicos para a “pessoa idosa” podem ser vistos como uma das características da sociedade moderna, surgida em meados do século XIX, não passando de uma forma de segregação do velho, resultado da desmoralização de tudo que remeta à velhice e que contrasta enormemente com a figura do velho no Brasil colonial, como nos diz Freire: “O velho antigo era sereno e sábio. Aureolado de barbas e cabelos brancos, seu porte inspirava confiança, sobriedade e determinação. Quando em cólera, seu olhar era metálico, fulminante. A força acompanhava-o nos momentos de vingança ou de ternura. Os jovens procuravam imitá-lo…” (1999, p. 225). Podemos constatar a desmoralização da velhice a partir do declínio do poder patriarcal, um processo que se estende desde o final do século XIX. Nessa época, uma série de discursos se dirigiam aos velhos “Nas descrições médicas, a velhice masculina era carregada de traços físicos e morais repulsivos. O velho tinha o semblante macilento e rugoso…” (FREIRE, 1999, p. 223). A velhice é aos poucos estigmatizada e o velho banido do convívio social para as conhecidas “casas de repouso” por ser considerado improdutivo para a espécie e para o Estado, sendo esta uma prática puramente ideológica porque se propõe a estabelecer uma idealização da velhice transformada em mercadoria pelo capital.

Texto 3 Senilidade e a invisibilidade social - Camila Maciel Polonio
A maioria dos idosos no Brasil encontram-se em condição de invisibilidade, social, política e muitas vezes familiar.
Há alguns anos, o idoso era tido como patriarca, que era dotado de sabedoria. (...) O ancião era o guia familiar, os mais novos pediam conselho e ouviam as suas orientações. Eles exerciam um papel que, após o término da sua função de produtividade, assumiam o de líderes familiares. O idoso saía do lugar de provedor, cargo este assumido por seus filhos, para ocupar o de orientador. A sabedoria nada tinha a ver com estudos, era o arquivo das experiências da vida. 
Hoje, algumas famílias encontram-se cada vez mais fechadas e mais focadas na produção, aquele que não produz não tem espaço. O idoso dessa forma perde o seu lugar na família e na sociedade.
No entanto, acredito que, assim como os jovens conseguiram, ao longo da história, mudar a sua posição social e familiar, tornando-se importante foco da sociedade, a senilidade conseguirá novamente o respeito. Como? Se cada família jovem conseguir compreender que, em determinado momento precisará cuidar de seus idosos, irá construir em seus filhos a mesma compreensão.

Se conseguir sair das justificativas capitalistas, conseguir valorizar o saber, sobrepondo o valor da produção, irá reconstruir o valor do idoso. Se pais, filhos e netos assimilarem o ciclo vital e conseguirem ressignificar os papéis familiares, todos terão direito e lugar na sociedade. (...) A população está envelhecendo e precisamos modificar o nosso olhar, a nossa educação e o respeito por aqueles que fizeram e fazem parte da história. 

Texto 4 Para: velhice não é doença

Texto 5 Envelhecimento da população brasileira e seus desafios

Texto 6 - O desafio urbano de uma sociedade que envelhece

Vídeo: os desafios do envelhecimento dos brasileiros

Outros textos

http://xucurus.blogspot.com.br/2012/04/o-tsunami-grisalho-o-envelhecimento-da.html
http://xucurus.blogspot.com.br/2013/03/cafe-filosofico-cpfl-cultura.html
http://xucurus.blogspot.com.br/2011/03/as-contradicoes-do-amadurecimento.html

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O fanatismo


O Brasil virou o país do fanatismo?


Seja na mesa do bar, nas redes sociais ou na sala de casa, os brasileiros estão cada vez mais rachados por causa de sua adesão cega em assuntos como esporte, religião, consumo e, principalmente, política. Entenda por que as pessoas deixaram de debater ideias, como a ciência explica esse fenômeno e como essas rixas podem ser ruins para o Brasil
06/05/2015 - 09H05/ ATUALIZADO 09H0505 / POR NATHAN FERNANDES E THIAGO TANJI Revista Galileu


2014, CURITIBA: SEGUNDO PESQUISAS, APENAS 7% DAS PESSOAS QUE FAZEM PARTE DE UMA TORCIDA ORGANIZADA PARTICIPAM DE CONFLITOS VIOLENTOS NO FUTEBOL (FOTO: HEULER ANDREY/ AGIF)

As eleições presidenciais acabaram em outubro, com a legítima eleição da presidente Dilma Rousseff.

Desde o começo do ano, à medida que cada vez mais pessoas aprenderam a escrever“impeachment”, a reação dos partidários de ambos os lados ganhou contornos ainda mais radicais. Em meados de março, duas manifestações tomaram conta das ruas das principais cidades brasileiras: uma a favor do governo, e a outra, maior em número, contra. Os protestos não registraram confusões, mas foram palco de cenas preocupantes: faixas com a suástica nazista pedindo a volta da ditadura militar em plena avenida Paulista, pessoas hostilizando jornalistas ideologicamente contrários ao movimento e acusações de golpismo para quem é contra o governo.

Durante os pronunciamentos da presidente e de dois de seus ministros na televisão,milhares de pessoas saíram na janela de casa para promover um panelaço – o barulho foi tão alto que abafou qualquer possibilidade de ao menos tentar ouvir o que diziam. Nada contra manifestações, é claro. O problema é que, ao ignorar opiniões contrárias, as pessoas tendem a aderir cegamente a uma posição, doutrina ou sistema e a caminhar numa direção perigosa: a do fanatismo.

Há alguns anos a ciência tenta explicar por que, afinal, é tão fácil alinhar-se a um conjunto de pessoas que encontrou um Judas particular e culpá-lo por todo o ­caos do universo. Uma prova disso é o paradigma dos grupos mínimos, elaborado nos anos 1970 pelo psicólogo Henri Tajfel, da Universidade de Bristol, na Inglaterra. Ao serem aleatoriamente agrupados de acordo com critérios irrelevantes, como o pintor favorito, os participantes do experimento criaram forte ligação entre aqueles que dividiam a mesma turma, exaltando suas qualidades e hostilizando os rivais. Ao final do experimento, formou-se o “nós contra eles” – será que alguém aí ouviu algo parecido com isso no que ficou convencionado chamar de protestos de março?

Ainda no século 19, o pensador francês Gustave le Bon já havia atentado para o comportamento bizarro das pessoas ao se unirem em grupos, formando uma espécie de mentalidade única irracional – ou o que o escritor Nelson Rodrigues chamaria de “unanimidade burra”. Na obra Psicologia das multidões (WMF Martins Fontes), de 1895, Le Bon escreveu: “Nas grandes multidões, acumula-se a estupidez, em vez da inteligência. Na mentalidade coletiva, as aptidões intelectuais dos indivíduos e, consequentemente, suas personalidades se enfraquecem”. É como se, ao se unir aos seus pares, as pessoas deixassem de usar a razão e passassem a deixar a emoção tomar conta, tornando-se presas fáceis de manipuladores. Segundo o historiador Jaime Pinsky, autor do livro Faces do fanatismo (Contexto), o grande perigo das devoções extremas é a convicção inabalável. “A certeza da verdade do fanático não é resultante de uma reflexão ou de uma dedução intelectual”, diz o escritor.
1936, BERLIM: ALEMÃES REALIZAM A TÍPICA SAUDAÇÃO NAZISTA PARA RECEBER O LÍDER ADOLF HITLER DURANTE OS JOGOS OLÍMPICOS REALIZADOS NA CIDADE (FOTO: BETTMANN/CORBIS)

A isso se junta o experimento do psicólogo Philip Zimbardo, da Universidade Stanford. Há mais de 40 anos, ele resolveu simular o comportamento dentro de uma prisão, atribuindo aleatoriamente o papel de “guardas” e “prisioneiros” a estudantes. No entanto, o que deveria seguir por duas semanas durou apenas seis dias. Ninguém ali era Meryl Streep, mas os participantes do estudo interpretaram tão bem seus papéis que os “guardas” se revelaram verdadeiros sádicos, humilhando e causando traumas entre os “prisioneiros”. “Em grupo somos capazes de realizar ações que individualmente não seríamos”, diz Ligia Mendonça, participante do convênio do laboratório de psicopatologia clínica e psicanálise da Universidade de Toulouse.

Além de inspirar o filme The Stanford Prison Experiment (“O experimento da prisão de Stanford”, em tradução livre), lançado em janeiro nos Estados Unidos, o estudo de Zimbardo também ajudou na formulação da teoria da identidade social, dos psicólogos John Turner e Henri Tajfel – o mesmo dos grupos mínimos. Segundo a ideia, quanto mais inserido em um conjunto, mais o participante acata seus valores. “Quando uma pessoa pertence convictamente a um grupo, ela adquire uma identida­de social: valores, objetivos, memórias etc. Essa identidade contrapõe o participante aos que não fazem parte do seu grupo”, diz o psicólogo Geraldo José de Paiva, da Universidade de São Paulo.

Seja um cicloativista que vê um inimigo em qualquer objeto de quatro rodas, um extremista religioso que não concorda com a linha editorial de um jornal francês e mata os responsáveis, um torcedor de um time que não consegue conviver com alguém vestindo a camisa do time adversário ou um fã da Apple que olha com desdém para qualquer aparelho Android, a não aceitação de ideias diferentes e a cegueira causada pela crença absoluta em “verdades reveladas” ainda insistem em aparecer nas mais diferentes esferas da sociedade, ameaçando a liberdade e o conceito básico de democracia.
2014, SÍRIA: COM DISCURSO RELIGIOSO, OS EXTREMISTAS DO ESTADO ISLÂMICO TORNARAM-SE UM DOS GRUPOS MAIS VIOLENTOS DA ATUALIDADE (FOTO: MEDYAN DAIRIEH/ZUMA WIRE)
O TRIUNFO DA BARBÁRIE

Como explicar que a nação de Johann Wolfgang Goethe, Ludwig van Beethoven e Albert Einstein também tenha se tornado o local onde se realizou uma das maiores atrocidades da história? Para especialistas, o fenômeno nazista na Alemanha vai além da ideia de um aparente surto psicótico coletivo. “Um líder carismático como Hitler, que promete felicidade a qualquer preço, passa a ser uma figura sedutora para uma massa desacreditada que vive o desemprego, a fome e a escassez de alimentos”, afirma Ana Maria Dietrich, professora do programa de pós-graduação da Universidade Federal do ABC. “Em momentos de crise, tende-se a eleger um líder e também a escolher bodes expiatórios.”

Quando Hitler chegou ao poder, em 1933, a Alemanha passava por um momento de instabilidade política e eco­nômica: as lembranças da derrota na Primeira Guerra Mundial ainda eram muito recentes e se refletiam em diferentes problemas, como desemprego, inflação e fragilidade do sistema político. A ascensão de um líder capaz de resgatar o sentimento de orgulho alemão e conclamar a revanche pelas humilhações sofridas no conflito mundial teve alta aceitação entre as massas. Só faltava encontrar um inimigo comum e responsabilizá-lo. Spoiler para quem não viveu na Terra nos últimos 80 anos: os judeus foram os escolhidos, assim como outras minorias, como negros e homossexuais.
"Vemos o ser humano que já perdeu todos os laços de solidariedade. Isolado e sem consciência de classe ou de família, ele se torna um número na massa e é capaz de perpetrar as maiores atrocidades como quem carimba um papel"

Para dar conta das aspirações nazistas, criou-se uma verdadeira indústria da morte, comandada por homens como Adolf Eichmann, que foi capturado em Buenos Aires em 1960. No livroEichmann em Jerusalém (Companhia das Letras), a filósofa política Hannah Arendt conta a história do julgamento do oficial, e o descreve não como um “manía­co assassino”, mas como um ­burocrata a serviço do partido, que tinha obrigação de obedecer ordens. Quem disser que este é o conceito do termo “banalidade do mal”, cunhado pela autora, ganha pontos no vestibular da vida.

“Vemos o ser humano que já perdeu todos os laços de solidariedade. Isolado e sem consciência de classe ou de família, ele se torna um número na massa e é capaz de perpetrar as maiores atrocidades como quem carimba um papel”, afirma Ana Maria Dietrich. O extremismo político não respeita as contradições do jogo democrático e rejeita a ideia de saber lidar com o outro. “No caso do nazismo, a lei de que só o líder tinha razão e os judeus eram os culpados de todas as mazelas fazia que as reflexões sobre os problemas perdessem o sentido”, completa.

Apesar de parecerem historicamente distantes, algumas das premissas tota­litárias do episódio ainda não foram completamente resolvidas pela sociedade. “O argumento racional faz parte do gênero humano, e o debate entre ideias diferentes é importante para que as coisas se esclareçam”, diz Jaime Pinsky. “Mas o limiar disso está na racionalidade: quando passa a ter dogmas, você extrapola a racionalidade e se torna um fanático.” Qualquer semelhança com o extremismo de discursos entre “coxinhas” e “petralhas” observado nos últimos meses não é mera coincidência.

O racha entre militantes do PT e do PSDB teve início antes mesmo das eleições do ano passado, marcadas por discussões intermináveis nas redes sociais, com o fim até de certas amizades. Este ano, essas discussões entre pessoas pró e contra o governo ganharam um novo palco: as ruas.

No dia 15 de março, manifestações tomaram conta de 153 cidades do Brasil. Independentemente do lado, o que se vê em alguns casos é o ódio to­mar o lugar do debate: como se gritar “Dilma vagabunda” ou desqualificar uma manifestação por causa da classe social de quem participa fosse argumento. Como lembrou o filósofo Vladimir Safatle em sua coluna do jornal Folha de S.Paulo, o discurso de conciliação não funciona na política porque é exata­mente ela que coloca as contradições à mostra. Para ele, a “rachadura” do Brasil sempre existiu, com a ajuda da concentração de renda, da disparidade regional e de preconceitos. “Essa polaridade apenas permitiu que a divisão se expressasse”, escreveu ele.
FÉ CONTRA FOGO

A psicologia ajuda a entender por que grupos como o Estado Islâmico, o Boko Haram e a Al-Qaeda são tão implacáveis com aqueles que consideram infiéis. Ao coordenar as primeiras pesquisas com homens-bomba frustrados (que não explodiram por problemas técnicos ou por terem sido pegos pela polícia), o psicólogo Ariel Merari, da Universidade de Tel-Aviv, constatou que os principais fatores que motivavam os terroristas a tirar o pino de uma granada não eram a religião nem o desejo de vingança, mas sim a vontade de ser admirado pelo grupo, compensando sua falta de habilidade social. Ou seja, corresponder às expectativas do meio é um fator mais dominante que a ideologia. “Eles eram jovens fracos e dependentes, não o tipo de pessoa ideo­lógica”, afirmou Merari a GALILEU.

Para a tristeza dos conservadores, o islamismo não detém o monopólio do fundamentalismo religioso. Em maior ou menor grau, grande parte das reli­giões já ultrapassou a linha do extremismo. Como lembra a professora Maria de Lourdes Corrêa Lima, do departamento de teologia da PUC-Rio, o conceito do fundamentalismo tem início no século 20, quando a American Bible League lançou em 12 volumes a obra The Fundamentals: a Testimony to the Truth (“Os pontos fundamentais: um testemunho para a fé”, em tradução livre). A ideia era defender os cristãos das ameaças do liberalismo e do modernismo, que iam de encontro a suas convicções. “O fundamentalismo se baseia numa visão dualista, segundo a qual tudo o que não está de acordo com o que o grupo defende é considerado mau. Não entram mais em jogo nem a reflexão nem a tolerância, mas somente a afirmação categórica de certos princípios”, explica ela.

Vale lembrar que o fanatismo religioso já despertava o interesse de filósofos, como o inglês John Locke, no século 17, quando a reforma luterana esquentou o clima na Europa.Para Locke – ele próprio um religioso –, ao povo era necessário dar as­sistência moral, e não dogmas teológicos. Ele acreditava que representantes de religiões diferentes pudessem conviver em paz, e que garantir o respeito entre opiniões divergentes ficaria a cargo do Estado. Mas, para o filósofo, até a tolerância tinha limite. Por responder a um líder estrangeiro (o papa romano), os católicos, que já haviam usado os tribunais da Inquisição para queimar desafetos na fogueira, não deveriam ser contemplados com esse benefício, assim como os ateus. “Os que negam a existência de Deus não podem ser tolerados de modo algum”, afirmava ele.

Não é preciso viajar no tempo para observar a ironia teológica. Parte da militância ligada a religiões no Brasil atravanca a ampliação de direitos indivi­duais e questões de saúde pública, como a união civil homossexual e o aborto. Não foi à toa que, no início de março, um vídeo que mostra fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus uniformizados como militares, marchando e gritando frases de efeito assustou muita gente. Por parecer, de fato, um exército, não faltaram comparações com os registros de Leni Riefenstahl da ascensão do regime fascista.

Não era para tanto. Segundo a Universal, a única atividade regular dos 4,3 mil jovens que compõem o projeto Guardiões do Altar é assistir a aulas que “estimulam o debate e a reflexão sobre aspectos do texto bíblico e do trabalho missionário”. Procurada por GALILEU, a Universal enviou um texto disponível no seu site e respondeu às perguntas solicitadas por e-mail com a pérola: “Se restarem dúvidas sobre o acima explicado [no texto], ficará claro que a pergunta não tem sentido”.

“Eles acham que vocês são uma amea­ça”, afirma Fábio Marton, autor de Ímpio: o evangelho de um ateu (Leya). Criado em um ambiente religioso, o jornalista foi pastor mirim e ajudou a exorcizar a própria mãe quando fazia parte de uma igreja pentecostal conhecida como Igreja Evangélica Exército Celestial. “Foram quatro anos de introspecção, até que notei uma coisa estranha em ser um robô de Cristo, umaautoaniquilação”, afirma. Para Marton, um ponto-chave para entender os evangélicos no Brasil é compreender sua relação com as religiões africanas. “Para os evangélicos, os orixás são demônios, eles acreditam mais nisso do que em Deus. Esse clima de batalha eles têm em comum com o fanatismo islâmico”, diz ele.

Para o psicólogo Ariel Merari, apesar de certos tipos de pessoas serem mais fáceis de influenciar do que outros, os mecanismos de convencimento usados por algumas igrejas são semelhantes aos utilizados por muçulmanos extremistas – o que muda é a influência cultural e social. “São processos psicológicos universais que resultam da pressão ou da vontade de ser apreciado pelo grupo.”
2013, JOINVILLE: NO JOGO ENTRE ATLÉTICO PARANAENSE E VASCO, AS ATENÇÕES DEIXARAM O CAMPO E SE VOLTARAM PARA A VIOLÊNCIA NAS ARQUIBANCADAS (FOTO: PEDRO KIRILLOS/AGÊNCIA O GLOBO)
MORTE E PAIXÃO NO CAMPO

Em 2013, Atlético Paranaense e Vasco disputavam uma partida decisiva pela última rodada do Campeonato Brasileiro. Se perdesse, a equipe carioca enfrentaria o segundo rebaixamento de sua história. Logo após o início do jogo, os olhos concentrados no campo voltaram-se para as arquibancadas. Torcedores organizados dos dois times, rivais de longa data, começaram uma briga que não conseguiu ser contida pelos seguranças da Arena Joinville. O placar final de 5 a 1 para o Atlético Paranaense foi mero detalhe frente à imagem de um pai vascaíno que protegia seu filho em meio ao combate.

Apesar de os torcedores organizados estarem associados a atos de violência, suas origens são políticas. “As primeiras organizadas surgiram na década de 1960 e foram influenciadas pelo espírito da época, como um movimento de resistência e fiscalização dentro do futebol”, afirma Felipe Lopes, que defendeu tese de doutorado no Instituto de Psicologia da USP sobre o assunto. Mas, enquanto al­gumas torcidas se organizavam como “fiscalizadoras”, o sentimento de militarização, reflexo da época, também crescia.

“Certos grupos eram organizados em ‘pelotões’, e seus dirigentes eram chamados de capitães. Essa se tornou uma face mais ligada à guerra, machista e militarizada, e a partir dos anos 1980 essas torcidas deixaram as páginas esportivas para ocupar as páginas policiais”, afirma o sociólogo Mauricio Murad, autor do livro Para entender a violência no futebol (Benvirá).

A perda da força de instituições que eram fontes de identidade, como sindicatos e partidos, explica a escalada da violência. Isso fez que as torcidas acabassem se tornando um dos poucos espaços de reconhecimento social, ainda mais entre os jovens carentes de lazer e cultura. Nesse caso, a devoção pelo time de futebol se mistura à lealdade para com a torcida organizada. “O futebol é um dos maiores patrimônios da cultura coletiva brasileira e fruto de identidade social. Quando essa paixão excede os padrões de sociabilidade, isso se torna fanatismo, deixando de existir a diferença entre adversário e inimigo”, diz Murad. Segundo o pesquisador, o Brasil é o país mais violento do mundo em relação a conflitos entre organizadas: de 2012 a 2014, 71 mortes foram registradas por aqui.

Ainda assim, apenas 7% dos torcedores que pertencem a um grupo uniformizado participam dos conflitos. “Quem rouba a bandeira de uma torcida rival, por exemplo, ganha reconhecimento”, diz Lopes. Outra explicação para a violência se deve a fatores mais racionais, como a disputa pelo poder no comando da própria organização, algo que acontece de maneira recorrente nas barras bravas, as torcidas argentinas. “Existe a venda de drogas e álcool, o apoio financeiro de dirigentes, o lucro com a revenda de ingressos... Então vemos mortes de pessoas mais velhas que estão implicadas numa disputa pelo poder”, afirma André Luiz Nery, autor de Violência no futebol: mortes de torcedores na Argentina e no Brasil (Multifoco).

Seguindo os conceitos de Le Bon, Murad destaca a ideia do sentimento de invisibilidade no meio das massas como causa da violência. “Quando vemos torcedores dizendo que vão morrer pelo seu time e quando agridem outro torcedor, vemos esse lado irracional”, diz ele. Já para Felipe Lopes, é preciso tomar cuidado ao afirmar que as manifestações violentas estão ligadas ao comportamento das massas. “Se a massa é potencialmente violenta e irracional, você legitima a repressão”, ele afirma. “Mas isso não quer dizer que a pessoa não aja de modo mais intenso quando está em grupo: é esse contágio que faz o futebol ser tão interessante de ver de dentro do estádio.”
2014, HAMBURGO: AS FILAS DOS LANÇAMENTOS DA APPLE SÃO UMA ATRAÇÃO À PARTE. A EUFORIA PARA ADQUIRIR OS APARELHOS É TANTA QUE, NA CHINA, UM JOVEM VENDEU O RIM PARA COMPRAR UM IPHONE E UM IPAD (FOTO: AXEL HEIMKEN/DPA/ZUMA WIRE)
SIMPATIA PELO CONSUMO

Proporcionais ao aumento do tamanho do iPhone são as filas de consumidores ávidos por adquirir as novidades da Apple. As aglomerações já são uma atração aguardada não só por consumidores, mas também por empreendedores do acaso, que chegam a cobrar R$ 400 por um lugar na fila. Já para viabilizar o dinheiro necessário, a China é a mais inovadora. Em 2012, um jovem chinês de 17 anos transformou em realidade uma metáfora ao vender um rim para comprar um iPhone e um iPad. É claro que a euforia pela marca não se deve somente a seu charme irresistível – o marketing eficiente também tem seus méritos.

A campanha de 2006 “I’m a Mac, I’m a PC” deixa evidente a diferença do perfil dos consumidores da companhia e aumenta o sentimento de pertencer a um grupo exclusivo. Nos anúncios, o usuário de Mac é retratado como um jovem descolado, enquanto os usuários de PC são burocratas engravatados. Num artigo para o site Live Science, Albert Muniz Jr., professor de marketing da Universidade DePaul, em Chicago, lembra que, nos anos 1980, os applemaníacos já buscavam se diferenciar. “Eles diziam que, naquela época, era evidente que o pessoal da IBM tinha um jeito: vestia terno e votava no presidente Reagan. Já o pessoal do Mac tinha outro: vestia jeans e não votava no Reagan.”

Segundo Carlos Augusto Costa, diretor do laboratório de neuromarketing da FGV Projetos, 92% dos consumidores mudam de ideia na hora das compras. O desafio das marcas, portanto, é evitar que isso aconteça. Uma das formas mais tradicionais é a associação com os trend setters, pessoas que ditam tendências. Ao vermos alguém renomado ou um ídolo usando determinada marca de desodorante, por exemplo, tendemos a querer copiar a ação. Culpa dos neurônios espelhos, que fazem que nossa percepção visual inicie um tipo de simulação interna dos atos dos outros. “Voltando um pouco às propagandas da Johnson & Johnson, por exemplo, as mães podiam não ter bebês tão bonitos como aqueles, mas poderiam fazer seus filhos usarem fraldas iguais; o mesmo raciocínio serve para as propagandas de cuecas, e assim por diante”, explica Costa.

Isso funciona bem quando temos uma relação emocional acima da média com o produto. É por isso que para entender o sucesso de uma marca como a Apple é preciso conhecer os mecanismos da religião. Para Costa, as marcas que causam euforia têm símbolos fortes e pessoas inspiradoras que disseminam suas filosofias, como é o caso de Jesus Cristo na Igreja católica. “Nosso cérebro também gosta de uma novela. Como Buda, Maomé e Cristo, as marcas precisam criar envolvimento”, afirma ele. Nada que o messias Steve Jobs não tenha feito durante suas pregações.
O CAMINHO DA TOLERÂNCIA

A incapacidade de compreender opi­niões diferentes é uma ameaça à democracia, mas existe uma forma de combater isso? “A liberdade deve ser sempre a maior possível, mas isso significa colocar certos limites para garantir os direitos e a integridade de outros”, afirma Ricardo Bins di Napoli, professor de filosofia da Universidade Federal de Santa Maria e especialista em temas ligados à ética política. Para que isso seja possível, é necessário construir uma cultura de tolerância que passe por todos os elementos que compõem uma sociedade. “É a capacidade de se abster de intervir na opinião do outro, mesmo que se desaprove ou se tenha o poder para calá-la, cerceá-la ou até prendê-la”, diz o professor.

A aceitação de valores diferentes é um exercício de autocrítica. Ela cria as condições necessárias para construir um diálogo positivo para o desenvolvimento de uma sociedade sem rachaduras, na qual a palavra “respeito” não seja apenas uma estampa de camiseta. Afinal, qual seria a graça do futebol se o rival fosse extinto? Conflitos nos fazem questionar e evoluir. Antes de xingar a mãe dos desafetos, talvez seja melhor iniciar um diálogo capaz de conter o maior número possível de opiniões. E isso inclui adicionar novamente aquele amigo excluído do seu Facebook durante as eleições e os protestos de março. Mais amor e menos ódio, por favor.
GUERRA SEM FIM
A história mostra que barbaridades foram cometidas em nome de várias religiões e opções políticas

1099 - CERCO DE JERUSALÉM > Exércitos cristãos da Europa iniciaram a tomada de Jerusalém, que culminou com o massacre de muçulmanos, judeus e cristãos ortodoxos

1478 - INQUISIÇÃO ESPANHOLA > O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição foi criado para combater muçulmanos que dominavam parte da Espanha. Milhares de pessoas de outras religiões foram mortas sob a supervisão da Igreja católica

1572 - NOITE DE SÃO BARTOLOMEU > Organizados pela monarquia católica francesa, cristãos protestantes foram mortos durante a madrugada do dia 24 de agosto

1792 - TERROR JACOBINO > Mais de 17 mil opositores políticos foram guilhotinados por ordem do grupo jacobino que liderava a Revolução Francesa

1871 - O FIM DA COMUNA DE PARIS > Primeiro governo operário da história, a Comuna de Paris foi dissolvida após um massacre que resultou em prisão, tortura e morte de quase 100 mil trabalhadores

1936 - PROCESSOS DE MOSCOU > Para manter a hegemonia no Partido Comunista da União Soviética, Josef Stálin inicia a perseguição e o fuzilamento de antigos camaradas contrários a suas decisões políticas

1938 - NOITE DOS CRISTAIS > O governo nazista instaura uma política de prisão, assassinato e destruição de propriedades de judeus, sob a coordenação das tropas de assalto do exército alemão

1965 - GOLPE DE ESTADO NA INDONÉSIA > Após a tomada do poder pelo general Suharto, o Partido Comunista da Indonésia foi extinto depois do massacre de quase meio milhão de militantes

1975 - O KHMER VERMELHO > O regime comunista liderado por Pol Pot obrigou os moradores das cidades do Camboja a migrar para o campo, fazendo cerca de 1,5 milhão de vítimas 

2001 - 11 DE SETEMBRO > A organização terrorista Al-Qaeda, alegando agir em nome da religião islâmica, realiza o maior atentado da história em solo norte-americano, causando a morte de 2996 pessoas

2014 - ESTADO ISLÂMICO > Grupo fundamentalista proclama a independência de regiões da Síria e do Iraque, as quais passariam a ser regidas por sua própria interpretação da lei sagrada islâmica
COMO CRIAR UM FANÁTICO
Muitos fatores levam as pessoas a cometer atos de intolerância, mas alguns fatores ajudam a compreendê-los

1. Ao separarmos o mundo em categorias como “cristão” ou “fã da Apple”, nos incluímos em grupos que correspondem a nossas necessidades

2. Em um coletivo, somos sugestionados a exaltar pontos que o beneficiam, ignorando as fragilidades e tudo o que vai contra suas ideias e criando assim um inimigo a ser combatido

3. Esse sentimento de conexão é aumentado pelo poder das narrativas. Nosso cérebro precisa de histórias, como a de Jesus Cristo, por exemplo, para criar relação emocional

4. Quando o grupo é uniforme, ele cria uma mentalidade coletiva, com os mesmos valores e objetivos. Sentir-se parte do grupo é o que psicólogos chamam de identidade social

5. Os que têm identidade social intensa abrem mão de outras referências, estreitando sua percepção e reforçando as emoções que os ligam ao grupo

6. Sob influência do meio (e, em muitos casos, de um líder carismático), multidões podem lutar por benefícios comuns, como direitos civis, ou por catástrofes, como a ascensão do nazismo

7. Com o devido incentivo, as pessoas são capazes de fazer em grupo coisas que não fariam sozinhas
POLÍTICA NO DNA
A partir de análises de estímulos biológicos, o norte-americano John Hibbing, coordenador do Laboratório de Fisiologia Política da Universidade de Nebraska-Lincoln, afirma que nossas opções políticas nem sempre estão relacionadas a decisões racionais

Como essa pesquisa foi desenvolvida?
Medimos movimentos musculares, padrões cardiovasculares e estímulos cerebrais, correlacionando essas análises biológicas às opiniões de cada pessoa a respeito de um amplo número de temas políticos controversos. Indivíduos que apresentavam uma forte ativação na região cerebral da amígdala quando expostos a estímulos negativos ou nojentos tendiam a adotar posições políticas conservadoras, relacionadas a segurança e tradição.

Então é possível dizer que o cérebro pode determinar nossa visão política?
Não, “determinar” é um termo muito forte neste caso, mas os padrões de ativação cerebral estão relacionados a nossa orientação política. Temos certas predisposições inconscientes que se espreitam em nós, e geralmente elas ajudam a determinar preferências políticas particulares em temas sociais, como nossa opinião a respeito de imigração. Quando apresentávamos imagens desagradáveis, como casas pegando fogo, pessoas usando o banheiro ou um homem comendo minhocas, o estímulo na região da amígdala era maior em pessoas com opiniões conservadoras. Essas medições biológicas se corresponderam bem em relação a opiniões políticas, porém menos nas questões econômicas.

O fanatismo político é potencializado por condições predeterminadas do cérebro?
Pessoas que têm sentimentos políticos intensos possuem uma assinatura biológica diferente e identificável. Em nosso trabalho, focalizamos as diferenças entre pessoas de esquerda e de direita, mas também estamos interessados nas diferenças entre os que são politicamente apáticos e aqueles tão envolvidos que podem cometer algum tipo de violência com motivos políticos.
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