Por intermédio dos espaços virtuais que os exprimiriam, os coletivos humanos se jogariam a uma escritura abundante, a uma leitura inventiva deles mesmos e de seus mundos(...) poderemos então pronunciar uma frase um pouco bizarra, mas que ressoará de todo seu sentido quando nossos corpos de saber habitarem o cyberspace: “Nós somos o texto.” E nós seremos um povo tanto mais livre quanto mais nós formos um texto vivo.
Pierre Lévy

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Racismo

PROPOSTA 1

No Brasil, a chaga do racismo manifesta-se, muitas vezes, em práticas cotidianas percebidas apenas pelos negros, mas adquire visibilidade, vez ou outra, quando toca em certos grupos socioeconômicos privilegiados ou atinge níveis ultrajantes de violência física ou simbólica. Casos como o de um casal branco da elite carioca que teve o filho negro humilhado em uma concessionária da BMW, da caloura branca pintada de negra para representar sua condição de "escrava" e "subordinada" no trote da universidade federal de Minas Gerais, em 2013; os inúmeros eventos de racismo no futebol ocorridos em 2014 reacenderam o debate.
O fato é que as denúncias de racismo cresceram no Brasil nos últimos anos. Não em razão de um aumento do racismo, mas da aplicação da legislação que, desde 1988, tipificou a prática como crime inafiançável. Isso, de algum modo, revela o impacto da legislação sobre condutas sociais: aquilo que já estava "naturalizado" no comportamento social (como a discriminação implícita ou explícita aos negros em piadas, programas humorísticos e exigências estéticas para a contratação de funcionários), passou a ser objeto de demandas judiciais.
No entanto o mito de "democracia racial" atrapalha a percepção do racismo no país, sobretudo por aqueles que têm a pele mais clara. Um dos motivos dessa dificuldade é a diversidade fenotípica ímpar da população brasileira: os brasileiros, por serem produto da miscigenação, apresentam uma enorme variedade de tons de pele, formato de olhos, bocas, corpos. Isso, porém, não eliminou práticas cotidianas de diferenciação de pessoas em razão de a tonalidade da pele ser mais escura ou mais clara. Como disse o antropólogo Darcy Ribeiro, a miscigenação criou o brasileiro, esse "Zé-ninguém" - que não é branco, índio ou negro -, mas a vida social e a estrutura econômica dividiram esse zé-ninguém em dois grupos: os privilegiados (cuja tez é mais clara) e os marginalizados (cuja tez é mais escura).
Por isso, negro no Brasil não é uma herança genética ou genealógica, mas sobretudo uma percepção fenotípica e social.
O problema é que muitos creem que essa miscigenação gerou um "paraíso racial" e que aqui negro não sofre discriminação, mas dispõe das mesmas oportunidades que brancos. A comparação com situações de apartheid ocorridas na África do Sul e nos Estados Unidos  embota a visão acerca da realidade brasileira. Naqueles territórios, construíram-se "muros" étnicos explícitos em legislações e espaços apartados (com leis que proibiam uniões inter-raciais e até o compartilhamento do mesmo espaço público). Lá, ser negro era um fator indicado na origem, não no fenótipo. A tonalidade da pele - mais clara ou escura - era apenas um detalhe se o indivíduo possuísse ancestralidade negra.
Ao contrário da brutalidade desse racismo escancarado, o racismo brasileiro consolidou-se de um modo mais cínico. Intelectuais como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda compreenderam, cada um a seu modo, esse fenômeno que ao mesmo tempo legitimou a miscigenação e ajudou a dissimular o racismo. O negro escravizado aqui manteve pontos de contato com o branco dentro de um violento sistema de dominação encoberto por laços supostamente afetivos. O mesmo negro explorado, escravizado, coisificado pelo branco adentrava a casa do senhor - e depois os sobrados das cidades "livres" - e partilhava, ainda que de modo subalterno, o ambiente doméstico, seja para trabalhar, seja para prestar serviços sexuais. Era a negra que amamentava os filhos da branca, que iniciava sexualmente o jovem, que lhe preparava o alimento. Assim, surgiu um subterfúgio ainda hoje usado para tratar de modo emocional e familiar uma relação que sempre foi de exploração. Trata-se do "homem cordial", explicado por Sérgio Buarque de Holanda como aquele que estabelece relações de ordem emocional (cordial vem de "coração") para acobertar situações de ordem material (como a exploração e a corrupção).
Com a abolição legal da escravidão negra, os antigos escravos e senhores reproduziram, na sociedade "livre" essa mesma lógica: senhores passam a ser cidadãos moradores dos sobrados e continuam a receber - e explorar - os negros como subalternos, empregados nos casarões, mas esquecidos nos mucambos das periferias.
Já na sociedade "livre" do início do século XX, os motivos reais da escravização do negro    foram esquecidos e ampliou-se o espaço de teorias racialistas que preconizavam o negro como "inferior" para propagar a necessidade de se promover o "embranquecimento da raça" como condição para o desenvolvimento do país. Não se discutiu o fato de escravidão ser mantida em razão de configurar um negócio extremamente lucrativo, nem o fato de o negro liberto ter sido condenado à marginalização social, uma vez que não lhe fora reservado nenhum espaço na nova estrutura baseada no trabalho assalariado de europeus (os "branqueadores" que nos livrariam da desordem e do atraso). Embora a escravidão já estivesse formalmente extinta, sua obra ainda estava de pé tanto nas práticas sociais - por meio da negação de qualquer oportunidade ao negro - quanto no discurso de que o negro não "melhora" de vida porque não quer ou porque não tem capacidade.  Assim, parecia "lógico" perceber a escravidão e a marginalização social como decorrências naturais de um povo propenso à servidão, ao trabalho braçal, à depravação sexual e à violência.
 Nesse mesmo contexto, os mestiços de pele mais clara ("mulatos") gozam de certos privilégios e conseguem até ingressar em alguns círculos brancos. Ao fazê-lo, no entanto, são social e culturalmente "branqueados": negam sua origem e identidade, assumem uma identidade e um discurso branco e, assim, surge um personagem familiar ao racismo à brasileira: o "negro de alma branca".
A atual percepção de que se vive em uma sociedade miscigenada e por isso livre do ódio racial é, portanto, falsa. Trata-se de uma visão simplista e facilmente contestada por estatísticas que atestam a disparidade entre negros e brancos quanto a emprego, renda,  vitimização (132,3% maior que a de brancos) e acesso ao ensino superior.

A partir dessas reflexões, escreva uma dissertação sobre o tema:

Existe racismo no Brasil?

Assuma uma tese clara. Abaixo sugiro dois caminhos:

SUGESTÃO 1
Tese: Existe racismo no Brasil. Ele se manifesta cada vez menos de modo explícito e mais de modo velado.

Discutir na argumentação:
Como o racismo se manifesta no Brasil?
Por que ele existe, como ele se consolidou?
Que impactos tem gerado à vida da população negra e à própria organização social do país?

SUGESTÃO 2
Tese: Não existe racismo no Brasil. Há alguns poucos casos isolados de práticas racistas. O que prevalece é um bom convívio entre os diferentes grupos sociais e um grande exagero por parte de quem considera qualquer comportamento ousado uma manifestação racista.

Discutir na argumentação:
 Como se constituem as relações inter-raciais no Brasil? Por que elas não são racistas?
Por que as manifestações muitas vezes acusadas de racistas (como o desfile de Ronaldo Fraga e o trote da UFMG) na verdade não são racistas?
 Por que há certo exagero na avaliação de qualquer brincadeira ou referência que um branco faz a negros no Brasil?
Que impactos esse discurso de ódio (considerar qualquer atitude racismo) pode gerar?




(Proposta PUC)
Viva a banana!
Daniel Alves, o lateral direito brasileiro que joga pelo Barcelona FC, causou um terremoto no domingo passado (27/4) ao pegar, descascar e comer uma banana jogada nele como insulto racista durante um jogo do campeonato espanhol no estádio El Madrigal, contra o Villarreal, na cidade espanhola homônima. Logo depois desse episódio lamentável, o Barcelona virou o jogo aos 37 minutos do segundo tempo, quando o atacante argentino Lionel Messi marcou o gol que deu a vitória por 3 a 2 à equipe catalã. Foi o resultado perfeito.
O gesto de Daniel Alves se tornou um viral na internet. Neymar Jr., seu colega brasileiro de equipe, postou uma foto no Instagram que o mostrava ao lado do filhinho Davi Lucca. Neymar tinha uma banana descascada nas mãos. Davi Lucca tinha um brinquedo em forma de banana descascada, quase de seu tamanho. Neymar tem 10,4 milhões de seguidores no Twitter e 4,6 milhões no Instagram. A assinatura da foto (em português, inglês, espanhol e catalão) dizia “somos todos macacos, somos todos iguais. Diga não ao racismo!” (...)
O tuíte de Neymar foi planejado por uma agência de publicidade. Mas, e daí? A reação de Daniel Alves a um insulto racista e a esperteza de Neymar nas mídias sociais já receberam apoio de músicos, de artistas de TV e de outros jogadores de futebol, como os brasileiros Oscar, David Luiz e Willian, do Chelsea (Inglaterra), do italiano Mario Balotelli, do Milan FC, bem como do primeiro-ministro de seu país, Matteo Renzi, e foram vistas por dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo. E isso é uma boa notícia. Viva Daniel Alves! Viva Neymar! Viva a banana! De fato, o Brasil deveria adotar a banana como símbolo informal da Copa do Mundo deste ano. Kenneth Maxwell. Folha de S.Paulo, 1 de maio de 2014, p.2. Tradução de Paulo Migliacci

«A hashtag #somostodosmacacos é mais uma das muitas idiotices da modinha das selfies. Serem comparadas a macacos é provavelmente a primeira e a mais frequente ofensa racial sofrida pelas pessoas de etnia negra. Afoitas por likes de Twitter e Facebook, as celebridades comendo banana transformaram o assunto numa grande brincadeira, sem atentar para o fato de que os maiores atingidos por tal ofensa – os negros – querem e merecem distância de qualquer comparação com esse ou qualquer outro animal. Não somos todos macacos. Negros não são macacos. Ninguém é macaco. Racismo é crime e deve ser combatido com punições severas, e não com bananas.» Carta de leitor da reportagem: A resposta de Daniel Alves ao racismo, in Revista Veja, edição 2373, de 14 de maio de 2014, p.34.

PROPOSTA – A ação praticada pelo jogador brasileiro Daniel Alves, na Espanha, repercutiu nos jornais e telejornais nacionais e internacionais, nas redes sociais, nas conversas informais, enfim, fomos todos convidados a opinar sobre um assunto muito polêmico. Escolhemos dois textos que mostram pontos positivos e negativos sobre o tema "Somos todos macacos".
Construa um texto dissertativo-argumentativo na modalidade escrita formal da língua portuguesa, concordando ou não com as ideias apresentadas pelos autores. Desenvolva de forma clara e coesa os argumentos que exponham o seu ponto de vista sobre este assunto. Dê um título ao seu texto.


Esporte: integração ou discriminação?

    Proposta PUC/SP
Leia os textos e observe as imagens:
Jogos Olímpicos de Berlim-1936. Adolf Hitler, que inicialmente era contra o evento esportivo na
Alemanha, acabou convencido de realizar a Olimpíada para alavancar a propaganda do Nazismo e a doutrina da supremacia da raça ariana. Mas o discurso racista do ditador acabou desmentido pelo desempenho de um atleta negro americano: Jesse Owens. Os nazistas aproveitaram o evento esportivo para a propaganda do regime de Hitler. O forte incentivo aos atletas fez a Alemanha ficar no topo do ranking de medalhas, com 33 ouros contra 24 dos EUA. Mas, apesar da vitória, o discurso nazista caiu por terra diante dos feitos de Owens, que liderou os americanos no atletismo ao conquistar as medalhas de ouro nos 100m, 200m, revezamento 4x100m e salto em distância."
_"Cem anos de Jesse Owens, o homem que desafiou Hitler", inhttp://www.lancenet.com.br, 12.09.2013 (Acesso em 27.05.2014).Adaptado

"O comissário da NBA, Adam Silver, anunciou nesta terça-feira, em entrevista coletiva, que Donald Sterling, dono da franquia Los Angeles Clippers, está banido pelo resto da sua vida da liga de basquete, como consequência dos comentários racistas feitos por ele para sua namorada, que vieram à tona no fim de semana e geraram enorme repercussão dentro dos Estados Unidos. Silver também confirmou que Sterling sofrerá a multa máxima permitida dentro da constituição da NBA, que é de US$ 2,5 milhões. (R$ 5,5 milhões). O comissário também afirmou que fará de tudo para que o dono dos Clippers venda a equipe para outra pessoa, a fim de desvinculá-lo completamente da liga."  "Dono dos Clippers é banido da NBA depois de comentários racistas", http://esportes.terra.com.br, 29.04.2014 (Acesso em 28.05.2014).


"Com [a cineasta] Leni Riefenstahl, e seus famosos O triunfo da vontade e Olympia, o cinema nazista não só propôs uma nova modalidade de filme de propaganda, mas também alcançou um nível
invejável de realização estética. (...) Olympia, consagrado aos jogos olímpicos de 1936, é muito mais que um simples documentário é um hino de exaltação à Alemanha nazista, através da glorificação
da força física, da saúde e da pureza racial, miticamente fotografadas. Foram necessários 800 mil
metros de filme rodados para mostrar, através do sacrifício individual de cada atleta, como essa força e essa energia forjavam a nação, aceitas pelo sacerdote intermediário, o Führer."
Alcir Lenharo. Nazismo: o triunfo da vontade. São Paulo: Ática, 1986, p. 59-60.


Cena de “Olympia”, filme de Leni Riefenstahl (1936)

"Os habituais clichês, que todos nós conhecemos, dizem que o esporte seria uma das coisas secundárias mais lindas do mundo, que o esporte é lazer, que até te mantém com mais saúde e unifica nações. Muitos até levantam a tese de que o esporte é um verdadeiro aliado-incentivador na promoção de um internacionalismo mais autêntico e amigo. Compreensível, então, que sejam glorificadas as virtudes do esporte, como fairness [imparcialidade], solidariedade, empenho pessoal, etc."
Uwe MULLER. Esporte e Globalização In: Motrivivência – Revista de Educação Física, Esporte e Lazer UFSC, nº 10, 1997. https://periodicos.ufsc.br/ (Acesso em 27.05.2014)




A partir da leitura dos textos e das imagens, escreva um texto dissertativo, considerando:
– a importância da questão racial no nazismo;
– a persistência de práticas racistas, associadas aos esportes, nos dias de hoje;
– a pertinência (ou não) do papel integrador do esporte dos diferentes povos e países.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Filosofia pós-moderna – Foucault: A genealogia dos micropoderes


Filosofia pós-moderna – Foucault: A genealogia dos micropoderes


Publicado há 10 horas - em 19 de setembro de 2014 » Atualizado às 9:54 
Categoria » Em Pauta





José Renato Salatiel

Desde crianças, adoramos os super-heróis. Torcemos por eles e esperamos que derrotem os vilões. São narrativas importantes em nossas vidas, e nos ajudam a assimilar noções de bem e mal, certo e errado. Em geral, nos identificamos também como o mais fraco, que desafia o poder do mais forte, como o tímido e fraco Clark Kent, que usa seus poderes secretos, como Superman, para derrotar Lex Luthor. Afinal de contas, também somos fracos e o mundo, tão cruel, que não custa imaginar que temos algum tipo de superpoder para enfrentar os vilões que aparecem pelo caminho.

Agora, imaginem a confusão de uma HQ (História em Quadrinhos) como Watchmen- cujo filme estreia em 2009 -, em que os super-heróis cuidam de sua própria vida, não têm mais uma “causa” pela qual lutar e, pior, alguns deles comportam-se como vilões! Escrita nos anos 80 por Alan Moore, o enredo é tipicamente pós-moderno. Em uma realidade fragmentada, com um cotidiano multifacetado e sem coesão, como agiriam os super-heróis? E como fica a questão do poder?

Para responder a essas perguntas, vamos conhecer um pouco do pensamento de Michel Foucault (1926-1984), um dos mais conhecidos e estudados filósofos franceses contemporâneos, sendo alinhado, por suas teorias, tanto entre os estruturalistas como entre os pós-estruturalistas ou pós-modernos. De sua obra, nos interessa discutir aqui apenas sua teoria do poder.
Poder no plural

Antes de Foucault, a teoria política concebia o poder como algo que uns tem, outros não, além de estar associado, mais comumente, à figura da Igreja ou do Estado. Toda teoria política clássica, de Maquiavel e os contratualistas (Hobbes, Locke e Rousseau) até Marx, discutia-se como legitimar o poder de uns poucos sobre muitos, e assim, manter (ou subverter, no caso de Marx) a ordem social.

Foucault entende o poder não como um objeto natural, mas uma prática socialexpressa por um conjunto de relações. Temos que pensar o poder não como uma “coisa” que uns tem e outros não, como, por exemplo, o pai e o filho, o rei e seus súditos, o presidente e seus governados, etc., mas como uma relação que se exerce, que opera entre os pares: o filho que negocia com o pai, os súditos que reivindicam ao rei, os governados que usam dispositivos legais para fiscalizar o presidente, etc.

Deste ponto de vista, poder não se restringe ao governo, mas espalha-se pela sociedade em um conjunto de práticas, a maioria delas essencial à manutenção do Estado. O poder é uma espécie de rede formada por mecanismos e dispositivos que se espraiam por todo cotidiano – uma rede da qual ninguém pode escapar. Ele molda nossos comportamentos, atitudes e discursos.

Para descobrir como o poder funciona, Foucault vai usar o método genealógico, empregado por Nietzsche para contar a “história secreta” dos valores (ver o texto“Filosofia pós-moderna – Nietzsche”). Vamos ver alguns exemplos disso.
Corpos dóceis

Uma manifestação externa desses poderes que Foucault analisa diz respeito aos seus efeitos sobre nossos corpos, que ele chama de poder disciplinar e que caracterizou determinadas sociedades no século 20.

Foucault argumenta que nenhum poder que fosse somente repressor poderia se sustentar por muito tempo, porque uma hora as pessoas iriam se rebelar. Portanto, seu segredo é que, ao mesmo tempo em que reprime, gera conhecimento e corpos produtivos para o trabalho.

Era comum, e ainda é nos dias atuais, encontrarmos pátios escolares em que se formam filas com crianças para entrar nas salas de aula. Depois, na sala de aula, era preciso que as crianças controlassem suas vontades corporais (fome, vontade de fazer xixi, etc.) até que tocasse o sinal. Este é um exemplo da domesticação de corpos de que fala o filósofo.

Mais tarde, na Igreja, no Exército e nas fábricas, esse indivíduo viveria a mesma rotina de adestramento corporal. O objetivo? Segundo Foucault, maximizar a utilidade econômica de nossos corpos, para o trabalho, e diminuir a força política e criativa, de contestação, que temos também, criaturas cheias de desejos que somos.

Afinal de contas, imagine o que seria de uma sociedade, livre de mecanismos de poder, em que quiséssemos trabalhar ou estudar na hora em que desse na telha e resolvêssemos passar a maior parte do nosso tempo namorando, jogando futebol ou simplesmente não fazendo nada? E, para dar o exemplo para aqueles que são considerados corpos improdutivos para a sociedade, diz Foucault, foram criados asilos para os loucos e prisões para os ladrões. Desse encarceramento surgem áreas de conhecimento como a psiquiatria e a criminologia.
Resistências locais

O ponto em que a teoria de poder de Foucault converge com o pós-modernismo é que, da mesma maneira que lidamos com o fim das visões totalizantes de mundo, o poder também se pulveriza em micropoderes. E, consequentemente, a resistência aos poderes passa a ser local, em ações cada vez mais regionalizadas.

Não adianta investir contra o Estado, achando que ele é a causa de todos os males. Ele é apenas uma das representações desse poder que se exerce em uma série de mecanismos, que reproduzimos todos os dias sem ao menos nos darmos conta disso. Por exemplo, quando tratamos com autoritarismo nossos filhos, namoradas ou pais.

E onde Foucault identifica estes focos de resistências locais aos poderes? Nos movimentos ativistas pelos direitos humanos, além de gays, negros, feministas, ecologistas e outras minorias que se organizaram como pólos de contra-poder, principalmente a partir da década de 1960, quando emerge o pós-modernismo.

Neste nosso mundo pós-moderno, fica cada dia mais difícil saber quem é o vilão e quem é o mocinho. Os super-heróis estão cada vez mais humanos. Ou, como diria Nietzsche, demasiadamente humanos.

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista e professor universitário.

Fonte: UOL
19/9/2014Geledés Instituto da Mulher Negra



50 anos depois, quais os avanços e retrocessos?

Há 50 anos, a ditadura militar transformava uma jovem república em um ambiente devastador para ideais e sonhos se concretizarem. Com um pouco mais de meio século, a república sofria um golpe tremendo justamente quando as instituições democráticas pareciam vencer os vícios e entraves de uma república que já nasceu presa a oligarquias e interesses privados. Se Getúlio Vargas, uma década antes, conseguiu, com sua morte, adiar o golpe, Jango não conseguiu fazê-lo e, assim, o país mergulhou em anos de privação de direitos, de "consensos" construídos à força, de silenciamento e/ou morte dos "não-alinhados" com o regime imposto.

Após esses 50 anos, a Comissão Nacional da Verdade obteve vitórias honrosas ( como a modificação da certidão de óbito de alguns presos políticos que até então oficialmente haviam se suicidado, como o jornalista Vladimir Herzog) e, junto com alguns setores da sociedade civil, tem conseguido reescrever algumas páginas de nossa história. Ironicamente, a Constituição Federal chega aos 26 anos, com um Congresso que, embora eleito democraticamente, sofre de uma crise de legitimidade justamente entre os mais jovens que nunca conheceram um regime de privação de direitos no Brasil.

O que mudou nesses 50 anos que nos separam do início da ditadura? Os vícios geridos ou aperfeiçoados nos "anos de chumbo" - a excessiva violência, o desrespeito aos direitos humanos, a impunidade, a corrupção, a despolitização generalizada , o silêncio conivente de setores da imprensa diante dos desmandos da polícia ou de velhas oligarquias, a crise de legitimidade das instituições -  foram superados? É  preciso ainda defender e aperfeiçoar nossa democracia?

Leia a coletânea abaixo e escreva uma dissertação em prosa sobre o tema:

50 anos após a ditadura: quais os avanços e os desafios de nossa democracia?


1)    Proposta Mackenzie
Redija uma dissertação a tinta, desenvolvendo um tema comum aos textos abaixo.
Obs.: O texto deve ter título e estabelecer relação entre o que é apresentado nos textos da coletânea.
Texto I
No momento em que o golpe de 1964 completa 50 anos, a democracia brasileira bate um recorde. A convicção no modelo democrático como a melhor via a ser trilhada nunca foi tão alta [...].Para 62% dos brasileiros, a democracia “é sempre melhor que qualquer outra forma de governo”. Apenas 16% afirmam que “tanto faz se for uma democracia ou uma ditadura”. E 14% admitem que “em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura”. Folha de S.Paulo, 30/03/2014, p. A4
Texto II
Estava eu na sucursal do jornal “O Estado de S.Paulo”, no Rio, quando chegou a notícia de que o general Mourão Filho, comandante da Quarta Divisão de Infantaria, sediado em Juiz de Fora, havia se sublevado contra o presidente João Goulart. Era o dia 31 de março de 1964.
Imediatamente, entrei em contato com os companheiros do Centro Popular de Cultura (CPC), certo de que devíamos nos reunir naquela noite para ver que atitude tomar. Não demorou muito e juntamente com a direção da UNE (União Nacional dos Estudantes), decidiu-se convocar os artistas e intelectuais para encontrarmos um modo de resistir à tentativa de golpe.
Ferreira Gullar


Folha de S.Paulo, 13/03/2009, p. A2
Veja este vídeo:



Textos bacanas sobre o tema:

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Feiras livres: patrimônios da cidade


Feiras livres: um patrimônio de São Paulo
Publicado em 12/09/14 por raquelrolnik


No último dia 25 de agosto, comemoramos 100 anos de existência formal das feiras livres de São Paulo, um verdadeiro patrimônio da cidade. A data se refere à primeira regulamentação desta atividade na capital, o Ato 710, assinado pelo então prefeito Washington Luis, em 1914. A primeira feira oficial da cidade funcionou no Largo General Osório.

Hoje temos 880 feiras espalhadas pelas 32 subprefeituras da cidade. Geralmente, os feirantes tocam o negócio em família, trabalhando em diferentes feiras a cada dia da semana, à exceção da segunda-feira. Hoje são mais de 16.000 barracas de feira na capital, de acordo com informações da prefeitura, em todas as regiões da cidade.

Onde nasce a sexualização precoce


Vogue Kids faz ensaio com crianças em poses sensuais e pode ser acionada pelo MP
11 de Setembro de 2014 by mairakubik 40 Comments










Pernas abertas, calcinha aparecendo, blusa levantada. Se fossem modelos adultas, estaríamos discutindo aqui no blog, mais uma vez, a objetificação do corpo mulheres. Mas são crianças e as fotos, do ensaio “Sombra e água fresca”, publicado pela revista Vogue Kids em setembro, praticamente falam por si.

“Muitas vezes quando pensamos em pedofilia imaginamos um tio pervertido ou em um cara se escondendo atrás de um computador, ou de algo escondido, secreto. Mas a gente não fala de uma cultura de pedofilia, que está exposta diariamente, onde a imagem das crianças é explorada de uma forma sexualizada. A Vogue trouxe um ensaio na sua edição kids com meninas extremamente jovens em poses sensuais. Alguns podem dizer que é exagero. Que é pelo em ovo. Eu digo que enquanto a gente continuar a tratar nossas crianças dessa maneira, pedofilia não será um problema individual de um ‘tarado’ hipotético, e sim um problema coletivo, de uma sociedade que comercializa sem pudor o corpo de nossas meninas e meninos”, afirmou a roteirista Renata Corrêa, uma das primeiras a criticar publicamente a revista.

Futebol, disputa e intolerância

Será o futebol um espaço privilegiado para observar a natureza humana e as implicações de nossa vida social? Durante uma partida, as paixões mobilizadas entre torcedores, jogadores e árbitros representam os instintos humanos? Nesses contextos, o comportamento de rebanho encontra espaço privilegiado para reduzir a racionalidade em favor da agressividade?
 Para pensar sobre isso, leia o texto abaixo e veja a coletânea que o segue.



http://xucurus.blogspot.com.br/2013/11/futebol-e-o-jogo-das-virtudes.html
http://xucurus.blogspot.com.br/2012/03/masculinidade-e-violencia-no-futebol.html
http://xucurus.blogspot.com.br/2014/04/um-planeta-de-macacos-de-bananas-ou-de.html
http://blogs.estadao.com.br/daniel-martins-de-barros/quem-apanha-em-dia-de-jogo/
http://xucurus.blogspot.com.br/2011/09/violencia-sem-disfarce.html
http://xucurus.blogspot.com.br/2011/12/mafalda-e-o-futebol.html
http://infograficos.oglobo.globo.com/esportes/dez-casos-de-racismo-que-envergonham-o-futebol.html
http://www.gazetadopovo.com.br/esportes/futebol/conteudo.phtml?id=1380180
Trecho de livro sobre o tema: http://www.ludopedio.com.br/rc/index.php/biblioteca/recurso/186


Os desafios da educação

PROPOSTA
Políticos, educadores, professores, pesquisadores e alunos têm falado muito sobre a qualidade da aprendizagem nas escolas e faculdades do país. Muitos pais estão satisfeitos; os alunos falam bem ou mal de suas aulas (o que sempre aconteceu); professores reclamam dos salários, mas, em geral, se consideram aptos para ensinar; os governos anunciam incansáveis medidas para a melhoria do ensino. Entretanto, se há situações de excelente formação Brasil afora, o país tem ocupado posições muito baixas nos rankings mundiais de ensino e aprendizagem. Você, que já foi à escola e que vai para a universidade ou já foi: o que acha educação no Brasil? Como o ensino pode, de fato, transformar ou estagnar a vida de uma pessoa? A cultura extraescolar (tevê, livros, música), o exemplo e o acompanhamento familiar, o interesse e o comprometimento de alunos e professores são fatores importantes para a qualidade do ensino?
ELABORE UMA DISSERTAÇÃO CONTEMPLANDO AS DISCUSSÕES ACIMA E OFERECENDO SUGESTÕES DE SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA.

A matéria abaixo, publicada esta semana, constata o que todos já imaginávamos: o ensino médio brasileiro está longe de atingir seus objetivos de desenvolver as potencialidades dos indivíduos, preparar para a vida profissional, para a cidadania e para a autonomia. É bom refletir sobre ele e, assim, observar o que se pode e deve fazer para enfrentar seus desafios.

Leia a coletânea indicada e veja os documentários recomendados para refletir sobre este tema tão relevante e complexo.

Documentários:







Este é um documentário muito recente que vale muito a pena: Educação.doc 

Textos interessantes:
-sobre os gargalos no ensino médio: 
http://xucurus.blogspot.com.br/2013/03/ensino-medio-e-tecnico-profissional.html
- sobre a formação docente
http://xucurus.blogspot.com.br/2013/08/muita-teoria-e-pouca-pratica-formam-os.html
- sobre pensadores que podem ajudar a compreender o problema
http://xucurus.blogspot.com.br/2012/10/educacao-era-da-mutacao-permanente.html
http://xucurus.blogspot.com.br/2010/11/educacao-em-tempos-liquidos-e-celeres.html
http://xucurus.blogspot.com.br/2014/02/educacao-entrevista-com-mario-sergio.html
http://xucurus.blogspot.com.br/2012/04/noam-chomsky-questiona-educacao-para.html

Ideb: ensino médio piora em 13 estados; confira resultados
Ana Elisa Santana - Portal EBC05.09.2014 - 16h51 | Atualizado em 05.09.2014 - 19h00
Divulgados nesta sexta-feira (5) pelo Ministério da Educação (MEC), os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) revelaram um fraco desempenho na avaliação do ensino médio na análise por estados. Para esta etapa do ensino, a meta do Ideb não foi atingida apenas em quatro unidades da federação: Amazonas, Pernambuco, Rio de Janeiro e Goiás. De 2011 a 2013 o desempenho caiu em 13 estados. Considerando apenas o desempenho das redes estaduais, apenas seis estados atingiram a meta esperado do Ideb. Na rede particular, o resultado foi ainda pior: apenas Roraima atingiu a meta prevista para 2013.

Leia também: 





IDEB 2013 – ENSINO MÉDIO
Estado da FederaçãoIdeb 2011Ideb 2013Meta 2013
Rondônia3,73,63,8
Acre3,43,43,8
Amazonas3,53,23,0
Roraima3,63,44,0
Pará2,82,93,4
Amapá3,13,03,5
Tocantins3,63,33,6
Maranhão3,13,03,3
Piauí3,23,33,5
Ceará3,73,63,9
R. G. do Norte3,13,13,5
Paraíba3,33,33,5
Pernambuco3,43,83,6
Alagoas2,93,03,6
Sergipe3,23,23,8
Bahia3,23,03,5
Minas Gerais3,93,84,3
Espírito Santo3,63,84,3
Rio de Janeiro3,74,03,8
São Paulo4,14,14,2
Paraná4,03,84,2
Santa Catarina4,34,04,4
R. G. do Sul3,73,94,3
M. G. do Sul3,83,63,8
Mato Grosso3,33,03,7
Goiás3,84,03,8
Distrito Federal3,84,04,1

Ideb - anos finais do ensino fundamental

Nos últimos anos do ensino fundamental, cinco estados não atingiram a meta para 2013: Pará, Amapá, Tocantins, Sergipe e Santa Catarina. Todas estas unidades da federação, além de não chegarem à nota esperada na avaliação, tiveram o desempenho pior do que a análise feita em 2011. O estado de Mato Grosso também diminuiu o desempenho de 4,5 para 4,4, pontos, mas se manteve dentro da sua meta que era 3,9.

IDEB 2013 – ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL
Estado da FederaçãoIdeb 2011Ideb 2013Meta 2013
Rondônia3,73,94,2
Acre4,24,44,4
Amazonas3,83,93,6
Roraima3,73,74,3
Pará3,73,64,2
Amapá3,73,64,4
Tocantins4,13,94,2
Maranhão3,63,63,9
Piauí4,04,03,9
Ceará4,24,44,0
R. G. do Norte3,43,63,7
Paraíba3,43,53,6
Pernambuco3,53,83,6
Alagoas2,93,13,3
Sergipe3,33,23,9
Bahia3,33,43,6
Minas Gerais4,64,84,6
Espírito Santo4,24,24,7
Rio de Janeiro4,24,34,5
São Paulo4,74,75,0
Paraná4,34,34,4
Santa Catarina4,94,55,1
R. G. do Sul4,14,24,7
M. G. do Sul4,04,14,2
Mato Grosso4,54,43,9
Goiás4,24,74,4
Distrito Federal4,44,44,7


Ideb - anos iniciais do ensino fundamental

Entre todas as unidades da federação, apenas o Amapá e o Rio de Janeiro não atingiram a meta total esperada para 2013 na análise dos anos iniciais do ensino fundamental. No Amapá, o Ideb caiu de 4,1 para 4,0, quando a projeção a ser atingida deveria ser 4,3. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, a nota passou de 5,1 para 5,2, mas o desempenho não foi suficiente para alcançar a meta de 5,4 pontos prevista para 2013. O Pará também teve desempenho inferior em 2013 em relação a 2011: o Ideb caiu de 4,2 para 4,0, mas o estado se manteve dentro da meta para o ano, que é 3,8 pontos. Em contrapartida, os outros estados tiveram aumento da nota geral e conseguiram atingir as suas metas. As maiores notas do país para esta fase do ensino são em São Paulo (6,1), Minas Gerais (6,1) e Santa Catarina (6,0).


IDEB 2013 – ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL
Estado da FederaçãoIdeb 2011Ideb 2013Meta 2013
Rondônia4,75,24,7
Acre4,65,14,5
Amazonas4,34,74,2
Roraima4,75,04,8
Pará4,24,03,8
Amapá4,14,04,3
Tocantins4,95,14,6
Maranhão4,14,14,0
Piauí4,44,53,9
Ceará4,95,24,3
R. G. do Norte4,14,43,8
Paraíba4,34,54,1
Pernambuco4,34,74,3
Alagoas3,84,13,6
Sergipe4,14,44,1
Bahia4,24,33,8
Minas Gerais5,96,15,7
Espírito Santo5,25,45,3
Rio de Janeiro5,15,25,4
São Paulo5,66,15,8
Paraná5,65,95,6
Santa Catarina5,86,05,5
R. G. do Sul5,15,65,3
M. G. do Sul5,15,24,7
Mato Grosso5,15,34,7
Goiás5,35,75,2
Distrito Federal5,75,95,8


O que é o Ideb?

Criado em 2007 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Ideb tem o objetivo de medir a qualidade do aprendizado nacional e estabelecer metas para a melhoria do ensino no país. O indicador é divulgado a cada dois anos e é calculado a partir de dois componentes: a taxa aprovação e as médias de desempenho dos alunos nas avaliações aplicadas pelo Inep. A partir desses dados são calculados o Ideb de cada escola, rede de ensino, município e estado, além da média nacional.
Direitos autorais: Creative Commons - CC BY 3.0

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Sobre a menoridade, a covardia e a preguiça

"Preguiça e covardia são as causas que explicam por que uma grande parte dos seres humanos, mesmo muito após a natureza tê-los declarado livres da orientação alheia, ainda permanecem, com gosto, e por toda a vida, na condição de menoridade. É tão confortável ser menor! Tenho à disposição um livro que entende por mim, um pastor que tem consciência por mim, um médico que prescreve uma dieta etc.: então não preciso me esforçar.
A maioria da humanidade vê como muito perigoso, além de bastante difícil, o passo a ser dado rumo à maioridade, uma vez que tutores já tomaram para si de bom grado a sua supervisão. Após terem previamente embrutecido e cuidadosamente protegido seu gado, para que estas pacatas criaturas não ousem dar qualquer passo fora dos trilhos nos quais devem andar, os tutores lhes mostram o perigo que as ameaça caso queiram andar por conta própria. Tal perigo, porém, não é assim tão grande, pois, após algumas quedas, aprenderiam finalmente a andar; basta, entretanto, o perigo de um tombo para intimidá-las e aterrorizá-las por completo para que não façam novas tentativas."
(Immanuel Kant, apud Danilo Marcondes. Textos básicos de ética — de Platão a Foucault, 2009. Adaptado.)

30 anos entre céu e mar


30 anos entre céu e mar


Três décadas após cruzar o Atlântico a remo, Amyr Klink diz que a prática da navegação a sós está facilitada pela tecnologia, mas dificultada por mudanças ambientais e comportamentais

RAFAEL GARCIADE SÃO PAULO

O único explorador até hoje capaz de remar sozinho da África ao Brasil comemora em 18 de setembro os 30 anos de seu desembarque na Bahia. A reflexão que Amyr Klink, 59, oferece agora é a de que a experiência de navegar o mundo se tornou diferente: facilitada pela tecnologia, mas dificultada por mudanças ambientais e pelo sumiço dos espíritos solidários do radioamadorismo.

Depois de contar a viagem no livro "Cem dias entre céu e mar", Klink diz que esperava ver "dezenas" de outros navegadores repetindo o feito. Até agora, ninguém o fez, mas há três remadores dispostos a tentar em 2015.

Em depoimento à Folha embaixo do domo que construiu em sua casa, em Moema, o navegador fala sobre o que passa por sua cabeça três décadas após sua canoa IAT aportar em Camaçari (BA).

30 anos no mar

Cinco anos depois da viagem desse barquinho, eu fiz a primeira viagem para a Antártica e não parei mais. (...) Estou surpreso, porque achei que aos 40 ou 50 anos eu já estaria morto. Fisicamente, me sinto bem. Não tenho nenhuma restrição. (...) Imaginei que haveria dezenas de travessias por ano [feitas por outros remadores], mas por alguma razão não aconteceu. O brasileiro gosta de praia. Já de mar...

Radioamadorismo

Naquela época não tinha navegação de precisão, previsões meteorológicas eram altamente precárias, mas já existia o radioamadorismo. Eu falava com meia dúzia de radioamadores, mas tinha dezenas de milhares no mundo todo me acompanhando. Na época o radioamadorismo talvez estivesse no seu auge. (...) Por incrível que pareça, o mundo ficou um pouco mais solitário. Hoje você é um indivíduo isolado. Ninguém quer saber onde você está. Esse espírito de solidariedade está de certa forma se esvaindo.

Aquecimento global

O aquecimento a gente percebe na Antártica. Percebemos o recuo de geleiras, o aumento do número de grandes gelos em alto mar --um sinal de que as geleiras estão despejando mais icebergs tabulares.

Buraco na camada de ozônio

O que mais me impressionou foi o aumento do ultravioleta. A gente sente na pele hoje. Há 20 anos, na Antártica, a gente passava uma temporada inteira tirando a camisa em dias de sol, ou pelado. Hoje, se você fica 30 minutos sem camisa lá você vai para uma UTI.

Vendavais

A segunda mudança visível em termos climáticos para quem vai regularmente para essas regiões extremas é a média de ventos. Antigamente, as pessoas falavam em tempestades terríveis com ventos de 45 nós. Hoje em dia a gente pega ventos de 80 ou 90 nós. No ano retrasado, estávamos com as crianças lá e pegamos 110 nós [200 km/h].

GPS

Em 1984, não existia GPS. Ele começou do meio para o fim dos anos 1980. Quando fiz a primeira viagem [em grupo] para a Antártica, em 1986, a gente usava navegadores por satélite que tinham imprecisão enorme. O primeiro aparelho acessível ao grande público apareceu em 1989, mais ou menos, quando fiz a primeira descida sozinho para a Antártica. Era uma coisa tão maravilhosa que eu botava o aparelho numa caixinha de veludo e abria uma vez ao dia.

Meteorologia

O que facilitaria muito hoje [uma nova travessia] é a facilidade de se obter dados confiáveis de meteorologia. (...) A gente tem hoje modelos matemáticos com dados da NOAA [agência atmosférica dos EUA] que dão previsões de até 72 horas com precisão dramática. (...) O problema é que a turma está abusando. A francesada desce para a Antártica hoje em barcos amarrados com arame, completamente despreparados e de forma precária. A chance de ter um acidente é grande.

Novos remadores

Alguns estão se mirando na minha travessia para se prepararem [para cruzar o Atlântico Sul]. Alguns não. Esse americano, Victor Mooney, não conhecia a minha experiência até três anos atrás. O barco dele foi projetado no Brasil, e acho que o projeto é péssimo. Tem outro cara [Caetano Altafin] que ainda está projetando o barco e outro [Angelo Corso] que já está construindo. Eu acho que ele vai ser bem-sucedido, porque é um cara dedicado.

À deriva

Ele [Corso] tem um bom projeto. Uma boa mistura entre a tecnologia e design avançado, mas com as propriedades funcionais de um barco à deriva. Em mais da metade do tempo [na hora do remador dormir e descansar], o barco é um casco a deriva. (...) O cara que faz um barco para navegar, apenas, vai fazer o projeto errado.

A construção do domo

É uma brincadeira. Hoje existe uma legião pelo mundo de adoradores da matemática do Buckminster Fuller [arquiteto famoso pelos domos]. Ele não era um cara que pensava só em geodésicas; pensava na eficiência da habitação, do transporte, no futuro, na preservação do clima. (...) Tenho todos os livros dele. Adorei o modo de o cara pensar. Ele construiu várias teorias sobre assuntos que eu acho legais: eficiência, durabilidade, baixo custo e acessibilidade.
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